Crítica do filme “The Dawn Wall”

The Dawn WallO gênero de documentários de escaladas consideradas “épicas”, pareciam ter chegado a se esgotar em suas fórmulas. Este tipo de repetição deixava qualquer produção do gênero com a mesma cara. Por este mesmo motivo que de uns tempos para cá, os filmes de escalada pareciam muito iguais e contando a mesma história. Para piorar, muitas destas produções pareciam muito mais anúncios explícitos dos patrocinadores, dado os usos e abusos de linguagem publicitária em filmagens e estilo, do que propriamente um filme.

Da mesma maneira que acontece na música, que quando um gênero parece estar saturado, ou necessitando de renovação, os críticos especializados apontam uma certa decadência. Infelizmente, ao que tudo indicava, o gênero de documentários sobre montanhismo e escalada, com raras exceções, pareciam condenados à mediocridade. Até os próprios patrocinadores (grandes culpados por apostar na fórmula de “anúncio de margarina” na montanha) eram os mesmos.

Mas para a felicidade do público, nas artes sempre aparece algum artista, consagrado ou não, que vira tudo de cabeça para baixo e reinventa tudo aquilo que parecia imutável. Foi assim para os Beatles, especialmente a partir de 1967 quando lançaram o icônico disco “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” na música, “O Poderoso Chefão” em 1971 com o cinema e vários outros exemplos. Portanto, sem nenhum exagero, “The Dawn Wall” representa o mesmo para os documentários de escalada: uma guinada à qualidade e maturidade de um gênero ainda em desenvolvimento.

A produção marca também uma guinada da Sender Films e BigUp Production, produtoras que pareciam estar apenas vivendo do que foi produzido no passado, padecendo de uma falta de originalidade crônica e acentuada. Ao longo dos anos, os idealizadores de “The Dawn Wall” conseguiram auxílio de uma produtora europeia para algo que, de maneira incontestável, cala a boca dos críticos (dos quais me incluo). Para isso, as produtoras abandonaram a temática publicitária, provando que possuem, de sobra, talento, inteligência e competência. Para aqueles fãs de longa data, uma ótima notícia: os diretores resgataram todo o espírito puro da escalada do início e acrescentaram elementos que não fica devendo a nenhuma produção hollywoodiana. Motivo este que fez com que a produção fosse pré-selecionada para ser indicada ao Oscar de melhor documentário.

The Dawn Wall

Por parte de Peter Mortimer, co-diretor e proprietário da Sender Films, que já dirigiu obras que marcaram a história do esporte como “First Ascent” e “Valley Uprising“, parece que sua mais nova produção pode o considerar na primeira divisão de diretores de documentários dos EUA. Já Josh Lowell, co-diretor e fundador da BigUp Productions, “The Dawn Wall” evidencia que o seu passado de filmes superficiais, como a série “Dosage”, batizados de “rock porn”, ficaram para trás.

The Dawn Wall” documenta a saga de Tommy Caldwell, um conhecido escalador norte-americano que passou por diversos problemas pessoais, após tornar-se refém no Quirguistão. Os acontecimentos ocorridos neste país da Ásia, desencadeou uma série de fatalidades que pareciam tornar sua vida um inferno astral permanente. Um ano após voltar aos EUA, depois de estar refém e quase perder a vida nisso, também perdeu seu dedo indicador em uma serra de marcenaria. Não bastasse isso, após um tempo seu casamento desmoronou. O divórcio acabou deixando-o desesperado e muito perto de deprimir-se profundamente.

The Dawn Wall

Durante uma meditação no final de uma madrugada, Tommy Caldwell vislumbrou a parede em El Capitán, que era pouco escalada, e idealizou uma via: “Dawn Wall”. Assim nasceu sua fixação por conseguir escalar o que muitos, incluindo os escaladores mais fortes de Yosemite, consideravam impossível. Todos apelidaram a via de “projeto para as gerações futuras”.

