Crítica do filme “Stumped”

As produções de filmes outdoor tiveram uma queda acentuada de audiência, em especial do interesse do público, desde meados desta década. Os principais motivos identificados podem ser resumidos em três principais pontos.

O primeiro foi o aparecimento de canais a cabo com produções popularescas de baixa qualidade (além do baixo custo). As produções começaram a ser realizadas para preencher horários, não mais atrair o público. O segundo motivo foi a disponibilização extensiva em plataformas de distribuição, que afastou as pessoas do cinema e festivais. A facilidade da portabilidade, facilita o afastamento do público. A terceira, considerada a principal, foi a total falta de identificação do público com as histórias narradas. As histórias estão iguais desde sempre, sem mostrar pessoas comuns.

A insistência em somente documentar feitos heroicos, atletas sem falhas, histórias vazias com personagens que contam as mesmas histórias (às vezes recheados de piadas internas). Grande parte do público percebeu que viam sempre mais do mesmo, tão afastado da realidade de cada um que sequer era atrativo.

Buscando resgatar o interesse do público, os produtores mais antenados ao gosto do público, agora voltam suas lentes a pessoas comuns, com histórias mais próxima à realidade. Os mais modernos perceberam que retratar a grande parte do público, não mais as exceções, a empatia era facilmente conquistada. Pois a matemática de que sem público, nenhum filme prospera, existe desde que o cinema tornou-se uma indústria. Para os filmes outdoor é uma realidade ainda mais cruel, afinal neste gênero anda sempre na linha tênue entre anúncio e documentário.

Com uma carga de anunciantes grande, é imprescindível acompanhar o interesse do público. Exatamente isso que a Sender Films procurou fazer ao produzir o filme “Stumped”: apostar em histórias simples sem muitas firulas ou humor de gosto duvidoso. Inegavelmente era exatamente isso que a produtora andava se esquivando de fazer nos últimos anos. Ao que parece a resistência no formato padrão de sempre acabou.

Na contramão dos mesmos filmes de sempre que realizavam, A Sender Films optou por fazer algo diferente e fora do padrão da empresa. A partir desta iniciativa a história de Maureen Beck, uma escaladora que não possui parte de seu braço esquerdo, mas nem por isso usa a dificuldade como desculpa, ganhou destaque na empresa. Com roteiro bem simples, alternando ironia (com pitadas esporádicas de humor) e se afastando ao máximo de explorar o drama de Maureen, para não parecer piegas, o filme aponta para um caminho interessante.

Da mesma maneira que o Crossfit vêm nos últimos dois anos, com vídeos motivacionais nos quais enaltece a todo momento os praticantes comuns da modalidade, “Stumped” segue a mesma linha. Há de ressaltar que no filme não há exploração excessiva (típicas de jornalistas medíocres) tão praticada pela mídia de massa com a questão da superação e discurso piegas. Até mesmo no filme há uma passagem que aborda este tipo de tratamento diferenciado, que irrita e humilha todos que possuem uma deficiência. Tratamento diferenciado que evidencia muito mais um preconceito velado, do que propriamente um incentivo de superação a qualquer desafio.

Claro que desde o início o expectador já sabe como vai acabar “Stumped” desde a primeira cena, mas por possuir um roteiro bem construído, além de uma edição dinâmica e moderna (lembrando muito alguns vídeos de canais populares do YouTube), filme não decepciona. Inegavelmente o processo de superação de cada movimento na via escolhida por Maureen Beck contribui para uma catarse, muito bem construída ao longo da produção. Toda a emoção causada ao final é fruto de uma empatia muito bem construída ao longo da produção.

Um outro ponto positivo é de, além de não soar como piegas, também explicitar a importância da dedicação de um atleta ao treinamento personalizado e à alimentação saudável para alcançar um objetivo. No filme fica evidente, ainda mais pela óbvia limitação física da escaladora, que sem dedicação e planejamento, conquistas não caem do céu.

“Stumped” é, sem dúvida, das produções mais inclusivas do universo outdoor realizado nos últimos tempos. Há ali a inclusão de vários elementos que fazem parte do dia a dia de quem vive algum esporte outdoor, como é a escalada. Há uma pessoa com deficiência, um companheiro que não escala um grau muito alto, há uma visita surpresa de uma personalidade e um final emocionante. Há ainda, o que podemos considerar a cereja do bolo, que é a supressa guardada no final.

Com uma produção tão simpática, fica no ar a pergunta de que tipo de caminho irá seguir a Sender Films. A dúvida é se a produtora, já calejada no mercado, irá começar a acompanhar o interesse do público em geral por histórias mais humanas de pessoas comuns, ou ainda irá insistir em propagandas disfarçadas de heróis fabricados.

Nota Revista Blog de Escalada:

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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