Eslovenos dominam última etapa da Copa do Mundo e consolida país como elite do esporte

Outrora dominada por italianos, franceses, espanhóis e alemães, a Copa do Mundo de Escalada do IFSC possui uma nova configuração que muitos sequer imaginavam. Países como Eslovênia e Japão são atualmente o grande celeiro de atletas que, segundo apostam os principais analistas, irão brilhar nas Olimpíadas do Japão. No último evento de boulder da Copa do Mundo do IFSC de 2018, ficou evidente que grande parte da América do Sul, sobretudo os route setters, ainda se inspiram no que era praticado no esporte há 10 anos.

A Eslovênia, país que raramente é citado em qualquer site especializado em escalada sul-americanos, não é conhecido por grandes estruturas físicas de academias de escalada, mas possui o grande nome da atualidade como seu maior expoente: Janja Garnbret. Além disso, na competição de boulder masculino em Munique, a Eslovênia também subiu ao pódio com os dois primeiros lugares: Gregor Vezonik e Jernej Kruder, respectivamente. Além disso o esloveno Jernej Kruder foi o campeão da temporada em boulder.

O Brasil foi o único país sul-americano a possuir representantes do continente com 7 atletas (3 mulheres e 4 homens). O brasileiro melhor classificado foi o paulista Felipe Foganholo que ficou em 73º de um total de 125 atletas (ficando a 53 colocações da semifinal). Já no feminino, a melhor brasileira colocada foi a mineira Patrícia Antunes que ficou em 71ª de um total de 101 (ficando a 51 colocações da semifinal).

Neste ano de 2018, houve uma participação recorde de atletas brasileiros em várias etapas da Copa do Mundo de Escalada do IFSC. Os brasileiros estão na Europa desde meados de junho e vêm participando de todas as etapas desde então. Entretanto esta maciça participação, que serviu para vários atletas adquirirem experiência, chamou a atenção a discrepância entre o rendimento de todos brasileiros com relação aos torneios realizados em solo brasileiro com as colocações no IFSC.

A discrepância acentuada entre os próprios atletas, com o que se classificou em solo brasileiro e com o que foi realizado na Europa, levanta a questão do desalinhamento acentuado das filosofias de route settering no Brasil. Ficou evidente que o que é praticado no mundo e no Brasil são duas realidades diferentes, prejudicando a performance e preparação dos representantes do país.

Agora todas as atenções estão voltadas na preparação para o Campeonato Mundial de Escalada, a ser realizado na cidade austríaca de Innsbruck. O campeonato é considerado o melhor espelho do que pode ser a classificação de atletas para as olimpíadas. Além disso, os sul-americanos que melhor se classificarem no campeonato mundial, são os que possuem grandes chances de se destacar no torneio continental e classificar-se para a Olimpíada. O torneio continental é, talvez, a única chance de que um sul-americano se classifique para as Olimpíadas de Tóquio 2020.

A grande prévia para os sul-americanos, assim como para os jovens talentos da escalada mundial, são os Jogos Olímpicos da Juventude que serão realizados na cidade de Buenos Aires. Até o momento, nenhum atleta brasileiro anunciou a participação no torneio. Esta ausência ilustra bem a dificuldade que o país enfrenta em conseguir renovar a geração de atletas. A Revista Blog de Escalada estará no local fazendo uma cobertura inédita para o esporte.

Janja Garnbret: A rainha da temporada

O nome da atualidade é, sem sombra de dúvida, da eslovena Janja Garnbret, que ganhou a medalha de ouro nas finais. A atleta deixou para trás as favoritíssimas Miho Nonaka e Akiyo Noghuchi do Japão, que terminaram em segundo e terceiro lugares, respectivamente. Mesmo assim, utilizando os resultados combinados (boulder + vias guiadas), Janja Garnbret é a campeã da temporada. A atleta eslovena ostenta uma performance que poucos escaladores na história da competição conseguiram: nas últimas 19 participações de Garnbret, ela ganhou 12 e nunca ficou fora do pódio. Desde que começou a competir, em 2016, ela possui um aproveitamento de 50%. Janja já é considerada a melhor competidora feminina da história da escalada.

A Eslovênia destacou-se nas semifinal e na final masculina, onde Gregor Vezonik, de 23 anos, conquistou sua primeira vitória na Copa do Mundo de Escalada, depois de terminar em segundo lugar duas vezes em etapas deste ano. Desta vez, ele deixou o segundo lugar para seu compatriota Jernej Kruder, que se tornou o primeiro esloveno a vencer a categoria boulder no geral, enquanto o austríaco Jakob Schubert ficou em terceiro. A Eslovênia obteve um resultado fantástico nesta etapa, com quatro atletas terminando entre os dez primeiros no ranquemaneto geral (que leva todos os resultados da temporada) Copa do Mundo deste ano: Vezonik em quinto no masculino e Katja Kadić em quinto no feminino.

