Crítica do filme “O Sal da Terra”

O-Sal-da-Terra-PosterNo Brasil algumas pessoas são consideradas ícones em sua área, sendo praticamente um mito dentro delas.

Assim é com Ivo Pitangui na medicina, Oscar Niemeyer na arquitetura, Pelé no futebol, Maria Esther Bueno no tênis e Sebastião Salgado na fotografia.

Sebastião Salgado sem dúvida nenhuma é referência para fotografia não somente no Brasil, mas em todo o mundo.

Não há nenhum fotógrafo outdoor no planeta que não o tenha como referência.

Basta olhar as fotos de seus projetos para ficar embasbacado com a qualidade visual, mas também com a mensagem embutida em cada uma de suas fotografias.

Realizar um filme artístico sobre Salgado seria perder muito da história desde mineiro que assombra o mundo com sua técnica fotográfica, e por isso seu filho primogênito, Juliano Ribeiro Salgado, resolveu realizar um documentário junto com Wen Wenders, a respeito de seu pai.

Mesmo tendo se ausentado muito por conta de duas expedições durante a infância do diretor, ainda assim via a figura paterna muito mais como “o aventureiro”, do que propriamente um pai.

Pois nem todo mundo tem um “Indiana Jones” com fatos e fotos dos lugares que conheceu dentro de casa.

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O filme “O Sal da Terra” documenta assim não somente a carreira de Sebastião Salgado, mas também descrição do próprio fotografo das fotografias de cada projeto que realizou.

Fatos curiosos como a infância em uma fazenda, curso de economia em Vitória-ES e exílio na França na época da ditadura são mostrados com fotos que praticamente falam por si, mostrando um típico “barbudão anos 70”, já prendendo o interesse do público para a documentação histórica de Salgado.

Dados de sua carreira como seu interesse instintivo pela câmera fotográfica, a troca de carreira de economista por fotógrafo, e seus primeiros trabalhos realizando cobertura de casamentos e outros fatos corriqueiros são documentados de maneira simples mas eficiente.

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O filme todo é conduzido por fotografias e narração, e somente a partir de sua metade é que algumas imagens de família e bastidores de seus projetos aparecem em cores, mas igualmente cercadas em tom sentimental, especialmente quando retornam ao Brasil ao fim da ditadura militar.

Apesar de visualmente ter ritmo lento, sempre com narração com imagens de fotos, a atenção do espectador não é dispersa em nenhum momento, dada a intensidade de suas fotos e de um roteiro muito bem construído.o-sal-da-terra-4

A escolha de alternar descrição das fotos de seu trabalho, com detalhes de sua biografia contada nas palavras de seu filho prendem a atenção do público na mesma intensidade de um filme de ação bem realizado.

“O Sal da Terra”também tem uma característica que marca o filme é a completa ausência de trilha sonora, que contribui mais ainda para a imersão no universo do fotógrafo, potencializando a experiência caso seja assistido em uma sala de cinema.

Um acerto dos diretores que conseguiram simular com maestria estar em uma sala escura de revelação de fotografias.

Pode ser considerado acerto também não querer causar polêmica com nenhuma declaração ou procurar desconstruir o mito que é o fotógrafo. O que é mostrado em “O Sal da Terra” é a tragetória de um ser humano, sem a necessidade de mostrá-lo sob uma ótica maniqueísta, nem colocá-lo em um pedestal.

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Sebastião Salgado no filme não ensina nenhuma técnica de fotografia, e durante todo a produção mostra que sua fotografia é na verdade uma capacidade singular de captar o sentimento de seu objeto a fotografar. Uma capacidade que seguramente não se aprende em escolas, faculdades, mestrados ou doutorados.

Na realidade é uma capacidade que poucos seres humanos possuem, sejam eles fotógrafos ou não.

Fica evidente também que Salgado possui uma capacidade única de não somente trabalhar com luzes, composição fotográfica e contrastes, mas também de mostrar ao mundo o que são realidades distantes que não conhecemos e se emocionar com elas a cada foto.

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O “Sal da Terra” já nasce um clássico de documentário, brilhando em cada um dos detalhes de sua produção que foi cuidadosamente realizada para cuidadosamente homenagear, documentar e delimitar a trajetória de um fotógrafo excepcional mas também de um homem com sensibilidade incrível.

Nota Revista Blog de Escalada

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Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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