Crítica do filme “Magnetic Mountains”

Em 2014, Steve Wakeford saiu com 3 amigos para escalar uma via nas Petites Jorasses, em Chamonix. Com condições ruins e guiando a segunda enfiada em gelo frágil, Steve sofreu uma queda de 70 metros, quebrou diversos ossos, rompeu a musculatura do bíceps e graáas a polícia de resgate de montanha (PGHM) foi resgatado a tempo de sair com vida.

A experiência porém, não parou por aí. O impacto psicológico foi tão grande que Steve resolveu filmar sua recuperação física e mental através de três anos, e Magnetic Mountains acompanha a jornada de reconstrução do ego e redescoberta de sua posição como um ser humano muito maior que apenas um escalador.

O filme começa bastante pesado: de princípio já temos a filmagem da maior parte do antes e depois do acidente, o resgate de helicóptero, e os efeitos imediatos no corpo do escalador, como uma abertura visível e profunda acima do olho esquerdo. Seguimos com o acompanhamento médico para tratar as lesões, mais os meses de fisioterapia, com um sentimento palpável de frustração com tamanho estrago ao corpo.

Até aí temos uma visão “externa” do que é um acidente em escalada – o choque imediato, as consequências físicas que seguem, e a confusão mental que se instala e toma conta da vida da vítima. No entanto, é após o conselho de uma enfermeira, e um diagnóstico de transtorno pós-traumático severo, que o filme surpreendentemente da um giro de 180 graus e começa a ganhar pinceladas de positividade.

É a partir daí que Steve, entrevistando alguns dos maiores nomes da escalada e alpinismo (Sir Chris Bonningnton, Steve House, Tommy Caldwell, Andy Parkins, Tom Ballard, e Nick Bullock entre outros), além de cientistas e especialistas em neurologia, psiquiatria e psicologia, começa a responder questões relacionadas à psicologia do risco, à atração de certas pessoas pela aventura, as diferenças entre os praticantes de esportes “normais” e aqueles onde um erro custaria uma vida.

Entram então depoimentos de atletas profissionais da escalada, esqui, salto base, intercalando com episódios da recuperação de Steve, e o filme então começa a traçar sua cuidadosa teia de experiências pessoais, fatos, ciência e bastante emoção, elucidando lentamente a teoria e a prática da reconstrução da identidade do escalador após o acidente que lhe deixou literalmente sem norte. Aí se nota a única falha técnica – o excesso de utilização de trilha sonora sobre depoimentos que já são suficientemente dramáticos.

Magnetic Mountains é talvez o primeiro longa-metragem a tratar inteiramente de um tema que felizmente tem sido mais discutido na mídia de esportes de risco – risco, seus limites, e suas consequências. A maneira humilde e aberta com a qual Steve expõe a dimensão do trauma é tocante e raramente vista, o que torna o filme ainda mais especial pelo tratamento inédito. “Meru” tratou corajosamente do tema porém como subesfera, enquanto o foco de Magnetic Mountains é totalmente no trauma do acidente e na, literalmente, nova vida que foi construída.

Para um escalador fanático, o que se desenrolou no ano seguinte até o lançamento do filme, 3 anos após o acidente, pode parecer impensável, mas Steve traça uma linha totalmente lógica em seus questionamentos e nas escolhas que toma nesse tempo.

Recheado de imagens de tirar o fôlego, o filme termina de maneira tocante, mas sem ser piegas – muitas questões ficam no ar e que estimularão muita discussão. O mais importante no entanto é o sentimento de esperança na continuidade da vida e de momentos de felicidade, mesmo após as piores provações.

Nota Revista Blog de Escalada:

Magnetic Mountains estreou em 10 de Novembro em Les Houches. O filme já foi selecionado por diversos festivais e estará disponível on demand em breve.

Cissa Carvalho é natural de São Paulo e praticante de esportes outdoor desde os 8 anos de idade. É alpinista fanática, e nas horas vagas tenta escalar em rocha, surfar e arranjar dinheiro para continuar viajando. Já esteve em todos os continentes e já escalou na América do Sul, África, Ásia e Europa

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