Janja Garnbret e Jakob Schubert se consagram em etapa de Copa do Mundo na Itália

A décima etapa da Copa do Mundo de Escalada (a quarta de vias guiadas), realizada na cidade italiana de Arco foi amplamente dominada pelos escaladores Janja Garnbret e Jakob Schubert. Classificando nada menos que quatro atletas femininas para a semifinal, a Eslovênia se firma como uma das grandes potências do esporte em todo o mundo. O país, que faz parte da comunidade europeia, não é conhecido por grandes estruturas físicas de academias de escalada, mas possui o grande nome da atualidade como seu maior expoente: Janja Garnbret. Além disso, no masculino, a Eslovênia também subiu ao pódio,

Já a Áustria, tradicional potência do esporte, mostrou renovação de sua geração de atletas e criou uma expectativa positiva para o Campeonato mundial em setembro.

A etapa de Arco contou com grande presença sul-americana, totalizando 19 atletas (12 homens e 7 mulheres), com representantes das maiores potências do continente: Argentina, Chile, Equador e Brasil. O melhor sul-americano classificado foi o brasileiro Felipe Ho, que ficou em 67º (de um total de 95 atletas), mas ainda longe de ser a melhor marca de um brasileiro nesta temporada. A colocação deixou o atleta brasileiro a 42 posições de uma possível classificação nas semifinais. Na categoria feminina, a argentina Valentina Aguado mostrou superioridade ficando em 36º tornando-se a sul-americana melhor classificada, ficando a pouco menos de 10 posições de passar para as semifinais.

A importância de atletas classificados para uma semifinal da Copa do Mundo de Escalada, deve-se ao fato de que estes, de um total de 25, possuem a real chance de participar dos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020. Se um atleta estiver muito longe desta “linha de corte”, as reais chances de classificar-se é utópica.

Ao final da décima etapa da Copa do Mundo de Escalada, o pódio na categoria feminina ficou com a eslovena Janja Garnbret em primeiro, a austríaca Jessica Piltz em segundo e a belga Anak Verhoeven em terceiro. A austríaca vem provando a cada competição que é, ao menos em vias guiadas, a antagonista da eslovena, assim como a belga.

Na categoria masculina o pódio ficou com o austríaco Jakob Schubert, o italiano Stefano Ghisolfi em segundo e o esloveno Domen Skofic em terceiro. O maior favorito da etapa, o escalador tcheco Adam Ondra (considerado o maior escalador esportivo da atualidade) ficou em quarto.

Estrutura faz diferença?

Na atualidade, a Eslovênia, junto do Japão, é o maior celeiro de grandes atletas da escalada esportiva. Faz parte da cultura da escalada esportiva, sobretudo na América do Sul, acreditar que a superioridade de atletas, em relação aos sul-americanos, pode ser resumida apenas à estrutura disponível. Se esta regra fosse mandatória, a Eslovênia não teria um aproveitamento tão grande em etapas da Copa do Mundo. Observando os detalhes da preparação dos eslovenos para os campeonatos de escalada é possível descobrir os motivos.

Qual o segredo então, deste pequeno país de pouco mais de dois milhões de habitantes e com um tamanho pouco maior que o estado de Sergipe? A resposta passa pelo nome de Roman Krajnik, um treinador especializado em escalada e que idealizou todo o treinamento e lapidação de valores individuais.

O maior ídolo de seu país a escaladora Martina Cufar, escaladora que fez sucesso em competições de 1992 a 2006 (tornando-se campeã mundial em 2001), foi colaboradora em inspirar os praticantes mais novos e cooperar na organização do esporte em seu país. Este tipo de altruísmo e organização é que, vários anos depois, rendeu frutos para os atletas de seu país. Na organização da Eslovênia desde os primeiros anos, a procura de preparar a nova geração, em invés de perpetuar o status quo dos atletas estabelecidos, é que reside o “segredo”.

Não há nas cidades eslovenas, grandes e nababescos ginásios de escalada. Dos ginásios que existem, todos os estabelecimentos fazem contribuem com a federação do país. Além disso, os escaladores e técnicos do país acreditam no ditado de que “menos é mais”. Deta maneira, a cultura do esporte no país acredita que o importante na preparação de atletas são os treinamentos, não necessariamente as estruturas. Os ginásios do país se dedicam, a partir de um planejamento centralizado, oferecer atenção especial de treinamentos a atletas de 10 a 17 anos de idade. Grande parte das mulheres do país possui personal trainer (diplomados e especializados) e todas, ao serem entrevistadas por veículos especializados, afirmam que possuem ambição de tornarem-se campeãs mundiais na sua categoria de preferência.

Com profissionais atualizados e reconhecidos por instituições, todos são liderados por Roman Krajnik. Não há, na preparação de atletas da Eslovênia, títulos figurativos nem genéricos, o que existe são profissionais que sabem o seu papel e levam a sério sua atuação. O próprio Roman Krajnik é chamado constantemente para palestrar em federações de escalada da Europa para falar mais sobre planificação de treinamentos em encontros de escalada. Não há ali o interesse pessoal de algum atleta, por maior seja o destaque deste em relação aos demais, passando por cima do coletivo. Questões éticas de administração de campeonatos, são tratadas de maneira transparente a todos os interessados.

Além disso, o orçamento da seleção eslovena é relativamente modesto, ainda mais se comparado com o de outros países do continente europeu. Mas um outro fator, que faz toda a diferença, é a prudência e responsabilidade com o que usam estes recursos. Não há, por exemplo, nos campeonatos eslovenos gastos extravagantes, como transmissão de streaming.

Portanto, ao se olhar o desempenho de atletas na Copa do Mundo de Escalada em 2018, fica evidente que o segredo é planejamento e administração a médio prazo. Da mesma maneira que os Eslovenos, os nossos vizinhos argentinos e os nossos conterrâneos chilenos e equatorianos, também vislumbraram a importância de cultivar a nova geração. Nestes países sul-americanos, foram implementadas iniciativas de desenvolvimento de jovens atletas. Assim foram descobertas as atletas Valentina Aguado (17 anos) e Alejandra Contreras (17 anos), provando que acreditar que somente estrutura faz um atleta aparecer é o mesmo que acreditar que apenas construindo escolas significa o mesmo que investir em educação.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

Comente agora direto conosco

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.