Crítica do filme “Bike versus Carros”

bike-vs-cars-1O filósofo e escritor brasileiro Luiz Felipe Pondé em um de seus vídeos publicados em seu canal de youtube, foi questionado sobre que coisas ele acreditava ser “brega” na vida. Como sempre ferino em suas respostas elencou vários costumes contemporâneos, dentre as quais figuravam  “pessoas que andavam de bicicleta e se achavam legais por este motivo”. Apesar de Pondé não ter publicado nada sobre o filme “Bike versus Carros”, é fácil imaginar que o filósofo acharia uma das coisas mais bregas já feitas em termos de documentário. Pegando emprestado suas expressões é um filme feito sob encomenda para “inteligentinhos” assistirem.

Dirigido por Fredrik Gertten o filme “Bike versus Carros” (Bikes vs Cars, 2015) é mais um dos documentários rasos e de mentalidade binária, que vêm sido consumido por uma geração de produtores que adotaram a cartilha do “nós contra eles”, pregada por vários políticos populistas da América Latina. O filme, em linhas gerais é uma versão melhorada do fraquíssimo “Cownspiracy“,com a mesma atitude de interpretar dados à sua própria conveniência e os omitir quando não o favorece. Ambos os filmes insistem em chegar a conclusões definitivas, sempre baseada em percepções de fatos que cercam os personagens, mas sem, pelo menos, analisar todos os lados que compõe o problema.

Inegavelmente o filme Gertten é muito bem intencionado quando procura mostrar que a produção de carros está chegando a um limite e toda a população mundial sofre com isso. Mas ofende a inteligência do espectador quando tenta, descaradamente e insistentemente, convencer que a bicicleta é o transporte do futuro. Se o transporte em bicicletas é ou não de fato uma solução para a mobilidade no futuro,não cabe aqui neste artigo, e nem a intensão dele. O que é o foco aqui é analisar é a obra “Bike versus Carros” como documentário e não somente a história que ele possui. Não há dúvida de que o transporte de bicicleta possui inúmeras vantagens e que merece ser contemplado como alternativa de mobilidade para todos os cidadãos do mundo.

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Mas todas as possibilidades de fazer as pessoas refletirem sobre a alternativa de usar bicicleta ao invés do carro é enterrada, especialmente quando há filmes tão panfletários e sem nenhuma intensão de refletir como é o caso de “Bike versus Carros”. A incapacidade de observar os vários elementos envolvidos na questão da bicicleta, faz com que o filme seja fraco, com nível de qualidade de trabalho acadêmico de aluno nos primeiros anos de curso. A obra é cheia de boas intensões, mas esbarra na falta de lucidez e análise social que envolve a vida moderna.

Buscando comparar o estilo de vida de pessoas em diferentes cidades do mundo, Fredrik Gertten escolheu somente poucos indivíduos, e em cidades tão distintas uma das outras, que acabou por comparar banana com maçã. Colocou, por exemplo, sem critério nenhum pessoas de São Paulo que residem em lugares com acesso fácil a vários pontos da cidade, mas esquecendo, convenientemente, de toda a população que vive em locais mais afastados dos bairros nobres do município como Capão Redondo, Itaquera, Grajaú, entre outros tantos. Um equívoco que evidencia a visão míope do problema de locomoção. Logo no início o filme mostra categoricamente que na cidade de São Paulo existem 20 milhões de habitantes, quando na verdade é apenas metade disso, e, para “abrilhantar” seu erro, o seu foco de gravações é apenas uma região menos populosa, mas a mais rica, como a avenida paulista.

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“Bike versus Carros” ainda teve uma preocupação, embora muito pequena, de mostrar profissionais que realmente entendem de planejamento urbano e que convivem com os estudos do problema todos os dias. Porém o destaque a respeito do tema ficou para os “achismos” de ciclo-ativistas, entrevistas com profissionais de marketing e nenhuma entrevista com autoridades públicas sobre o porquê do pouco investimento em transporte por bicicletas. Quando necessitou colocar alguma figura pública no foco, optou por mostrar um político fascista no Canadá que ficou famoso por tomar decisões pouco inteligentes a respeito do transporte público.

Porém nem somente pontos negativos fazem parte de “Bike versus Carros”, há louvar o esforço do diretor em, pelo menos, mostrar várias cidades do mundo. Porém este tipo de preocupação foi em apenas documentar cidades, abordando somente a superfície do problema de mobilidade o que, inevitavelmente, deixou sua produção pobre de conteúdo e apenas rico em imagens.

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Repetidamente quando teve a oportunidade de investigar de onde vem a animosidade de motoristas com ciclistas, o diretor optou por ficar na superficialidade. Na passagem de um acidente que amputou o braço de um ciclista na cidade de São Paulo, Gertten optou por não mostrar o problema crônico da impunidade. Deixou de lado como se fosse pouco importante que o criminoso que cometeu tal atrocidade está gozando de liberdade. Ignorou também que na cidade de São Paulo foram abertas várias ciclo-faixas na última década, além da criação de ciclo-vias, mas evidentemente longe do ideal.

Para quem gosta de conteúdo que sirva como um convite à reflexão dos rumos que a humanidade, o filme “Bike versus Carros” possui o mesmo efeito frustrante de ser servido com um café expresso frio em um restaurante badalado. A produção é apenas mais uma obra panfletária, medíocre e, em algumas partes, indigna de qualquer tipo de adjetivo o que, indiscutivelmente, é uma pena pois o tema merecia produções de qualidade e que servissem para refletir a respeito da mobilidade urbana.

Nota Revista Blog de Escalada: 

O filme “Bike versus Carros” está disponível para visualização no Netflix

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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