Crítica do filme “Viaje de Cristal”

viaje-de-cristal-cartazHá quem acredite que todas as histórias do mundo já foram contadas, ao menos nos gêneros de cinema, e que as que estão sendo exibidas, e também as que estão sendo elaboradas, são somente adaptações daquilo que já foi feito.

Obviamente esta linha de pensamento se parece muito com o do chefe do departamento de patentes dos EUA, que no final do século XIX pediu demissão acreditando que todos os inventos já tinham sido inventados.

De lá para cá foram inventados, e patenteados obviamente, a lâmpada elétrica, televisão, rádio, cinema, câmeras digitais, internet, smartphone e assim por diante.

O maior cineasta brasileiro de todos os tempos Glauber Rocha, defendia que apenas com boa técnica, talento e com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça podia-se revolucionar o cinema.

Infelizmente Glauber não está vivo para  vislumbrar a realidade que vivemos hoje com o barateamento de recursos e a democratização da divulgação de produções pela internet.

Dentro do gênero de filmes outdoor há uma quantidade de produtores que demasiadamente procuram estar em uma zona de conforto para agradar aqueles que apreciam grunhidos, imagens de ação e firulas tecnológicas.

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O resultado pode ser visto em webséries, filmes e vídeos outdoor recheados de piadas (muitas delas sem a menor graça) e pouquíssimo conteúdo para o expectador.

Esta preocupação excessiva, e muitas vezes inexplicável, de parecer informal todo o tempo parece contaminar os filmes produzidos no Brasil e América do Sul que muitas vezes parecem querer fazer versões do canal de youtube HolaSoyGermán, mas com atividades de natureza.

Dentro deste deserto de criatividade surge um oásis de qualidade chamado “Viaje de Cristal”, um filme argentino produzido e dirigido  por Noel Martinez de Aguirre.

O filme documenta a viagem de quatro escaladores argentinos até o interior do estado de Minas Gerais para conquistarem uma nova via ao lado da mítica “Place of Happiness”.

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Hipnotizados pela majestosidade da Pedra Riscada, realizaram um planejamento de logística muito bem estruturado para que conseguissem concretizar o projeto.

Dentro do quarteto havia uma dupla de escaladores experientes e com capacidade de escalar graus elevados, e uma outra já nem tão experiente.

Sem procurar criar nenhum drama desnecessário, ou colocar de forma sensacionalista a escalada, Noel consegue deixar o expectador todo o tempo com a sensação de fazer parte do time.

Junto de um roteiro linear, a direção segura de Aguirre procura focar somente no prazer de realizar algo como conquistar uma via, e também superar-se diante de um ambiente desconhecido.

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Bastante didático nas explicações, “Viaje de Cristal” consegue ser um filme interessante para qualquer nível de público, escalador ou não, e entretenido desde o seu início.

Com elegância e maturidade consegue mostrar o quão inóspito é o lugar e também como são diferente as culturas dos protagonistas e os habitantes daí, mas também demonstrando a existência de simpatia de ambos os lados.

A edição de “Viaje de Cristal” entretanto em alguns momentos parece utilizar frases soltas de cada declaração dos protagonistas para construir alguns diálogos, mas o recurso não compromete o resultado final, apesar de dar em alguns momentos um certo ar de artificialidade.

Porém devido a qualidade de história, graças ao roteiro muito bem escrito, e um carisma natural de cada escalador, o filme termina sem que o expectador tenha sentido o tempo passar.

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A direção de fotografia da produção também mostrou elegância, e ao mesmo tempo demonstra a curiosidade dos produtores em mostrar o ambiente totalmente novo para o grupo de argentinos, já que estavam a mais de 3.500 km de casa.

Há de se destacar também a escolha dos produtores, e personagens, em não querer glamorizar nada, dando assim o aspecto mais real possível de uma expedição e os desafios verdadeiros que aparecem a quem se dispõe a enfrentar uma escalada tão difícil.

Os pouco mais de 20 minutos que o filme possui mostra que o diretor soube, como poucos do gênero, editar e disponibilizar aquilo que era absolutamente essencial.

Inegavelmente “Viaje de Cristal” é uma produção madura e muito acima da média do que vem sendo produzido na América do Sul atualmente.

Nota Revista Blog de Escalada : 

O filme “Viaje de Cristal” foi cedido gentilmente para avaliação pelos produtores e estará a venda em VOD em fevereiro.

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Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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