Cordas de escalada : Quando devo usar corda inteira, meia corda ou corda gêmea?

A corda é o material mais importante para as atividades de alpinismo, escalada, espeleologia e trabalhos em altura. Podem ser classificadas em estáticas e dinâmicas, porém na realidade as chamadas estáticas são cordas semi-estáticas que pela legislação possuem de 3% a 5% (Norma EN 1891) de elasticidade.

Isso porque não existe um material que possa confeccionar um cabo que não tenha alguma elasticidade, até mesmos os cabos de aço possuem certa elasticidade.

Cordas estáticas geralmente são usadas em espeleologia ou trabalho em altura, portanto neste artigo trataremos especificamente de cordas dinâmicas, que por sua vez possuem algo em torno de 8% a 12% de elasticidade  Norma EN 892). Dentro das dinâmicas existem 3 principais tipos :

  • Corda inteira
  • Meia corda
  • Corda gêmea

Antes de entrarmos no assunto da cordas é importante chamar atenção para algumas nomenclaturas adotadas:

  • SWL (“safe work Load”) –  carga segura de trabalho
  • WLL (“work load Limit”) – carga limite de trabalho

Carga segura de trabalho 10% da indicação do fabricante em caso de material têxtil, como as cordas e 20% em caso de metálico ou seja se uma corda indica 30 KN (quilo Newton), significa que o WLL é 30 kN e SWL é 3 kN. Vale ressaltar que no estudo da física existem contas muito complexas para chegar no final a uma força com 30 kN. Por isso não basta dizer que se a corda aguenta 30 kN, posso levantar um carro pois existem diversos fatores como velocidade e aceleração que irão influenciar.

Obrigatoriamente, em medidas de força, não se usa a medida kg (quilogramas), portanto quando alguém falar que “tal material” suporta 3.000 kg ou 2.500 kg, mude de assunto pois esta pessoa não entende nada de física.

Não vamos entrar no mérito geral da construção da corda, para não estender muito este artigo, mas como já é muito conhecido possuem estrutura interna e externa, chamado de corpo e alma. De acordo com testes a capa ou estrutura externa contribui em 30% para a sua resistência de ruptura. (Para mais informações leia artigo aqui)

Cordas dinâmicas e materiais têxteis são construídos seguindo as seguintes normas : Norma EN 892 e UIAA 101.

  • EN 564/UIAA 102 : Corda acessório / cordelete
  • EN 565/UIAA 103 : Costuras
  • EN 566/ UIAA 104 : Cintas

Tipologia de cordas de escalada

Agora sim vamos ao assunto : cordas dinâmicas são usadas para alpinismo e escalada e são projetadas para absorverem parte da força de uma queda. Para isso trabalha em conjunto com o resto do equipamento, em especial a cadeirinha que por sua vez também trata-se de um material têxtil e possui suas especificações. As cordas podem ser subdivididas de acordo com seu diâmetro e seu comprimento.

Para uma corda também há as tipologias acima citadas : inteira, meia corda, e corda gêmea. As cordas são identificadas da seguinte maneira :

  • Número 1 = corda inteira (normalmente são encontradas com 8 mm a 13 mm de diâmetro)
  • Símbolo ½ = Meia corda (Normalmente encontradas com 8 mm a 9.2 mm de diâmetro)
  • Simbolo  “oo” = Corda Gêmea (Normalmente encontradas com 7,5 a 9,2 mm de diâmetro)

Perceba que de 8 mm a 9,2 mm de diâmetro existem os três tipos de cordas, com isso facilmente poderíamos utilizar o material inadequado para aquela atividade ou de forma inadequada.

Corda inteira

São certificadas para uso em escaladas e alpinismo e construídas de forma que possam ser usadas nas maiores quedas em geral são encontradas com diâmetros maiores que as meia corda e corda gêmea e também são mais pesadas, principal fator contra e o motivo de se procurar utilizar outro tipo de corda.

Segundo a norma EN 892 cordas inteiras devem resistir a pelos menos a 5 quedas sucessivas com fator 1.77 com massa de 80 kg (literalmente abrindo um parentes não vamos tratar aqui destes assunto pois são muito complexos e para o total entendimento leia matérias especificas sobre fatores de queda e força de arrasto ou arresto ).

Alongamento dinâmico máximo com uma massa de 80 kg não deve ser superior a 40%.

Devemos utilizar a corda simples para escalada esportiva e de vias difíceis e com várias enfiadas. É importante deixar claro que os fabricantes não preveem seu uso como corda dupla, como é amplamente usada por algumas pessoas com o freio “ATC”. Para isso seria melhor usar a meia corda, ou corda gêmea, além de ser também desaconselhável utilizar duas cordas inteiras em conjunto, pois foge das expectativas para qual foram construídas, nem sempre porque se tem duas corda se está mais seguro que com uma só.

Hoje existem para venda cordas que possuem simultaneamente duas certificações, como corda inteira e meia corda. A tendência é que se tenha cada vez cordas com diâmetros menores. Hoje é possível encontrar no mercado cordas inteiras com diâmetro inferiores a 9 mm, valor que antes era considerado baixo até mesmo para meia corda.

