Poliamida: como é a alma de uma corda de escalada

Neste artigo falarei um pouco da alma da corda, um componente que nunca se vê (ou pelo menos não deveria), mas que o mantêm pendurado enquanto escala. A alma da corda que a torna tão resistente. As poliamidas são encontradas na natureza, na forma de lã ou seda, mas também são sintéticas como nylon ou Kevlar. No caso da corda a alma é uma poliamida sintetizada.

As primeiras poliamidas foram sintetizadas pela empresa química DuPont Corporation, por uma equipe liderada pelo químico Wallace Hume Carothers, que começou a trabalhar na empresa em 1928. Carothers chegou a ser o líder da divisão de química orgânica da DuPont e é creditado como o criador do nylon.

A alma de uma corda de escalada é formada por um conjunto de filamentos de poliamida (nylon) que tiveram um tratamento químico especial para que sejam mais elásticos e possam absorver melhor a força de choque. Este comportamento plástico não somente evita o rompimento da corda, como também amortece a queda.

A alma representa entre 65 a 70% do peso total de uma corda, mas sua representação no que se refere à resistência de uma corda é muito maior. A capa de uma corda de escalada é também feita de poliamida, mas sua manufaturação e função é de proteção da alma. A capa de uma corda suporta como máximo uma carga de 80 kg. Por ser entrelaçada, os fios de poliamida de uma corda apresentam uma resistência menor na longitudinal, mas aguenta muito mais forças em forças tangenciais.

As fibras de poliamida são organizadas em tranças, sendo que cada filamento aguenta algo como 240 kg. Por sua vez, cada trança possui um filamento que sozinho aguenta 80kg. Em geral uma corda conta com mais de 10 tranças, fazendo com que ao final aguente mais de 2.000 kg. Há de levar em conta que os fabricantes fazem estes de ruptura sim os nós. Lembrando que se um nó está mal feito, a carga de ruptura é menor ainda.

Ao fabricar as fibras de poliamida, as cordas de escalada possuem um processo distinto da corda de nylon. Um destes processos consiste de que depois de entrelaçar os filamentos, é submetida ao calor controlado no qual a fibra se torna mais elástica. Desta maneira, mantêm a qualidade externa quanto à tensão e gera fibras que podem absorver melhor as forças da queda em função do alongamento delas.

As fibras da capa também são de poliamida, mas não possuem o mesmo processo das fibras da alma de uma corda de escalada. Basta abrir uma corda de escalada para perceber que as fibras da alma são mais macias e esponjosas que as da capa.

Um outro aspecto da poliamida é que ela é muito sensível ao calor. Seu ponto de fusão é em torno de 230°C (ou seja se torna “líquido” rompendo-se). Por esta característica que é possível queimar a ponta de uma corda com um isqueiro e, após poucos segundos, pode ser moldado. A prática de queimar a corda é muito utilizada quando corta-se uma parte de uma corda danificada. Por causa desta sensibilidade a alto calor, há reportes de cordas que se deformaram em descidas muito rápidas (como prática de rapel de 50 metros) quando o sistema de freios (oito, grigri, atc, etc) pode aquecer e alcançar temperaturas próximas à de fusão. Desta maneira deteriora-se uma corda de escalada facilmente.

Exatamente pelo motivo descrito que deve-se evitar rapéis longos com descenso rápidos. Preferencialmente, tire a corda o mais rapidamente do seu dispositivo de segurança assim que descer. Entretanto nas costuras em vias de escalada este processo de atrito é um pouco diferente, mas mesmo assim em um mosquetão gastado, pode inclusive cortar uma corda.

A poliamida é muito sensível ao sol, por isso exposições diretas e prolongadas também a danificam.

Uma maneira simples, mas eficiente, de saber se a corda está desgastada é passando a unha por sobre a capa da corda, quando ela estiver seca. Caso a trama da capa comece a mexer e a também soltar um pó fininho, significa que a corda está perto de ser aposentada.

Uma corda de escalada possui um tempo de armazenamento e de uso: 10 anos desde a sua fabricação. Caso uma corda de escalada estiver sem ser usada por muito tempo (como uns dois anos), também deve ser aposentada.

Tradução autorizada de: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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