Crítica do filme “Sherpa – Trouble on Everest”

sherpa-5Dentro do gênero cinematográfico de documentário, no qual os filmes outdoor estão inseridos como sub-gênero, há sempre a preocupação de mostrar alguns lados de histórias que normalmente não temos acesso por algum motivo que não cabe aqui discutir.

Na maioria das vezes os documentários servem para trazer o expectador à realidade, para fazê-lo refletir sobre o mundo em que vivemos, e ter contato a existência de regras já estabelecidas as quais seguimos sem ao menos discuti-las.

Ao final do filme a faceta desta realidade ser mostrada, às vezes com um gosto amargo na garganta, ou até mesmo uma vergonha de fazer parte do problema, aparece durante a exibição.

Este é o sentimento comum que qualquer pessoa sente ao assistir ao filme “Sherpa – Trouble on Everest” que narra a história sobre a avalanche que matou 16 nepaleses no Everest, e culminou no encerramento da temporada de montanhismo de 2014 na montanha, vista do ponto de vista dos Sherpas.

Muito bem dirigida por Jeniffer Peedom, a produção mostra uma realidade que chega a chocar, especialmente quem não está acostumado com as histórias de montanhismo no Nepal.

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Alguns pequenos detalhes importantes que ajudam a entender historicamente todo o problema, como contar a história do primeiro sherpa Tenzing Norgay,  que levou Sir Edmund Hillary a chegar ao cume do Everest, e em como ele ficou famoso no país, e fora dele, ajuda ao expectador se situar qual o retrospecto do que irá se desenrolar.

Cuidadosamente reconstituindo o cotidiano submisso dos Sherpas, ressaltando os perigos que passam, junto da preparação e palestras dos montanhistas que ambicionam fama e estrelato, o filme mostra os lados antagônicos da tragédia.

Há nitidamente desde o início da produção o esforço em mostrar o abismo existente entre a realidade que é a vida dos Sherpas, e o que pensam e ambicionam os donos das agências de turismo.

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Dentro destas duas realidades está o Sherpa Phurba Tashi, que já esteve no cume do Everest 22 vezes e estava na expectativa de quebrar o recorde de vezes no topo do mundo. Phurba Tashi também é líder de expedições sendo respeitado tanto pelos ocidentais, quanto por todas as hierarquia de Sherpas no Everest.

No momento que acontece a avalanche, e a contagem de Sherpas mortos vai crescendo, as imagens tanto da família dos trabalhadores nos vilarejos nepaleses, quanto dos colegas de trabalho, é no mínimo perturbadora. O expectador fica com lágrimas nos olhos pelas imagens. Porém um gosto amargo aparece em sua boca quando os interesses de cada lado são colocados frente a frente.

A partir deste momento montanhistas de agências de turismo começam a pressionar da maneira mais canalha possível para que as expedições continuem. As imagens das reuniões parecem ter saído de vídeos instrutivos de assédio moral. As reações por parte dos montanhistas é, para dizer o mínimo, constrangedora.

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Afirmações como “pense no futuro, porque se ninguém subir não haverá dinheiro para o resto do ano” são das frases mais suaves ditas pelo neozelandês Russell Brice, que parece não ter sensibilidade para declarar isso na frente de várias pessoas ainda chorando pelos amigos, sobre o seu compromisso monetário com os clientes.

O assédio moral realizado pelas agências de montanhismo é tão forte, que evidencia que o colonialismo no Nepal ainda não acabou. O próprio Phurba Tashi quando decide respeitar os Sherpas mortos, e afirma concordar com os melhoramentos das condições de trabalho durante uma reunião, escuta um ameaça verbal de Brice que faria subir o sangue de qualquer pessoa.

O filme “Sherpa – Trouble on Everst” termina apontando o destino de vários Sherpas, e apenas toca de leve no assunto do terremoto do ano posterior que arrasou o país. Mesmo assim o retrato do quão desumano, explorador e inaceitável é o montanhismo no Everest é assustador.

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Mais assustador ainda é constatar que estes mesmos garotos mimados e mal-educados, que se intitulam montanhistas, voltam para seus países para palestrar sobre superação e desafio, enquanto os Sherpas, que são quem enfrentam o verdadeiro perigo e faz todo o trabalho pesado, são cada vez mais explorados.

Sherpa – Trouble on Everest” toca na ferida aberta, e exposta, do quanto é inaceitável do ponto de vista humanístico, e ético, que os Sherpas continuem sendo explorados como escravos modernos, e a cada tragédia tratado de maneira canalha. Estarrecedor também é a omissão de quem continua alimentando a indústria com patéticas e obsoletas coberturas 0n-line (seja lá o que for que signifique) construindo falsos heróis e personalidades vazias.

O final do filme é fácil concluir que o montanhismo no Everest é na verdade um circo com pessoas que não possuem identificação com o montanhismo, tornando assim a escalada do Everest uma imensa fogueira de vaidades para “personalidades” endinheiradas que utilizam como lenha a alma e a dignidade de cada Sherpa.

Nota Revista Blog de Escalada : 

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Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

There is one comment

  1. Fernando Miranda

    A pior parte foi quando tive que ouvir de um americano tipico (aquele q acha q o mundo gora em torno dos EUA) que os Sherpas eram terroristas. Os q proporam o boicote eram terroristas. Isso mesmo. Ele usou essa palavra. Ele soh pensava na grana e na vaidade dele.

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