Este diâmetro as deixas cada vez mais leves e ágeis, porém vale o alerta de que os equipamentos, freio, ascensores, etc, são construídos e certificados para uso em corda com diâmetros específicos.

Meia corda ou corda dupla

É uma corda construída para ser utilizada em conjunto com uma outra, em algumas exceções podem ser utilizadas sozinhas. A meia corda é a indicada para alpinismo e escaladas de vias longas. A ideia de se utilizar duas cordas, ao invés de uma, é usar um material mais leve para transporte já que geralmente possuem o diâmetro bem baixo, além de possuir uma maleabilidade excelente e ter a duplicidade (que previne no caso de corte ou fissura de uma delas).

Devem ser usadas passando alternadamente cada uma delas pelos pontos fixos da vias (proteções onde se coloca as costuras), desta maneira distribui melhor as forças em uma queda nos pontos fixos.

É possível utilizá-la para recuperar o segundo da cordada. Podem ser utilizadas ainda de diversas formas em resgates e são encontradas com comprimentos de até 100 metros possibilitando assim o uso em vias longas usando uma só corda em dupla (dobrada não sozinha). Podem ser usadas sozinhas em cordadas com rampas médias e cristas de baixa dificuldade de modo que a distância entre cada alpinista não ultrapasse os 5 metros.

Também serve sozinha para confeccionar o “cow’s tail” espécie de talabarte amplamente utilizada em espeleologia, alpinismo e trabalho em altura (acesso por corda). Mas atenção : Deve-se ter um alto conhecimento técnico para utilizá-la na escalada, pois os procedimentos para dar segurança e para descida são um pouco diferentes dos da corda inteira e, por isso, exigem uma boa experiência e prática na hora de efetuar a parada e descida.

Também um bom motivo para utilizar a corda dupla é o fato dela permitir que seja feita uma descida tal qual a subida, com o mesmo comprimento, utilizando as duas amarradas em conjunto na parada. As cordas duplas são certificadas para resistirem a pelo menos 5 quedas sucessivas, com fator de queda de 1.77 com massa de 55 kg. Além disso o alongamento dinâmico máximo com uma massa de 80 kg não deve ser superior a 40%.

Corda Gêmea

São fabricadas para serem usadas obrigatoriamente em conjunto, normalmente são mais leves mais finas e mais caras que meia corda. Não podem ser usadas para dar segurança ao segundo utilizando apenas uma, por isso devem ser passadas as duas pelos pontos fixos (proteções para costurar a via).

Também não devem ser utilizadas uma só corda gêmea para progressão em rampas e em cristas, nem para confecção de “Cow’s Tail”. Duas cordas gêmeas em conjuntos devem ser certificadas para resistirem a 5 quedas sucessivas com fator de 1.77 com massa de 80 kg.

Além disso seu alongamento dinâmico máximo com uma massa de 80 kg não deve ser superior a 40%.

Testes feitos de acordo com norma e UIAA

Outras características

Não poderia deixar de ao menos citar outras características também encontradas em todos os tipos de cordas que devem ser vistas na aquisição como retenção de água, flexibilidade, resistência a abrasivos, resistência a agentes químicos e tipo de construção. Por exemplo aqui na Itália (onde vivo atualmente) têm-se ouvido bastante a respeito de novas tecnologias as quais são usadas para construção das cordas e, inclusive, já existem no mercado cordas tem sua capa trançada à alma (que impossibilita em caso de corte ou fissura da capa ou escorrimento).

O corte ou fissura da capa, ou escorrimento, pode acontecer em cordas que possuem alma e capa separadas Desta maneira, por causa do  uso muito frequente de equipamentos que tracionem somente a capa (como “Croll” e ascensores de mão ou pé) colocando assim em risco o usuário e desta maneira diminuindo drasticamente a vida útil do equipamento.

Atenção para as características e garantia da corda antes de comprar. Recomenda-se o uso inteligente do equipamento assim como os procedimentos de limpeza e armazenamento, pois no clima brasileiro facilmente a corda pode embolorar ou criar algum outro fungo de maneira. Uma corda embolorada baixa drasticamente a resistência da corda colocando assim a vida do alpinista ou do trabalhador em risco.

Referencias

  • Catálogos  e manuais Petzl
  • Catálogos  e manuais Beal
  • Manuais de alpinismo e escalada CAI ( Clube Alpino Itáliano )
  • Manual IRATA ( the Industrial Rope Access Trade Association)
  • Normas técnicas da Comunidade Europeia
  • Normas inglesas HSE http://www.hse.gov.uk
  • The American National Standards Institute

Sobre o Autor

Alexandre De Meo Gazinhato

Alexandre De Meo Gazinhato

Alexandre “Francês” Gazinhato é paulistano, Técnico em Segurança do Trabalho, Jornalista, Alpinista Industrial IRATA, escalador esportivo e membro do Clube Alpino Italiano e Gruppo Speleologico de Marche da Itália.

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