Procurando alguém que também comprasse a ideia de aceitar o desafio, deparou-se com o boulderista Kevin Jorgeson. Como abordado de maneira bem irônica, típica de escaladores, como alguém que escala em rocha linhas de até 5 metros, poderia se aventurar em uma de mais de 900 metros de altura? Por sete anos, ambos correram atrás de escalar em estilo livre toda a via. A via foi escalada finalmente em 2015.

Porém, diferentemente do que muitos poderiam supor, Lowell e Mortimer optaram por tomar um rumo totalmente distinto do que já fizeram para produzir “The Dawn Wall”. Acostumados a sempre filmar escaladas sem se preocuparem muito com o público leigo, decidiram expandir o alcance da sua audiência para fora da pequena bolha social que tornou-se a escalada nos últimos anos. Ambos optaram por também abandonar o clima descontraído e de humor, que caracterizava a obra dos dois, para adotarem um ar mais sério e solene. Além disso, também tiveram a sensibilidade, desta vez, de documentar sobretudo o ser humano, os sentimentos e os aspectos psicológicos que uma escalada representa a um escalador.

The Dawn Wall

Muito mais do que um feito, especialmente para cada pessoa que escala algum tipo de projeto que custou muito tempo, a escalada representa passagens de momentos pessoais. Muitos quando encadenam uma via, seja de que grau for, é como se uma montanha de problemas tivesse desaparecidos. Relacionamentos fracassados, dívidas contraídas, insucessos profissionais e perdas familiares, imediatamente transformam em uma projeção da vida de cada escalador quando depara-se diante de um projeto maior que ele mesmo.

Foi exatamente isso que procuraram mostrar sobre Tommy Caldwell e Kevin Jorgeson. Que muito mais do que fama e tornarem-se personalidades, a escalada em Yosemite transformou sua vida profundamente, tornando-se pessoas completamente diferentes do que eram. Que tudo aquilo, especialmente para Caldwell, representava a superação de coisas que viveu e que frequentemente o atormentava.

Ao contrário das produções popularescas que vinham insistindo em fazer nos últimos anos, os diretores desta vez optaram por sensibilizar e emocionar. Durante toda a produção, não raras vezes, é fácil perceber que lágrimas irão saltar dos olhos do espectador, tamanha carga emocional que Lowell e Mortimer optaram por carregar em “The Dawn Wall”.

Próximo ao final, fica muito evidente que no documentário, o maior homenageado não foram os escaladores, mas sim o próprio esporte. Esporte este que frequentemente é considerado “menor”, ficando sempre à sombra de outras modalidades como futebol, basquete e atletismo, mas que emocionou a todos de uma maneira sobrenatural durante a escalada da “The Dawn Wall” dando um impulso sem precedentes à prática do montanhismo.

The Dawn Wall

Os diretores também foram bastante cuidadosos na direção de fotografia, captando belas imagens e vistas panorâmicas que conseguem, na medida do possível, passar a verdadeira dimensão do que é estar escalando uma parede de mais de 900 metros de altura. Toda a fotografia de “The Dawn Wall” parece ainda mais envolvente, por estar toda feita em alta resolução, com qualidade de 4K, presenteando a todos que fizerem um esforço para vê-lo no cinema.

Um dos detalhes que reside um dos poucos defeitos do filme, é na completa superficialidade com que tratam Kevin Jorgeson. Apesar de ter sido um personagem relevante para a escalada, simplesmente teve poucas partes que abordassem sua personalidade e sua biografia. Detalhes de como a pressão exercida pela mídia não especializada em Jorgeson afetou sua performance, além de incomodar sua família, poderia ter sido abordada com mais profundidade.

A produção mostrou um nível muito acima do que vem sido produzido por documentários de escalada, que frequentemente somente se apoiam em imagens bonitas e pessoas felizes. Mas muito além de imagem, uma das maiores satisfações de todas é inegável: a de assistir a um filme exuberante, inspirador e impecável. “The Dawn Wall”, não somente parece ser um dos melhores filmes de escalada feito nos últimos 20 anos, como também merece, caso seja possível, ser aplaudido de pé.

Nota Revista Blog de Escalada:

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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