Da escalada ao prêmio Nobel : A história de Michel Kosterliz

Nos anos setenta, na Escócia, as falésias já existiam há séculos, mas o conceito de uso das falésias não era, assim, antigo. As preocupações eram a fome, pássaros que fazem seus ninhos nos penhascos escoceses e que, até hoje, punem qualquer um, que tenta se aproximar, com suas rajadas de excrementos.

Nos anos setenta, quando Michael Kosterliz chegou a estudar na Itália, em Torino, para depois em um fim de semana ir escalar no Vale de Órcia, deve ter procurado a fome no céu.

Por sorte não existia, e Kosterliz pôde com toda tranquilidade mudar para sempre a estória da escalada. Ele, escocês, classe de 1943, estava de passagem durante um ano de estudo na universidade de Torino quando conheceu a Itália do alpinismo duro e cru. Em 1972 no Vale de Orcia deixou uma rocha de sete metros (um high ball que tem o jargão entre uma rocha muito alta e uma aderência baixa de falésia) caracterizado por uma fenda ao centro como a fenda Kosterliz. A fenda, implica um novo modo de usar o corpo para escalar. “Quando cheguei ali para escalar pela primeira vez eu disse: uau, que maravilha aqui tem de tudo para escalar” conta a poucas horas de ter ganho o Climbing Ambassador por Dryarn de Aquafil durante o Arco Rock Legends Awards 2017, o equivalente para a escalada a um Oscar de carreira dado pela Academia. Mike Kosterlitz porém, não é um que vence um prêmio de carreira e agrada somente a quem é doente por montanha. O escocês, com o sobrenome menos escocês, é o pai do boulder que, até hoje, na Itália não era uma coisa boa simplesmente porque não se sabia como abordá-lo.

Foto : Arquivo pessoal Mike Kosterlitz

Mike Kosterliz não tem dúvidas de que, junto aos amigos italianos Gian Piero Motti e Gian Carlo Grassi e depois daquela fenda,  nasceu a Nova Manhã do alpinismo, conta à vontade em sua camisa pólo azul e seus óculos de professor, a mesma que em 2016 foi retirar o Prêmio Nobel de Física junto aos colegas David Thouless e Duncan Haldane, com uma voz didática e doce enquanto atrás dele passa uma cena do 31º Rock Master do Arco de Trento.

O trio desenterrou “as descobertas teóricas de transação topológica de fase e as fases topológicas da matéria”: tenta explicar reduzindo tudo a mínimos termos, mas o seu conceito de simples e imediato é o mesmo que há 40 anos atrás explicou – na prática – seu conceito de escalada.

Um prêmio Nobel alpinista faz notícia: Prêmio Nobel de física e um alpinista iluminado é somente a descrição deste homem que, silenciosamente, mudou as vidas de alpinista e não alpinistas. Enquanto aguardamos a chegada de Adam Ondra, o tcheco que subverte a física e leva o homem a escalar graus ainda mais extremos (três 9b+ Fr e um 9c Fr na Noruega no trabalho realizado em Arco e leva para casa o 31º Rock Master Duel, aos olhos de Jakob Schubert que em Arco venceu a “Lead World Cup”) Mike Kosterliz continua a minimizar seu papel: “era simplesmente obcecado pela física e pela montanha. Quando conheci a minha futura mulher (Berit) eu disse a ela claramente que a minha escala de prioridade a colocava em terceiro lugar: depois da física e da montanha”.

Homem machista, egoísta e moralista? Mas a resposta da futura mulher foi de manual: “Viveremos em Genebra, no local mais próximo do trabalho e que tenha montanha, e ela desceu na banca de jornal, comprou uma revista de anúncio de trabalho, procurou um anúncio para uma cadeira na Universidade de Birmingham e assim me vi num lugar onde nunca, nunca, nunca pensei que fosse viver, o local mais triste e industrial do mundo sem sombra de montanha”.

Aquele anúncio circundado de caneta foi emoldurado tanto quanto o premio Nobel que Michael Kosterliz recebeu porquê poucos anos depois uma doença arquivou para sempre a paixão de Kosterliz pela montanha impedindo outros sonhos loucos, construído com os músculos das costas e clareza mental invejável. “Me recordo a vez que realmente tive medo: escorreguei durante uma escalada no gelo. Escorregava devagar e constantemente: procurava obrigar minha mente a focar no pensamento que a descida terminaria rápido, e eu não estaria mais ali”. Os acidentes e o medo de não saber dar um limite a própria paixão é praxe dos erros: Manolo, Maurizio Zanolla, falamos dos milímetros que separam paixão e destruição.

Kosterliz resume sua vida “feliz, muito feliz”, em  “uma série de acidentes de sorte”, ou mesmo em situações as quais a obsessão se torna muito perigosa ao ponto de fazer perder os amigos. Mas a questão que deveria ser banida é aquela de perguntar quem foi deixado na parede, porque esta pergunta mata também os heróis mais históricos.

Cada palavra Kosterliz avalia na mente antes de fazer sair da boca: não quer definição imprecisa.

Se perguntar a ele quais memórias são as mais brilhantes ele responde com muita precisão sem se perder nos meandros das definições de gênero, ou parábolas sociais a todos os custos: “Certamente que existem, mas agora não me lembro dos nomes, mas há, pois, homens muito bem preparados. Em ambos os casos (na física e na escalada) o sexo não faz nenhuma diferença, não deve interessar: simplesmente que diferença faz?”.

Simplesmente são apenas pessoas que sabem como resolver problemas na parede e no mundo.

Tradução de texto de Manuela Ravasio

Sobre o Autor

Flávia Arpini

Flávia Arpini

Flávia é formada em psicologia com ´pos graduação em Recursos Humanos e MBA em Gerenciamento de Projetos. Atuou em Florianópolis, São José dos Campos e Rio de Janeiro.
Possui experiência em recrutamento, e é especializada em Treinamento e Aperfeiçoamento de Lideranças. Hoje está entre Itália e Brasil atuando como consultora de RH e Coaching. É praticante de trekking.

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