Crítica do filme “Tracks”

Uma das histórias mais repetidas por que acompanha filmes, junto de todo o universo ligado ao assunto, é sobre como o escritor Stephen King odiou a versão do aclamado Stanley Kubrick fez para seu livro “O Iluminado”(The Shining, 1980). À parte da discussão sobre ser o filme bom (aliás é excelente, diga-se) ou não, inegavelmente o filme é bem diferente do livro.

No caso do filme de Kubrick, não há ali todos os elementos abordados na obra original de King, optando por tomar várias liberdades artísticas que fez a obra cinematográfica se distanciar do material original do livro. King, obviamente, não gostou.

O filme “Tracks” (2013), do diretor John Curran, também sofre do mesmo mal. A obra de mesmo nome escrito pela australiana Robyn Davidson é muito diferente do que foi adaptado ao cinema. Arrisco a dizer que a quantidade de “liberdades artísticas” tomadas a partir da obra original transformou o filme em algo completamente diferente, filosoficamente falando, do que é abordado na obra.

Enquanto no livro há sensibilidade, reflexões e várias pequenas histórias de longas trilhas, no filme o que se testemunha é uma total incompreensão do que é o livro. Obviamente que no momento de realizar um filme, há algumas modificações para efeito dramático. Modificações feitas em nome da qualidade, que às vezes arruína a obra original. Este é o caso de “Tracks”.

O filme “Tracks” parte de uma premissa simples, mas complexa, de uma jovem chamada Robyn Davidson (Mia Wasikowska) que por algum motivo, resolve partir em uma travessia do deserto australiano para o litoral do país.

Uma escolha de Davidson chamou a atenção de todos: toda a viagem é realizada na companhia de camelos. Por ser um conteúdo interessante, uma revista americana aceita patrocinar tudo, enviando um fotógrafo (interpretado por Adam Driver) para captar imagens da aventura. O fotógrafo ora atrapalha a jornada da jovem, outras vezes a ajuda.

Diferentemente do que transcorre no livro de Davidson, o filme de Curran não consegue transmitir nenhuma emoção. Fica nítido que nem roteirista nem diretor entenderam o que Robyn realizou. Todas as tensões retratadas no filme saem de lugar algum e, infelizmente, chegam a lugar nenhum. Muitos dos personagens, salvo algumas exceções, são mal aproveitados e apresentados com certo descaso.

A própria personagem é tratada de maneira bidimensional e quando possui algum diálogo este é feito de maneira extremamente expositiva. A maneira rasa com que o roteiro trata o tema fica evidente nos diálogos que parecem ter saído de novelas brasileiras.

A própria cinematografia de “Tracks”, que se esquiva de realizar muitos planos abertos, também parece preguiçosa. O uso de cenas contraluz e flare vai tornando-se repetitivo e monótono à medida que é usado sistematicamente e sem qualquer propósito narrativo. O objetivo claro era somente fazer imagens bonitas, mas não desenrolar uma narrativa. Não resta dúvida que o tom marrom e amarelo do deserto, com bastante areia e poeira, retratados no filme gera imagens de por do sol. Mas apenas apoiar-se neste aspecto é muito pouco, ainda mais para uma viagem de vários meses.

Há inegável esforço em recriar as famosas fotos tiradas pelo fotógrafo Rick, mas a maneira que são retratados jornalistas, transeuntes e até mesmo os aborígenes australianos, vê-se que um desenho maniqueísta de contar uma história que, ao menos no livro, não possui vilões. Não há uma identificação com nenhum personagem, além de não se acreditar na história contada.

Este desejo de transformar uma história densa e sensível em uma produção de raciocínio binário, vai colaborando para o filme não sair do lugar, nem sequer desenvolver um personagem. Monotonia e letargia são palavras que se encaixam muito bem no ritmo da produção.

Ao final do filme “Tracks” há uma enorme decepção, por tratar uma obra tão rica em algo tão raso. Sua lentidão e falta de ritmo colabora para que próximo da metade, o espectador já conclua que está assistindo a algo que não chegará a lugar nenhum.

Sem sombra de dúvida Robyn Davidson não possui o estrelismo e ego inflado que Stephen King, que insiste em renegar a versão de seu livro, mas seguramente não deve considerá-la uma obra fiel e de qualidade. O maior conselho a quem quiser assistir a “Tracks” é que opte por ler ao livro e ignorar o filme.

Nota Revista Blog de Escalada:

O filme “tracks” está disponível para visualização no Netflix

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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