Crítica do filme “Paraíso”

Paraiso-6No gênero de filmes outdoor, no qual o interesse principal é documentar um esporte, um local ou uma pessoa, há infinitas possibilidades de realização.

Por maior que seja, ou menor, a quantidade de recursos existentes, o maior atrativo no gênero são as pessoas que fazem parte daquilo que está sendo documentado.

Paralelo a este tipo de abordagem há a afirmação do arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe que cunhou a célebre frase que “menos é mais” , que em outras palavras é não apoiar-se em excesso de recursos de vídeo (como diálogos interpretados, cenas de extrema ação e timelapses) e ater-se ao simples e essencial.

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O filme “Paraíso”, uma produção da Morfina Filmes, é um bom exemplo de que simplicidade e economia de efeitos especiais, além de pouco sentimentalismo, pode obter-se um resultado interessante mesmo que seja apenas um filme outdoor.

O filme acerta em não querer transformar ninguém em herói, ou fazer propaganda de si mesmo, como o péssimo “Balls Piramid” ou o excessivo “Into the Mind“.

A produção documenta a história da conquista e desenvolvimento da Falésia Paraíso, localizada no município de Pindamonhangaba, e que tornou-se o local de escalada mais popular do estado de São Paulo.Paraiso-7

Mostrando cada personagem que ajudou a conquistar maioria das 129 vias do lugar, além de documentar cada um deles escalando a sua via preferida do local.

“Paraíso” também aborda, mesmo que levemente, a questão da acessibilidade e da solução implantada no local para permitir o livre acesso dos escaladores.

O livre acesso, diga-se,  desde que cumpram regras pré-estabelecidas.

Abordando questões políticas de maneira sutil, porém firme, “Paraíso” mostra já neste ponto maturidade e profundidade de roteiro.

Apostando em boa qualidade fotográfica o filme funciona como um tocante convite a todos os espectadores a conhecer mais o lugar.

O roteiro de “Paraíso” consegue mostrar ao mesmo tempo a simplicidade dos conquistadores, além de determinação e personalidade de cada um.

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Mesmo quando aborda pontos considerados polêmicos, especialmente por politiqueiros do montanhismo, como a possibilidade de pagar a ter acesso a um local de escalada, o filme o faz de maneira elegante não se estendendo no debate.

Paraiso-3Pequenos detalhes que fazem parte da psiquê dos frequentadores da Falésia Paraíso, como placas, plantas, trilhas e paisagem são mostradas com economia, mas com beleza fotográfica.

Há de se destacar ainda, além da qualidade fotográfica, tomadas em drones que mostram, na medida certa, e sem excessos, paisagens e perspectivas pouco exploradas em filmes que abordam escalada.

Apostando na simplicidade, o diretor Gabriel Tarso realiza uma produção interessante e que o coloca como um produtor a se observar com mais carinho, pois mesmo em uma produção despretensiosa mostrou qualidade acima da média.

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“Paraíso” possui, entretanto, algumas linguagens visuais muito parecidas com produções publicitárias o que acelerou um pouco o ritmo do filme, além de uma trilha sonora que parecia não estar em sintonia com a beleza fotográfica da produção.

Animações e efeitos especiais utilizados parecem não combinar também com a simplicidade da história, apesar de bem realizados e não alongados.

Mesmo com alguns escorregões, especialmente por ser a primeira produção independente da Morfina Filmes , “Paraíso” é uma pequena amostra de como realizar uma produção de qualidade com história interessante e personagens cativantes.Paraiso-4

A qualidade apresentada em sua primeira produção é, de longe, superior ao que tem sido feito no gênero e exibido indiscriminadamente em TV a cabo.

Pela qualidade e sensibilidade mostradas no filme, fica a expectativa de que Gabriel Tarso vá se aperfeiçoando mais seu talento para que nos brinde com outras produções tão interessantes quanto “Paraíso”.

Nota Revista Blog de Escalada:

 O filme “Paraíso” foi exibido no Festival de Cinema Outdoor Da Porta Pra Fora

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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