Crítica do filme “Gabriel e a Montanha”

Desde as primeiras imagens liberadas do filme “Gabriel e a Montanha”, para a divulgação da produção, alguns meios de comunicações limitaram-se a apenas compará-lo com a obra cult do cinema hollywoodiano “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild, 2007).

No filme dirigido por Sean Penn, a opção por várias tomadas, com planos bem abertos, que mostravam a libertação mental de uma pessoa atormentada por problemas familiares, agradou bastante o público. Estas imagens belíssimas na verdade acabaram mascarando, para o público em geral, alguns fatos do protagonista Christopher McCandless. O personagem, à luz da razão, desrespeitou vários procedimentos de segurança, tido como básicos para quem pratica trekking e atividades outdoor, e acabou morrendo por consequência disso.

Pouco se abordou, tanto no livro de Jon Krakauer quanto no filme de Sean Penn, que McCandless morreu em consequência de sua pura e simples imprudência. Tanto a fuga da realidade como a atormentação com dos fantasmas pessoais de McCandless, são abordadas de maneira mais clara no livro do que no filme. Portanto, quem for apreciar “Gabriel e a Montanha” é bom que saiba que a história possui inegáveis semelhanças entre Gabriel e McCandless. Mas a versão brasileira é carregada de muito mais realismo e, em nenhum momento, procura transformar ninguém em santo ou mártir (como a obra americana faz). Aliás o filme brasileiro é muito longe disso.

“Gabriel e a Montanha” é talvez um ponto fora da curva, positivamente falando, das produções cinematográficas feitas no Brasil nos últimos anos. Há o hábito no Brasil ter um protecionismo excessivo com várias produções, algumas até de qualidade discutível como “Bruna Surfistinha” e “Faroeste Caboclo“. Estas duas produções, que na verdade são obras regulares, foram afagadas pela crítica especializada quando lançadas. Basta verificar que, além das duas obras citadas, a quase totalidade dos filmes brasileiros demonstram explicitamente diálogos fora de realidade, estética novelesca (recheada de cortes e recortes) e personagens tão exagerados que, aparentemente, demonstra que muitos roteiristas ainda pensam que fazer cinema é o mesmo que teleteatro (ou telenovela). Mas este problema, felizmente, não é o caso do diretor Fellipe Barbosa.

Mesmo alegando ser muito amigo do personagem de “Gabriel e a Montanha”, Barbosa conseguiu recriar, com riqueza de detalhes e várias metáforas visuais, a história de uma pessoa que, à luz da razão, não tinha apreço pelos procedimentos de montanhismo. Durante várias passagens, este tipo de descaso fica evidente em diálogos, comportamentos e, claro, nas decisões equivocadas que o personagem toma durante todo o filme.

O filme “Gabriel e a Montanha” conta a história dos últimos 70 dias de Gabriel Buchmann (em interpretação primorosa de João Pedro Zappa), um garoto rico, que após ser rejeitado pela Universidade de Harvard para uma pós-graduação, resolve tirar um ano sabático na África em 2009. A alegação de Buchmann era de que queria viver, e entender, as necessidades e culturas das pessoas necessitadas. Neste ano sabático visitou os países africanos do Quênia, Tanzânia, Zâmbia e Malaui. O personagem fazia questão de fazer um turismo imersivo, com gastos mínimos e, sempre que possível, interagindo como um cidadão local com as pessoas por onde passava. Para isso utilizava a indumentária típica da cultura dos países que visitava.

Nesta viagem pelos países africanos Gabriel Buchmann se dispõe a escalar algumas montanhas. Nestas tentativas, fica explícito o quão mimado era o personagem e, sempre que possível, disposto a algum disparate a quem o contrariasse. Nos seus últimos 70 dias de vida, sua namorada Cristina Reis (interpretada por Caroline Abras) o visita para que viagem juntos. Junto de Cristina, fica evidente o descaso, quase com que visceral, que o personagem trata todos que o contrariam, incluindo a namorada. Todo comportamento de mimado de Gabriel é sem exageros novelescos, mas muito perto da realidade do dia a dia de turistas brasileiros endinheirados que fazem pose de pessoas simples em viagens de mochilão. Fica nítido também que a todo momento que o personagem necessita de algo, basta ir ao caixa eletrônico em alguma localidade que o problema financeiro está resolvido.

