Crítica do filme “Dodo’s Delight”

Um dos grandes desafios que enfrentam os filmes outdoor é conseguir sair do lugar comum e revolucionar o modelo formulaico que as grandes produtoras implementaram ao longo dos últimos 15 anos. Mesmo com grande qualidade de imagem (muitas em 4k) as histórias parecem as mesmas. A sensação parece ainda mais forte quando os personagens são sempre os mesmos e, para aumentar a sensação de deja vu, os protagonistas também se repetem.

A produtora de filmes Sender Films sabe desta repetição de fórmula e vem tentando se reinventar-se. Inegavelmente seus filmes “First Ascent”, “King Lines”, “Alone in the Wall” e “Valley Uprising” são considerados clássicos pelo seu público alvo, mas se analisarmos friamente desde seu último grande sucesso, todos seus lançamentos parecem contar a mesma história. Enfrentando uma concorrência com idéias mais modernas, que procuram focar mais em personagens do que em aventuras, dos produtores europeus, a produtora de Peter Mortimer vem mostrando um esforço elogiável para quebrar o paradigma das fórmulas que ela mesmo criou.

O filme “Dodo’s Delight” é, em poucas palavras, é uma produção muito diferente de tudo o que a produtora já criou até hoje. Talvez este tipo de abordagem deva-se pelo jeitão europeu, tanto de filmagem quando do humor empregado, que Sean Villanueva O’Driscoll acrescentaram ao filme. A produção documenta uma viagem que um grupo de escaladores fizeram, em um veleiro, para o Círculo Polar Ártico para experimentar linhas de escalada existentes por lá. Junto de Sean estão Ben Ditto, Nico e Olivier Favresse.

O jeito “diferentão” de “Dodo’s Delight” aparece logo no início da produção, com a narração de Villanueva com um inglês em sotaque carregado e recheado de pitadas de humor, desde a sua entonação como o conteúdo que expõe ao expectador. O dia a dia no barco, assim como o cotidiano de noites e dias, é colocado em foco. As escaladas são mostradas, é claro, mas ficam quase em segundo plano por conta da preocupação de fazer com que toda a viagem seja interessante de contar uma história. Este tipo de atmosfera, com bastante humor (mas sem querer ser engraçado em demasia) faz a atmosfera da produção ser divertida e, invariavelmente, convida quem quer que seja a também embarcar em uma viagem.

“Dodo’s Delight” está longe de ser considerado um clássico, pois perto de sua metade é visível que há uma barriga enorme e o filme perde o ritmo, retomando somente no final. A trilha sonora que parecia genérica ganha força até mesmo como personagem do filme quando os personagens gravam uma música improvisada e esta é tocada insistentemente. Mas mesmo assim há outros pontos que mostrou uma certa falta de cuidado com o produto final, dando à produção um aspecto de filme para youtube e não pare ser exibido em um cinema.

A direção de fotografia, como não poderia deixar de ser, é bem caprichada e passa ao mesmo tempo a sensação de desolação e frio que uma expedição ao Ártico possui. A escolha de grande angular para imagens dentro do barco não passou a sensação claustrofóbica que algumas produções possuem.

Porém no final das contas é imprescindível louvar o esforço da Sender Films em produzir conteúdo diferente para o universo outdoor, por isso “Dodo’s Delight” é um passo importante para o amadurecimento do gênero. Mas é importante lembrar que apenas um filme não marca uma mudança de postura, mas um desejo de querer mudar. Se o caminho será percorrido, ao invés de apostar em ficar na zona de conforto, cabe a Peter Mortimer escolher.

Nota Revista Blog de Escalada: 

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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