Route setter: Como aprender e onde fazer cursos para certificação

Desde que os ginásios de escalada começaram a tornar-se um modelo de negócio explorável, criou-se a necessidade de que uma pessoa fosse responsável por montar e idealizar as linhas de boulder e vias de escalada. Assim nasceu a figura do route setter, profissional responsável por idealizar o tipo de experiência de escalada dentro do estabelecimento. Com o tempo, vários conceitos foram amadurecendo e várias teorias foram incorporadas à cartilha deste tipo de profissional.

Entretanto, o que faz com que alguém ganhe a credencial de que é entendido no ofício de ser route setter? Na prática, para ser um route setter não é necessário realizar um curso propriamente dito, muito menos existe uma norma que estabeleça algum nível de atuação deste tipo de pessoa em academias e campeonatos. Em caráter oficial, existe o curso realizado pelo IFSC, para quem deseja se profissionalizar neste aspecto e atuar em qualquer lugar do mundo.

Procurando preencher este tipo de lacuna, algumas federações e academias, em algumas partes do mundo, oferecem cursos e oficinas para aspirantes a route setters. Esta preocupação tem uma justificativa simples: muito do que um route setter “não credenciado” deve fazer e saber, é aprendido de forma empírica e baseada nas preferências pessoais e experiências vividas.

Uma espécie de profissão na qual a pessoa vai aprendendo à medida que a exerce.

Primeiros passos de um route setter

Os primeiros passos podem variar muito, pois dependem de onde vive o escalador. Geralmente uma pessoa que deseja tornar-se um route setter, deve ser um estudioso em movimentação de atletas, além de ter boa percepção de graus de escalada. Este tipo de aprendizado, infelizmente, somente adquire quem vive intensamente o esporte. Portanto, é necessário ter muita experiência em ginásios de escalada. Preferencialmente em vários locais ou países.

Estudando intensamente estilos e movimentação, com o tempo o candidato a route setter começa a compreender de forma instintiva, como fazer um determinado escalador forçar algumas das habilidades físicas que possui. Com este tipo de conhecimento, o route setter começa a entender os estilos de vias: explosiva, equilíbrio, resistência, força bruta, etc. Com a assimilação de estilos, começa então a necessidade de mensurar cada uma destas dificuldades, para saber qual a graduação de cada uma delas.

Foto: http://spotsettingblog.wordpress.com

Muitos defendem a ideia de que para ser um route setter é necessário pelo menos escalar um determinado grau de dificuldade. A partir deste critério subjetivo, muito se discute no mérito de ser, ou não, um route setter. Cada lugar do mundo há uma exigência diferente, dependendo da realidade que existe no esporte. Quanto a isso existem várias vertentes, algumas radicais e elitistas, outras mais abrangentes e generalistas.

Por exemplo, na Europa, há quem defenda a ideia de que somente quem já tem estabelecido o grau 8a francês (9c brasileiro), é que pode estar apto a ser um route setter. Por outro lado, há quem coloque esta “régua limitante” mais abaixo, apostando em outros tipos de requisitos, como o estudo de movimentos, na balança do mérito, ou não, de ser um route setter. Por ser a profissão muito recente, ela ainda carece de embasamentos técnicos para estabelecer parâmetros que resolva este impasse.

A abordagem filosófica parece ser a linha que o IFSC estabelece. Para se certificar como Route Setter, é levado em conta muito mais do que simplesmente o grau de escalada. Este motivo é facilmente explicado por ser o grau de escalada um fator muito subjetivo, que sequer serve para medir a atitude de uma pessoa perante a comunidade. O grau de escalada sequer chancela domínio de conhecimento do esporte, entre outros aspectos. Portanto, um profissional que é certificado pelo IFSC, garante (ao menos em teoria) que as filosofias e conceitos defendidos pela entidade serão seguidos à risca.

O IFSC também mantém um canal de comunicação sigiloso com técnicos, atletas e outros profissionais envolvidos nos eventos da entidade. Este canal recolhe relatórios e denúncias a respeito dos profissionais, não somente os route setters, para que sejam examinados posteriormente. Algum profissional que esteja saindo da linha filosófica, ou mesmo aplicando conceitos obsoletos, pode ser punido perdendo a certificação. Caso o estilo adotado em uma temporada de competições começa a desagradar atletas e, mais importante, os patrocinadores, os administradores do IFSC estudarão tomar outra linha.

Por este motivo é que um route setter certificado pelo IFSC sabe de antemão que tipos de estilos serão usados em uma temporada. Por isso que há muitos profissionais, que atuam com route setters de campeonatos, que utilizam conceitos ultrapassados e obsoletos de vias e linhas de boulder. Neste aspecto, portanto, é que reside a importância da certificação. Por isso, quanto mais obsoleto são os conceitos de um route setter em alguma região, pior será a colocação dos escaladores que participarem em competições internacionais.

Certificação IFSC

Para trabalhar como route setter nas competições oficiais do International Federation of Sport Climbing (IFSC), é necessário ter um certificado reconhecido pela própria entidade. Este curso não tem um calendário regular para acontecer. Entenda por relatório regular, datas previamente marcadas e que se repetem todos os anos. Para realizar o curso é necessário acompanhar os anúncios oficiais da entidade em seu site, além de suas redes sociais, para saber onde são realizados.

Até o momento, não há notícias de que haverá nenhum destes cursos na América do Sul. Mas sabendo que dois grandes eventos esportivos que acontecerão proximamente, como os Jogos Olímpicos da Juventude em Buenos Aires (Argentina) e os Jogos Pan-americanos de Lima (Peru), especula-se que haverá a realização de um em terras sul-americanas.

Nestes cursos tem como requerimentos possuir pelo menos dois anos de experiência comprovada na função de route setter, possuir no mínimo cinco anos de experiência com escalada e habilidade de escalar no mínimo 7c brasileiro (7a francês) e boulder V6 em vários estilos. Lembrando que esta exigência seria o equivalente a uma “nota de corte”, da mesma maneira que é utilizada para vestibulares e concursos públicos. Esta nota de corte serve também como parâmetro para que, caso alguém tenha ambição de ostentar o título de route setter, possa receber um curso do IFSC.

Para quem tiver as características mínimas exigidas, vários testes são realizados por dois instrutores (no mínimo) à medida que o curso vai progredindo. Os conceitos abordados pelos treinadores são segurança, comunicação, trabalho em equipe e empatia atlética. Além disso, as abordagens de montagem de vias aplicadas são:

  • Metodologia de criação
  • Qualidade de criação
  • Profissionalismo de um route setter
  • Criatividade
  • Gerenciamento de equipes
  • Produtividade e evolução
  • Tisco, intensidade e complexidade
  • Composição de vias e circuitos

O curso de Route Setter do IFSC possui vários níveis. Por este motivo, os interessados devem saber para que tipo de certificação receberá e para que estilo. Geralmente o curso limita a oito vagas, onde ele é realizado. Além, claro, de saber falar inglês, que é mandatório. O curso custa em média € 1.200,00 (R$ 5.392,00). Este foi o último valor anunciado para um curso oficial realizado na cidade de Calgary, no Canadá, em março deste ano.

O curso, em média, dura três dias e é realizado em dois períodos.

Um bom recurso para quem deseja acompanhar a abertura de vagas para estes cursos é o “World Climbing“, que faz este tipo de treinamento para IFSC.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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