Crítica do Filme “Balls Pyramid”

No universo de filmes outdoor é de conhecimento geral que existem muitas categorias, e modalidades, dos mais variados esportes de ação e a preferência, ou profundidade, variam de acordo com o perfil do público alvo.

Independente do tipo de esporte a ser documentado no gênero, o fator mais relevante no momento da decisão de realizar qualquer produção é a elaboração de uma história interessante e agradável a quem assiste.

Para isso não são muitos elementos a se utilizar como roteiro, edição e filmagem e a elaboração destes parece ser simples bastando adicionar criatividade.

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Mas somente criatividade não basta para uma produção ser de qualidade, qualquer dúvida basta conferir o que produziu o diretor Ed Wood (conhecido como o pior cineasta da história), o qual ficou conhecido pela baixa qualidade de seus filmes, mas ele próprio se achava extremamente “criativo”.

O único fator limitante na produção de filmes outdoor é, além da falta de criatividade dos produtores,  que muitas vezes produtores acabam por confundir a realização de filmes com videos promocionais e excesso de auto-referências para construção de falsos heróis.

A superprodução “Balls Pyramid” parece padecer deste mal, e se fosse necessário definir a produção de maneira resumida seria “muita cana para pouca rapadura”, dada a profundidade rasa da história unida ao uso desnecessário de recursos técnicos de filmes de propaganda, além da exagerada auto-referência do protagonista Luigi Cani.

Este mesmo tipo de necessidade de auto afirmação foi vista no personagem de “Foxcatcher” (a qual foi inspirada em uma história real), que necessitava afirmar-se todo o tempo, mas na verdade tinha uma extrema baixa estima.

O filme “Balls Pyramid” documenta a história de dois praticantes de BASE Jumping que “descobrem” a existência de uma formação rochosa nas proximidades da Austrália e, segundo deixam a entender, que nunca foi realizado nenhuma atividade do esporte no local.

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Alucinados pela beleza do lugar, os protagonistas não medem esforços (nem dinheiro) para ir até lá e realizar um arriscado salto visando uma experiência única em um local de beleza exuberante.

O desenrolar da história mescla fracos diálogos dramatizados entre personagens com imagens de flashbacks para explicarem as piadas e referências internas que trocam constantemente.

Com tantas referências a feitos próprios, piadas internas e uma auto-propaganda excessiva do protagonista a produção se assemelha mais ao filme ficcional de Sr. Burns, personagem do desenho animado dos Simpsons, do que algo realmente sério e trabalhado.

Na premiada animação da televisão Sr Burns realiza um filme somente para se auto elogiar no qual até mesmo as pirâmides do Egito o personagem se vangloriava de ter sido ele o realizador.

Com o ego altamente inflado o protagonista Luigi Cani de “Balls Pyramid” parece ter a mesma visão deturpada da realidade, assim como Sr Burns tinha de si mesmo.

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Mas a excessiva vaidade do protagonista é o único ponto ruim da produção, já que o filme derrapa por toda a produção com erros primários, além de constrangedores, de roteiro como : personagens não introduzidos aparecerem do nada, ausência de explicação de termos técnicos,  falta de elaboração no objetivo da aventura, e etc…

O que fica óbvio é que se passa de um amontoado de vídeos de um garoto rico e um patrocinador convencido de que suas atitudes merecem apoio.

Cenas com diálogos dramatizados possui interpretações risíveis, além de desnecessárias,  e colabora para que o filme se arraste penosamente por quase todos os 73 minutos de duração, torturando o espectador.

Recheado de cenas desnecessárias, além de tentativas inócuas de incluir tensão artificial à história, “Balls Pyramid” chega ao seu final da maneira mais decepcionante possível, fazendo com que o expectador tenha a impressão que acaba abruptamente, mas na verdade o que realmente viu foi um catálogo de feitos vazios e ausência de roteiro propriamente dito.

Para o espectador mais atento a mesma qualidade apresentada na elaboração de “Balls Pyramid” é visto em vídeos disponíveis na internet, talvez com melhor qualidade e menos empáfia dos personagens.

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Fosse possível comparar “Balls Pyramid” a produções Hollywoodianas seguramente estaria para um calibre de “Mercenários 2”, ou “Debi e Loide”, tanto pelas interpretações desnecessárias e ridículas dos personagens, como pela profundidade inexistente de história e terminando na incoerência de roteiro.

“Balls Pyramid” é, sem dúvida, um filme realizado por um “Rei do Camarote”, porém mais esportista mas igualmente egocêntrico e narcisista.

Há de se entender que muitas produções outdoor não têm ambição de serem filmes clássicos, nem referência para serem consideradas obras primas, mas sim apenas entreter, mas “Balls Pyramid” poderia ao menos ter se esforçado em se levar à serio, e ter respeitado a inteligência do público, o que deliberadamente não faz nenhuma vez durante toda a exibição.

Durante quase toda exibição “Balls Pyramid” deixa a entender de que foi um vídeo amador feito somente para amigos que se conheciam de longa data, e não para o público em geral, assemelhando-se assim a tediosas sessões de slides de fotos de viagens que eram populares nos anos 70, levando a intuir que o dinheiro dos produtores foi apenas para ostentar brinquedos caros.

“Balls Pyramid” é um cristalino exemplo de o que acontece entre o casamento entre publicitários com conhecimentos genéricos, e rasos, de cinema com a necessidade de inflar o ego de protagonistas.

O filme como um todo é uma obra vazia que apenas serve para preencher grades de televisão à cabo nas madrugadas, e se assemelha mais a uma propaganda estendida por longos, e intermináveis, 73 minutos do que um filme propriamente dito.

Nota Blog de Escalada : 

O Filme Balls Pyramid foi exibido no Rio Mountain Festival 2014

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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