Crítica do filme “Smitten”

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Na década de noventa o seriado “Seinfeld”, considerado a melhor comédia de todos os tempos, houve um episódio em que o protagonista meio sonolento assistia a um filme de ficção científica de baixa qualidade e anotou em um papel deixando-o em seu criado mudo.

Ao acordar Jerry verifica que o que está escrito não faz sentido algum, e mesmo assim ficava intrigado se perguntando porque achou tão engraçado.Smitten-capa

Não é incomum para qualquer pessoa que algumas ideias que temos parecem formidaveis dentro de nossas cabeças, mas acabam por se tornar “não tão boas” quando colocadas em prática.

A copa do mundo no Brasil é um ótimo exemplo disso.

Este mesmo sentimento deve ter tido os produtores do australiano “Smitten” logo após a divulgação do filme.

“Smitten” é um filme de escalada que tenta fazer humor com os nomes das vias, colocando os protagonistas em dramatizações estapafúrdias para introduzir à escalada que irá realizar.

A produção procura mostrar diversos pontos de escalada, além e verdadeiro batalhão de escaladores em cada via documentada, com boas tomadas e desafios escolhidos.

Todos, sem dúvida nenhuma, retratados no filme são  escaladores fortes e com competência necessária para escalar as vias mais difíceis da Austrália.

Entretando burante todo o decorrer da produção muitas cenas bizarras saltam sistematicamente ao espectador  no estilo de David Linch, porém com mais exageros e mais nonsense possível.

Muitas destas cenas tiveram inspiração em produções de gosto duvidoso como Jackass, além de gags que nitidamente tentam imitar o humor de Monty Pyton mas sem nenhuma qualidade.

Aliado à estas cenas amalucadas, e que não parecem em nada fazer parte da história, a produção procura ainda documentar entre uma gracinha e outra as impressões de cada escalador para com a via que irão enfrentar.

Quando os produtores de “Smitten” se preocupam mais em filmar a escalada em si, o filme consegue uma fluidez maior, mas sempre entrava nas cenas de “humor” subsequentes.

Não bastasse tanta” inovação” com “humor”, a direção do filme procurou utilizar recursos de filmagem que remete fortemente aos anos 80 (diversos closes fechando e abrindo todo o tempo), e que tira, e muito, a atenção do espectador para a ação de escalada que está acontecendo.

Não é de admirar que o filme próximo à sua metade começa a se arrastar devido à completa falta de roteiro ou propósito e ao seu final conclui-se que é uma coletânea de filmagens agrupadas por meio de “gags” de humor duvidoso.

Fossem os produtores preocupados em mais retratar a escalada em si, e esquecer gracinhas de cada personagem, certamente poderia entreter escaladores e não escaladores pela qualidade apresentada nas cenas de escalada.

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Tivessem os produtores do filme levassem em conta o ditado de que  “quando você acha que está abafando, na verdade está fazendo papel de ridículo”, a produção tomaria ouro rumo.

O que se conclui de “Smitten” é que vários escaladores, incluindo os produtores, acreditando que são hilários resolveram deixar a escalada em segundo plano para realizar piadas internas coma própria turma.

Mas não houve ninguém com melhor senso crítico para explicar a todos que ninguém ali é engraçado, muito menos hilário.

smitten_5Cenas de humor de baixo QI executado pelos brasileiros “Pânico na TV” , “Liga Extraordinária” e “Zorra Total” parecem ter inspirado o filme.

Aliado a tudo isso, procuraram testar a paciência do espectador com várias referências aos anos 80 no estilo de edição, efeitos especiais em letras e câmera lenta, em um amontoado de vídeos que poderiam ser perfeitamente disponibilizados pela internet.

Inegavelmente há boas cenas de ação de escalada, mas que sistematicamente são desperdiçadas pela necessidade quase infantil de querer realizar uma piada, muitas vezes sem graça.

“Smitten” é um filme muito abaixo do que a média das produções produzidas, mas serve de inspiração para quem deseja fazer filmes sérios.

Inspiração de como não editar, roteirizar, fazer humor e principalmente realizar um filme outdoor.

Nota do Blog de Escalada:

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Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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