Crítica do Filme “Beyond the Edge”

beyond_the_edgeO Monte Everest desperta muito fascínio aos montanhistas, e a quem abraçou o sonho de estar no teto do mundo.

Sonho este alimentado principalmente pela mídia não especializada, e explorado até com deselegância dado os textos criados por ela sobre o assunto.

Muito deste mito nasceu de diversas tentativas frustradas de realização de cume que inspirou o sensacionalismo da imprensa no começo do século 20.

O tempo passou e hoje a realidade é que o Everest nem de longe oferece o desafio que exigia à época, pelas escadas e facilidades que existem hoje.

Estas mesmas facilidades ajudam a realizarem produções de qualidade duvidosa como o fraco filme brasileiro “Born Natural Climber” ou o polêmico americano “High Tension”.

Buscando se afastar de todo confete atirado por sites de baixa qualidade, e alimentados por empresas de turismo no Everest, os produtor Matthew Metcalfe se esforçou a realizar um filme que contasse não somente a história da primeira ascensão e sim de como foi vivido pelo Neozelandês Edmund Hillary em 1953.

O resultado de toda esta matemática é um filme excelente, se destacando por conseguir unir declarações em voz, gravadas do rádio, dos integrantes da expedição com imagens da época com uma impecável direção de arte que reconstituiu roupas, equipamentos e procedimentos da época.

O filme opta por realizar uma narrativa não linear, com flashbacks da vida do próprio Edmund Hillary pontuando detalhes não tão conhecidos de sua carreira.

São também abordados em flashbacks a preparação de toda a equipe e a impressão que tiveram a respeito de todos os estudos realizados e o que realmente encontraram no Himalaia.

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Inegavelmente a reconstituição de roupas, cenas e principalmente de personagens impressiona ao mais cético e crítico espectador.

Da mesma maneira que os fãs de Jim Morrison se impressionaram como o ator Val Kilmer era quase idêntico ao cantor, o mesmo acontece com Chad Moffitt que está praticamente igual a Edmund Hillary.

Com imagens bem tratadas, que até causa confusão se foram ou não gravadas originalmente à época, “Beyond the Edge” consegue ainda fazer boas referências históricas de como eram os equipamentos de montanhismo em 1953.

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Com roteiro muito bem definido, o filme corre em um ritmo mais cadenciado e pouco atrativo a quem aprecia quantidade de cenas de ação e tensão.BeyondTheEdge-3

Na linha do tempo definido pelos roteiristas coube ainda relatos interessantes sobre a preparação física de cada integrante, como era a relação dos montanhistas com o desafio e outros detalhes sempre esquecidos em filmes que tratam do mesmo assunto.

Curioso também foram as propostas de alguns cientistas para que fosse possível “contornar” o problema que é a Zona da Morte, e outros inventos para ajudar no aquecimento dos montanhistas.

Casacos com resistências elétricas (iguais aos chuveiros), balões de hélio amarrados aos montanhistas, arpão atirados para construir uma via ferrata e outras idéias que pareciam geniais à época e que soam como galhofa nos dias de hoje.

BeyondTheEdge-1Nesta preocupação em documentar a história, não somente o feito em si, ” Beyond the Edge” supera, e muito, as produções de alta montanha realizadas na atualidade.

O final do filme é uma homenagem quase que irrepreensível ao feito de subir ao Everest pela primeira vez, em músicas de efeito ou gritos, apenas a emoção contida e o desejo de retornar vivos ao campo base para contar história.

O filme ” Beyond the Edge”  é das poucas produções que consegue mesmo sendo recente ter status de clássica e cult ao mesmo tempo, sendo ainda um excepcional documento histórico para ser apreciado por montanhistas e público leigo.

Nota da Revista Blog de Escalada: 

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Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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