Crítica do filme “Brave New Wild”

brave-new-wild-cartazTalvez a frase mais falada por escaladores de todo o mundo seja a de que a escalada “é muito mais que um simples esporte e sim um estilo de vida”.

Esta frase é repetida tantas vezes que, sem nenhum exagero, já se tornou um mantra para muitos escaladores, podendo ser considerada o principal clichê quando qualquer um se refere ao etilo dos praticantes de escalada.

Entretanto muito pouco se pergunta, ou se investiga, a respeito de como foi a elaboração, ou ainda quais foram os precursores, do “estilo de vida escalador”.

Pensando nisso a diretora Oakley Anderson-Moore,  influenciada pelas histórias que seu pai sempre contava durante sua infância, durante a sua faculdade sempre teve vontade de documentar de uma maneia mais detalhada, e menos romantizada, todo aquele universo que lhe foi apresentada desde seus primeiros anos de vida. Com todo o seu know-how para elaboração de documentários, junto de sua curiosidade por saber mais sobre a natureza do esporte e estilo de vida dos escaladores, em especial os “dirtbags”(conhecido popularmente como “micróbios” no Brasil),  produziu o seu filme “Brave New Wild“.

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Procurando contar os primórdios da história da escalada nos EUA, o filme documenta o nascimento da prática como esporte, além do surgimento de heróis e de toda uma “religião” que tinha em Yosemite, a meca da escalada tradicional americana, o seu epicentro.

Procurando traçar uma linha de tempo bem determinada, procurando ilustrar o início da escalada como um esporte em si e não como exploração de imperialismo territorial, “Brave New Wild” disponibiliza informações preciosas e raras sobre o assunto aprofundando em aspectos pouco explorados por grande parte dos produtores da atualidade.

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Utilizando o clássico recurso de depoimentos de pessoas que fizeram parte da história, ou foram testemunhas oculares dos fatos, mostra uma infinidade de fotos e imagens inéditas disponibilizadas com animações e legendas muito bem humoradas. Fosse considerar a produção apenas como documento histórico, “Brave New Wild” já se destaca, e muito, entre tudo o que já foi produzido nos últimos anos. Porém a produção é muito mais que uma coletânea de fotos e narrativas é também um do documentários mais inteligentes e imparciais sobre a filosofia dos “dirtbags” americanos e como foram formados a partir de uma mistura de movimentos culturais da época.

Junto de todos os dados históricos, a diretora procurou tirar de cada depoimento informações sobre o estilo de vida, como os escaladores ganhavam dinheiro, maneira que se alimentavam e divertiam. Inevitavelmente o filme “Brave New Wild” se assemelha, em teoria, na proposta do recém lançado “Valley Uprising”, por tratarem do mesmo assunto, utilizando inclusive algumas fotos e personagens em comum.

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Porém a semelhança entre os dois termina por aí, pois a produção de Oakley Anderson-Moore é muito superior ao da Sender Films, tanto em fatos quanto em profundidade, especialmente pelo esforço notável de abordar fatos interessantes da vida de cada um dos personagens.

Neste aspecto “Brave New Wild” é um documentário encorpado e maduro quando comparado à produção de Peter Mortimer, especialmente porque estabelece perguntas a serem respondidas e não apenas a construção de heróis. Para a realização deste documentário, a diretora entrevistou próximo de 40 escaladores, muitos dos quais são desconhecidos do público mais jovem, e da mídia outdoor, mas que pertencem à história da escalada americana. Nitidamente em cada declaração destes personagens a procura não era por restabelecer a história e sim entender como era a vida de um “dirtbag”.

Por ter realizado um trabalho biográfico impecável com fatos curiosos como, por exemplo, Royal Robins ter sido preso na infância, e também servido o exército, é um ótimo exemplo das informações inusitadas que povoam a produção.

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A escolha de colocar cada uma das pessoas que fizeram depoimento ao filme sob luz de velas, para simular fogueiras, como todos os “dirtbags” conversavam à noite, provou ser uma boa ideia pois fez com que cada um fosse imerso em uma atmosfera de lembranças enebriante. Além das fotos inéditas, muitas das quais pertencem ao acervo pessoal de cada um dos personagens, há uma última entrevista de Warren Harding pouco antes de morrer e que permanecia inédita ao público.

Brave New Wild“, entretanto, apenas escorrega quando se alonga mais que o necessário nos momentos que aborda a vida de seu pai, o qual passou 10 anos trabalhando como catador de frutas para sustentar a sua prática de escalada. Talvez neste ponto há alguma história a qual gostaria de destacar, mas não agregou muito à história.

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Por ter este tipo de “barriga” no seu roteiro, o espectador é tirado um pouco do contexto da história do esporte neste momento, o que momentaneamente deixa o filme sem um rumo definido. Mas esta pequena barriga que apresenta o filme não afeta, em absoluto, o produto final mas incomoda.brave-new-wild-4

A produção é, ao mesmo tempo, um documento histórico, com muito entretenimento e, em muitas partes, de um humor fino e bem arquitetado pela competente diretora Oakley Anderson-Moore.

Assim como o filme “Poderoso Chefão” assombrou, e continua assombrando, cinéfilos de todo o mundo, o mesmo pode se dizer de “Brave New Wild” (guardada as devidas proporções, claro) pela soberba qualidade e habilidade indiscutível com que lança um olhar mais analítico sobre a cultura de um esporte retratado sempre com superlativos e passionalidade.

Por abordar de maneira tão brilhante, “Brave New Wild” é quase obrigatório a quem deseja documentar a história de um esporte, além do um estilo de vida próprio e em constante evolução, e conseguir agradar todo o tipo de público. Por tantos pontos positivos chega a ser inevitável afirmar que no ano de 2015 nasceu um clássico dos filmes outdoor mundial, e ele se chama “Brave New Wild“.

Nota Revista Blog de Escalada :

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Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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