Na atualidade, a Eslovênia, junto do Japão, é o maior celeiro de grandes atletas da escalada esportiva. Faz parte da cultura da escalada esportiva, sobretudo na América do Sul, acreditar que a superioridade de atletas europeus, em relação aos sul-americanos, pode ser resumida apenas à estrutura de treinamento disponível. Se esta regra fosse mandatória, a Eslovênia não teria um aproveitamento tão grande em etapas da Copa do Mundo. Entretanto, creditar apenas a disponibilidade de estruturas ao rendimento de atletas, é apostar em a visão simplista. Observando os detalhes da preparação dos eslovenos para os campeonatos de escalada é possível descobrir os principais motivos.

Qual o segredo então, deste pequeno país de pouco mais de dois milhões de habitantes e com um tamanho pouco maior que o estado de Sergipe? A resposta passa pelo nome de Roman Krajnik, um treinador especializado em escalada e que idealizou todo o treinamento e lapidação de valores individuais.

Além de treinamento individualizado para os destaques, o maior ídolo de seu país, a escaladora Martina Cufar, que fez sucesso em competições de 1992 a 2006 (tornando-se campeã mundial em 2001), foi colaboradora em inspirar os praticantes mais novos e cooperar na organização do esporte em seu país. Este tipo de altruísmo de ídolos e organização é que, vários anos depois, rendeu frutos para os atletas de seu país. Na organização da Eslovênia, desde os primeiros anos, o interesse de preparar a nova geração, em invés de perpetuar o status quo dos atletas estabelecidos, é que reside o “segredo”.

Qual o segredo da Eslovênia?

Muitos se perguntam qual seria o segredo deste pequeno país do leste europeu tornar-se potência no esporte. O segredo, muitos afirmam, está na aposta em renovar a nova geração de escaladores. A aposta em profissionais capacitados e uma grande determinação em encontrar talentos, são os grandes segredos da Eslovênia. Os campeonatos eslovenos, por exemplo, são organizados e idealizados para testar todos os atletas, sem preferências nem privilégios a ninguém (mesmo que seja um atleta consagrado). Na organização destes campeonatos, por exemplo, problemas considerados de conflito de interesses, como route setters sendo técnicos particulares ou mesmo namorados de alguns atletas, não existem. A rigidez no cumprimento das regras, além de pouca tolerância a privilégios, faz com que cada escalador, mesmo com pouca idade, seja tratado como atleta profissional e que seu comportamento exigido seja como tal.

Não há nas cidades eslovenas, grandes e nababescos ginásios de escalada. Dos ginásios que existem no país, todos os estabelecimentos fazem contribuição com a federação de escalada do país. O acordo de renovação da geração de escaladores e descobrimento de novos talentos, foi um acordo costurando entre todos os players do mercado. Além disso, os escaladores e técnicos do país acreditam no ditado de que “menos é mais”. Desta maneira, a cultura do esporte no país acredita que o importante na preparação de atletas são os treinamentos, não necessariamente as estruturas. Os ginásios do país se dedicam, a partir de um planejamento centralizado, a oferecer atenção especial de treinamentos a atletas de 10 a 17 anos de idade. Grande parte das mulheres do país possui personal trainer (diplomados e especializados) e todas, ao serem entrevistadas por veículos especializados, afirmam que possuem ambição de tornarem-se campeãs mundiais na sua categoria de preferência.

Com profissionais atualizados e reconhecidos por instituições, todos são liderados por Roman Krajnik. Não há, na preparação de atletas da Eslovênia, títulos figurativos nem genéricos, o que existe são profissionais que sabem o seu papel e levam a sério sua atuação. O próprio Roman Krajnik é chamado constantemente para palestrar em outras federações de escalada na Europa para falar mais sobre planificação de treinamentos. Não há ali o interesse pessoal de algum atleta, por maior seja o destaque deste em relação aos demais, passando por cima do coletivo. Questões éticas de administração de campeonatos, são tratadas de maneira transparente a todos os interessados.

Além disso, o orçamento da seleção eslovena é relativamente modesto, ainda mais se comparado com o de outros países do continente europeu. Mas um outro fator, que faz toda a diferença, é a prudência e responsabilidade com o que usam estes recursos. Não há, por exemplo, nos campeonatos eslovenos gastos extravagantes, como transmissão de streaming.

Portanto, ao se olhar o desempenho de atletas na Copa do Mundo de Escalada em 2018, fica evidente que o segredo é planejamento e administração a médio e longo prazo. Da mesma maneira que os Eslovenos, os nossos vizinhos argentinos e os nossos conterrâneos chilenos e equatorianos, também vislumbraram a importância de cultivar a nova geração. Nestes países sul-americanos, foram implementadas iniciativas de desenvolvimento de jovens atletas. Assim foram descobertas as atletas Valentina Aguado (17 anos) e Alejandra Contreras (17 anos), provando que acreditar que somente estrutura faz um atleta aparecer é o mesmo que acreditar que apenas construindo escolas significa o mesmo que investir em educação.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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