Crítica do filme “Livre”

livre-filme-posterViagens de peregrinações fazem parte da mitologia atual e quem realiza caminhadas como “O Caminho de Santiago”, na Espanha , ou “Caminho do Sol”, este no Brasil, está em busca de algo a mais do que simples paisagens e entretenimento de turista.

Nestas peregrinações, muitas vezes com solidão e silêncio, estamos com os nossos maiores inimigos: a nossa mente e a culpa que carregamos.

Quem já realizou este tipo de viagem na qual tem-se com o objetivo caminhar por 770 km , como no Caminho de Santiago, sabe que as maiores dificuldades não estão no esforço físico e sim no próprio consciente,o qual força reflexão sobre si mesmo sem possibilidade de fuga.

Nos EUA existe uma trilha que mistura aventura outdoor com uma forte dose de peregrinação que é o “Pacific Crest Trail”, comumente conhecida como PCT.

Este “passeio” inicia desde o sul do estado americano da Califórnia, mais precisamente do Deserto de Mojave, prolongando-se por quase 1.800 km, exigindo de seus caminhantes por volta de 90 dias para completá-la.

Um esforço físico e mental que nem sempre o mais preparado fisicamente consegue fazê-lo.

O filme “Livre”(Wild em inglês) baseado em livro autobiográfico homônimo da autora Cheryl Strayed, o qual narra a história da protagonista, que após várias tragédias pessoais, entrou em um comportamento hiper destrutivo de sua vida.

Comportamento este que incluiu drogas de todos os tipos, infidelidade no casamento, altas doses de promiscuidade com terceiros, enfim vários desvios de comportamento que foram desencadeados pelo falecimento prematuro de sua mãe.

filme-livre-6Como Strayed era muito afeiçoada a sua mãe, o impacto da morte teve um efeito avassalador em sua alma, tornando difícil até mesmo aceitar o fato.

Sempre atraída pelo desafio de ir realizar o PCT, em um impulso compra todo equipamento, que julga ser necessário, para a trilha e parte para a caminhada, na esperança de a mesma a transforme, e traga respostas para sua vida.

“Livre” é dirigido por Jean-Marc Vallée, que já realizou um trabalho que chamou a atenção de todos em “Clube de Compras Dallas”, no qual seus protagonistas se entregaram de corpo e alma aos personagens o que posteriormente lhes rendeu Oscar de melhor ator  e ator coadjuvante para, respetivamente, Matthew McConaughey e Jared Leto.filme-livre-2

Procurando sempre dar mais realismo aos seus filmes Vallée escalou Reese Witherspoon e fez com que a atriz, além de realizar parte do percurso, também abdicasse de maquiagem e vaidades para utilizar o mesmo equipamento que Strayed usou à época.

Logo no início da produção fica evidente que a personagem está despreparada para realizar qualquer atividade de montanha, e tem seus primeiros contatos com a comunidade outdoor, uma outra pessoa já lhe passa as principais instruções para que abdique dos equipamentos desnecessários.

Não fica despercebido tampouco todas as ironias e piadas a respeito do volume de equipamentos de Strayed , já que ela nunca tinha realizado uma trilha em sua vida.

O filme é pontuado no seu decorrer de flashbacks curtos, por vezes recorrentes, para que o passado que assombra a protagonista seja conhecido, mas sempre de curta duração com a clara intenção se aproximar a história do expectador, evidenciando as pequenas culpas que as pessoas carregam e recordam constantemente em caminhadas deste tipo.

filme-livre-4Até mesmo a memória musical (quando uma música nos relembra de alguém ou alguma situação) é usada para marcar como cada detalhe que nos cerca pode abalar uma alma com grandes máculas e vazio interior.

Quem já realizou algum tipo de peregrinação rapidamente se identifica com a  “auto-tortura” com que a personagem de Whiterspoon realiza por todo o filme e é salpicada sempre em forma de flashbacks.

filme-livre-8Procurando não focar muito na imensidão da natureza, e sim na transformação psicológica da protagonista, os flashbacks reforçam ainda a personalidade forte da protagonista assim como evidencia como ela vai distanciando psicologicamente de como  era no início do filme.

A direção de fotografia adotou a postura de não evidenciar a natureza como selvagem e a pequenez do ser humano diante dela (o que é um desgastado clichê), como é feito em excessivamente em “Na Natureza Selvagem”, e sim em capitalizar a transformação da alma de Strayed diante do contanto com a natureza com pequenas superações em uma longa peregrinação com muitos closes em pequenos detalhes como escoriações que equipamentos realizam em praticantes.

Detalhes de como o volume da mochila modificando à medida que caminha, ilustrando o desapego de fatos passados, e sentimentos, também não foi esquecido sendo muito bem utilizado.

Mesmo com a história centrada na peregrinação de Strayed, “Livre” não tem um ritmo lento como “Náufrago”, pois os flashbacks conseguem esclarecer a história passada da personagem, mesmo que por partes e em doses homeopáticas.

Chagando a um final catártico e lacrimejante, coroa uma produção madura e não novelesca de uma peregrinação de uma pessoa que busca respostas para sua vida.

O diretor Jean-Marc Vallée realiza assim um filme mais realista sobre atividades outdoor e que certamente agradará quem já realizou viagens pelo caminho de santiago ou caminho do sol.

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“Livre” é um filme que seguramente irá desagradar quem está acostumado a vida urbana e sempre gosta de filmes com pessoas e comportamento de quem foi criado com “leite com pera”, mas em contrapartida agradará pessoas acostumadas à rotinas de trilhas e montanha.

Reese Witherspoon, desprovida de maquiagem e de uma interpretação sem muitos sorrisos e olhares lascivos, mostra talento não costumeiro nas produções que protagoniza.

A produção serve ainda como uma homenagem e reverência a toda uma comunidade que realiza trilhas e peregrinações e que apesar de dores por peso de mochilas e botas apertadas sabe que a pior dor, e a mais aguda, está na alma.

Somente andando e refletindo muito para acalmar a culpa e virarmos a página de um capítulo que todos queremos lembrar sem sentir mais infelicidade.

Nota Revista Blog de Escalada: 

O filme “Livre” foi exibido durante a 38º Mostra de Cinema de São Paulo

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Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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