Crítica do filme “Um Lugar Solitário para Morrer”

Um-Lugar-Solitário-para-MorrerFaz parte da cultura popular o ditado “de boas intenções o inferno está cheio”, para designar que apenas desejar executar algo, sem ao menos colocar uma certa qualidade, é como tentar desenhar na superfície da água.

O filme “Um lugar solitário para morrer” (A Lonely Place to Die, 2011)  é exatamente isso : uma história com uma premissa interessante, um grande potencial de sair do lugar comum e fugir de conceitos clichês, mas que ao final trata-se de algo que nem podemos chamar de “filme”.

A produção estrelada pela lindíssima Melissa George (Friends, Greys Anatomy) no papel da escaladora intrépida Allison, é uma sucessão de conceitos superficiais de atividades outdoor, como escalada e trekking, costurado por um roteiro com tantos buracos, às vezes até mesmo crateras, que torna difícil ao espectador entender o que está assistindo.

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Fosse resumir o filme pelo estilo poderia dizer que foram utilizados todos os elementos de escalada de Limite Vertical (Vertical Limit, 2000), o qual é reconhecidamente o pior retrato sobre a escalada já realizado por Hollywood, com “Jogos Vorazes” (Hunger Games, 2012) com pitadas do igualmente ruim “À Toda Prova” (Haywire, 2011). Vale lembrar que filmes de perseguições e caçadas humanas não é uma novidade, e foram muito populares nos anos 70.

No filme “Um Lugar Solitário para Morrer” um grupo de escaladores descobre durante uma escalada, nas montanhas escocesas, uma criança aprisionada em uma câmara no meio da floresta e a partir disso o grupo acaba em um jogo de perseguição com os sequestradores na tentativa de salvar a garota.

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Durante o início da produção é interessante ver como o processo de construção de cada personagem parece bem perto da realidade de um grupo de escaladores que viajam para praticar o esporte : bebidas, conversas e etc em abrigos de montanha. Inegavelmente vê-se logo no início um esforço de apresentar devidamente cada personagem.

Porém quando os procedimentos de escalada são mostrados posteriormente o desastre é inevitável e o filme segue ladeira abaixo. Até mesmo as quedas dos escaladores, que é comum em qualquer escalada, é mostrado de maneira tão errada que até mesmo Isaac Newton, autor da teoria da gravitação, sentiria-se ofendido.

O diretor confiando em colocar tudo no conceito de “liberdade artística”, desfila uma quantidade de procedimentos absurdos jogados de maneira tão aleatória que até o mais principiante no esporte identificaria ao menos algumas dezenas de erros.

Não contente com o retrato estapafúrdio mostrado logo no início o diretor Julian Gilbey, visivelmente inspirado em filmes B dos anos 80, faz com que a personagem Allison resista à tudo : desde mergulhar com uma mochila cargueira, resistir a uma queda de 50 metros, entre outras coisas inacreditáveis.

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Não contente com o quão fora da realidade o filme está, os antagonistas são apresentados tão caricatos que fica clara que a noção de realidade, tanto de roteirista quanto do diretor, não corresponde com o do restante da humanidade. Todos os bandidos são retratados de maneira confusa e, não suficiente estas falhas, rasa e com pensamento binário. Pela maldade gratuita contida em cada perseguidor, em alguns momentos fica evidente que o filme “Stallone Cobra” (Cobra, 1996) serviu de inspiração para o desenho de cada um deles.

Fazendo com que cada personagem seja morto indiscriminadamente, vai jogando toda a construção de cada um deles no início do filme no lixo e, a partir da metade, a produção também perde-se de vez quando introduz novos personagens, motivações e explicações estapafúrdias.

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Ao fim, com uma conclusão óbvia desde a metade além de soluções preguiçosas, “Um Lugar Solitário para Morrer” termina deixando o público sem entender o que o próprio filme prometeu desde o início.

No ar fica a pergunta de como uma produção destas chega a arrecadar dinheiro, para algo tão ruim, e a sensação de cada espectador é o do constrangimento. Se o público escalador acreditava que o filme “Limite Vertical” era o fundo do poço para a escalada, eis que surge um forte candidato para um nível ainda mais baixo.

Nota Revista Blog de Escalada :

O filme “Um Lugar Solitário para Morrer” está disponível no Netflix

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Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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