Crítica do filme “Dias de Tempestade”

dias-de-tempesdade-capaNo gênero de filmes outdoor temos muitos esportes documentados como surf, kayak, escalada, trekking , todos abordados de diversas maneiras.

Mas o interesse em explorações de lugares inóspitos desperta uma natural curiosidade de todos os perfis de público.

Valendo ressaltar antes de qualquer análise que a palavra “aventura” é muito mal utilizada atualmente, especialmente por sites superficiais e pequenas agências de ecoturismo, e o termo ganha outra dimensão quando aparecem expedições com objetivo de explorar o desconhecido.

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Sem dúvida nenhuma classificar a palavra “aventura”, como insistentemente fazem quem não entende de esportes de natureza, é desvaloriza-la quando se coloca na mesma bandeja expedições em alta montanha ou Big Wall junto a rally’s de automóveis.

No ambiente da escalada existem muitas categorias, e subcategorias, e que embora possam ter semelhanças entre si, existem diferenças abismais entre elas.

Importante dizer que cada uma tem suas dificuldades e particularidades, e nenhuma é melhor ou pior que a outra.Dias-de-tempestade-3

Já conhecido por suas expedições, e calejado em abrir vias de escalada, o escalador Eliseu Frechou (junto de Fernando Leal e Márcio Bruno) procurou realizar um feito que o tirasse radicalmente da fora da zona de conforto e ainda assim subisse um pouco mais acima a barra que delimita a dificuldade de conquistas de vias
de escalada.

O resultado deste desafio, com momentos que alternam determinação e boa dose de loucura, é documentado no filme “Dias de Tempestade”, o qual detalha desde o início da expedição até seu fim.

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Procurando alternar relatos descritivos, e reflexivos, de cada integrante que ficaram 12 dias pendurados abrindo uma via no Monte Roraima, nas lindas paisagens dos Tepuys, o filme tenta passar a verdadeira sensação de como é estar em uma escalada de Big-Wall.dias-de-tempesdade-2

Na expedição há muitos acontecimentos que ganham ares hollywoodianos (mas são verídicos), como piloto de helicóptero em manobras arriscadas, chuvas torrenciais, aranhas do de 10 cm, cobras e outros contratempos que quase deixaram os escaladores em uma “roubada”.

Pequenos detalhes como o espaço claustrofóbico do portaledge em dias de chuva, determinação para pregar grampos na parede e alimentação são retratados de maneira crua e sem rodeios.

Esta crueza de imagens e narrativa está a força do roteiro do filme.

“Dias de Tempestade” flui naturalmente em sua exibição retratando, em ordem cronológica, a aventura do grupo até seu final sem querer suavizar nada, nem tampouco tornar a aventura de “risco total de morte”.

A grande virtude do roteiro é não querer tornar ninguém herói, nem supervalorizar nada do que acontece ali.

Não há ali nenhuma cena de gritos guturais, nem momentos catárticos, muito comuns em filmes, por exemplo, da franquia “Dosage”.

A maneira de filmar de Eliseu Frechou, no estilo popularizado pela jornalista Renata Falzoni, consegue transmitir tensão e proximidade ao mesmo tempo.

Entretanto a sensação de ritmo acelerado também é acentuada devido à velocidade da narrativa de 12 dias serem resumidas em 20 minutos em uma edição desapegada de imagens captadas.

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Há detalhes que parecem destoar do roteiro, no que se refere ao grupo de escaladores, como o aparecimento de Fernando Leal em destaque no início de “Dias de Tempestade” e sua aparição discretíssima no decorrer de todo o filme.

De maneira também discreta, mas perceptível em algumas passagens, há ausência de algumas  legendas tornando-se em certa altura confuso em termos de linha do tempo.

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Com uma trilha sonora somente com blues instrumental se difere de outras produções outdoor, além de conferir doses certas de tensão, e catarse, que o enredo de “Dias de Tempestade” necessita por conta do desafio.

Entretanto muitos dos recursos utilizados por Eliseu Frechou, o diretor do filme, podem ser considerados inovadores como, por exemplo, utilizar a reflexão dos protagonistas, ao invés de somente o utiliza-los para descrições do que está sendo mostrado na tela.

A escolha fez o filme funcionar também como um convite à reflexão do expectador diante do termo “aventura” e “desafio”.

“Dias de tempestade” é um filme simples, não tentando inventar, ou reinventar nada, e , talvez, dos poucos filmes brasileiros que não tentam criar falsos heróis ou capitalizar com as conquistas.

Um mérito cada vez mais raro nestes dias em que o produto que mais se vende nas ruas é o “pau-de-selfie”.

Nota Revista Blog de Escalada:

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