Mesmo nas cenas da sua escalada ao Kilimanjaro onde claramente, além de não utilizar equipamentos adequados, foi carregado por seu guia é possível ver uma visão distorcida da realidade e das próprias habilidades. Sem muitos diálogos mas com cena bem construídas, com imagens panorâmicas em 360°, fica latente o despreparo de Gabriel para a prática do montanhismo. Todo este descaso que o protagonista não procura esconder, passa por total desrespeito às regras locais (especialmente com os guias de montanha) e ficando evidente que a real causa da sua morte foi esta atitude, que culminou em se perder em uma trilha. No episódio de sua morte Gabriel Buchmann, ao seguir para o alto de uma montanha de pouco mais de 3.000 metros, chegou a dispensar o guia e equipamentos adequados em local que sequer conhecia.

“Gabriel e a Montanha” é uma verdadeira aula de sensibilidade, com mise en scène perfeita, e de como o cinema brasileiro deveria se inspirar para produções biográficas. Mesmo com laços afetivos com o personagem, não há em nenhum momento vontade de posicioná-lo como herói. Há, entretanto, um desejo enorme de mostrar o tipo de cidadão que muitos dos brasileiros que visitam o exterior são. O que foi muito sutil e, ao mesmo tempo, impactante. Não é exagero nenhum dizer que a direção e roteiro do filme são irrepreensíveis, muito menos passionais e idealistas como a obra de Sean Penn.

Fellipe Barbosa, mesmo com poucas obras realizadas, demonstrou em sua direção segurança, a qual condicionou sua equipe a condições não muito usuais para quem trabalha com cinema, que possui um futuro promissor. Suas tomadas abertas e seus plano-sequência demonstraram domínio da linguagem cinematográfica e naturalidade que contribui para a imersão do espectador.

Não há em nenhum momento demonstração de que foi contaminado com linguagem novelesca nem publicitária, que é uma prática comum em várias produções brasileiras. Barbosa soube com seu filme, não somente respeitar a inteligência do público, mas realizar um filme brasileiro muito melhor que a média produzida por aqui.

Nota Revista Blog de Escalada:

O filme “Gabriel e a Montanha” foi exibido na Mostra São Paulo de Cinema

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

There are 3 comments

  1. Thiago L.L.

    Ótima crítica, mas discordo parcialmente quanto à visão de TOTAL despreparo que se tem sobre Chris McCandles(aliás ele foi muito mais do que se mostra em programas “largados e pelados”). Ele foi sim inconsequente em muitos aspectos já que desrespeitou regras valiosas de sobrevivência, mas á um cidadão médio como ele se vêem atitudes que muitos aventureiros de fim de semana normalmente não tomam como importantes. Os cuidados que tomou não foram suficientes, a fuga da realidade e seus transtornos pessoais são agravantes de perigo em uma “aventura”, porém o mesmo idealismo com que se mascarou estes aspectos negativos tem um propósito maior, qual seja, a crítica contundente á sociedade em que vivemos, ao materialismo, às falsas “relações sociais”, às ilusões e preocupações excessivas com questões profissionais, ou seja tudo que faz definhar na sociedade americana o ser humano. Portanto creio que o enfoque do filme de Sean Penn não seja uma aventura “Na Natureza Selvagem” tão pouco um filme para propagar um destino turístico ou atividade como muitos que vemos por aí e que recebem muito menos críticas. Talvez ele seja tão aclamado por causa disso, o o romanceamento dos fatos e heroísmo explorado em “Into The Wild” é sim necessário no tempo que vivemos, mas reconheço que não por um enfoque simplesmente aventuresco e sim mais amplo e transcendental. Abraços!

  2. Ricardo Wagner

    excelente critica! concordo com a visão limitada das produções tupiniquins, meio alias meuo retrogrado e bairrista. cansei de producoes ao estilo globo e sobre 64, onde e ligar comum esquecer que a guerrilha de esquerda nunca foi democrática e nunca lutou por liberdade. mas voltando ao filme gente assim que estraga serra fina roraima torres etc.. Mais uma coisa o Christopher McCandless morreu por culpa dele mesmo e nao tem nada de poesia e bacana nisso. A pessoas da regiao onde ele morreu o consideram um idiota, uma morte idiota.

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