Corridas de montanha, Impacto Ambiental e Outras Choradeiras

George Volpão em uma competição na Serra do Capivari - PR / setembro 2013

George Volpão em uma competição na Serra do Capivari – PR / setembro 2013

Vivemos cada vez mais em um mundo de chorões.

Um mundo onde o “meu” é mais importante que o “nosso”, onde precisamos muito ter a razão, contabilizar os likes, agradar a todos e nos afastarmos de quem pensa diferente.

A questão do impacto ambiental causado pela presença de corredores de montanha (ou trail runners) tem sido uma destas choradeiras que observo no mundo virtual.

Essa minha observação de forma alguma quer significar que não acredito que haja impacto ao praticarmos a modalidade.

É muito difícil falar em estudos específicos sobre trail running, já que a modalidade é recente inclusive em outros países.

Da mesma forma, os estudos que encontrei falam de comparações entre uso de trilhas por hikers (caminhada), mountain bikers, motociclistas e cavaleiros, não mencionando se esse pessoal a pé estava caminhando, correndo, carregando mochila pesada, acampando, etc.

As observações e impressões que formei tem um cunho muito mais subjetivo, baseado na minha vivência de 20 anos nas montanhas e trilhas. Eis minhas conclusões

1- Nem todas as trilhas devem se prestar à prática competitiva da modalidade, não importando o número de atletas. A passagem de umas poucas pessoas já pode causar dano permanente ao solo e entorno. Isso depende do atual estado da trilha e das condições climáticas da região. Trilhas muito íngremes, com solo muito poroso, úmido, especialmente de Mata Atlântica, deveriam ser evitados, caso não haja manejo anterior e posterior das trilhas.

2 – Ainda assim, acredito que o excursionismo sem controle causa impacto ainda maior. Montar acampamento, fazer fogo, usar o solo para dar cabo às necessidades fisiológicas e o pisoteio repetido são ações comuns de quem passa muitas horas ou mesmo dias inteiros em um único local. O corredor de montanha apenas passa e o impacto deste é restrito basicamente àquele causado por sua pisada e, eventualmente, algum lixo descartado pelos menos preocupados com a causa.

George Volpão correndo no Parque Nacional de Itatiaia - RJ / agosto 2014.

George Volpão correndo no Parque Nacional de Itatiaia – RJ / agosto 2014.

3 – Absolutamente TODAS as competições da modalidade deveriam apresentar à sociedade um estudo pré e pós prova, bem como um plano de manejo das áreas por onde passem os atletas. Principalmente se falamos de trajeto já consolidados para a prática de outras modalidades como o trekking, travessias de montanha e o mountain bike. No caso de áreas particulares, acredito que devemos respeitar o direito de propriedade, desde que o proprietário autorize o evento e cumpra com as normas ambientais que se lhe aplica.

4 – A prática da modalidade em trilhas já impactadas severamente e em ambiente de montanha deveria se restringir ao mínimo possível de pessoas. Cabe a cada atleta se conscientizar do tamanho do grupo, atendo-se de preferência aos conceitos propostos pelo Programa Pega Leve e reduzindo a carga de impacto causada.

5 – Nem todos os envolvidos com o ambiente de montanha são assim tão zelosos. Já vi montanhista fazendo “foguinho” em área proibida, corredor de montanha super produzido escapando da poça de lama e pisando fora da trilha, escalador arrancando o mato que está na fenda, mountain biker largando embalagem de gel energético pelo caminho e excursionista defecando nas cercanias de cursos de água. Não sejamos ingênuos. Esses imbecis existem. E contra a imbecilidade, temos que aplicar nossos valores, de maneira educada, preferencialmente.

6 – Fazer barulho na internet não adianta. O ideal é buscar o contato com os organizadores de provas e atletas, levando ao conhecimento deles essa necessidade de cuidar do que é de todos. E, caso não haja interesse em conversar e trabalhar juntos na minimização de eventuais danos, procurar as soluções legais. Muito mais digno e nobre do que fazer terrorismo digital, terreno favorito de covardes e presunçosos que se julgam guardiões do que não lhes pertence exclusivamente.

Enfim, acredito que haja montanhas e trilhas para todos. Alguns têm ciúme das “suas” trilhas. Acham que certos lugares ou certas trilhas pertencem à determinada comunidade ou grupo.

Muitos vêem as montanhas como seus santuários sagrados cujo acesso deve ser permitido somente para si e para seus “amigos”. Para os demais, “a força da lei”. Patético.

Juntos, nós somos mais fortes.

E certamente quem ganha mais com essa união somos todos nós que apreciamos estar sempre que possível desfrutando as nossas trilhas e montanhas.

Cordial abraço.

 

GeorgeVolpão1

George Volpão é, acima de tudo, alguém com profunda paixão pelas montanhas. Além de correr, às vezes, é montanhista desde os anos 90. Com suas andanças pelos matos do Brasil, teve a oportunidade de absorver valores que o levaram a correr nas montanhas pelos seus ideais. Transmitir os conhecimentos adquiridos de modo que a informação esteja sempre circulando é seu objetivo maior de vida. Vive atualmente em Quatro Barras – PR, a apenas 6 quilômetros de sua montanha favorita, o Morro do Anhangava (1.420m) e mantém este espaço vivo e pulsante. Mais que dar respostas, gosta de questionar.

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