Uma aventura de escalada alpina – Conheça os Góticos e Adamantes

Como tido aqui na Revista Blog de Escalada, no artigo escrito por Marcos Ramos, o estilo alpino se refere a forma como você pretende chegar ao cume da montanha. Neste estilo, você carrega tudo que precisa, sem uso de cordas fixas, da base até o topo sem ajuda. Em outras palavras, o estilo alpino é uma das formas mais puras de escalada, onde não existe proteção fixa (talvez um ou dois pítons) e o alpinista chega até o cume carregando a sua própria proteção.

Em muitas rotas, as informações são limitadas a apenas um pequeno texto que sugerem o tipo de proteção necessária e também a direção do rapel para descer, porém, muitas vezes essas são meras sugestões e cabe ao alpinista fazer as decisões cabíveis as circunstâncias encontradas, que geralmente são ditadas por diversos fatores externos. Esse tipo de escalada é perigosa, geralmente isolada e de difícil acesso – e foi exatamente esses dois últimos dois fatores que me levaram até a região dos Góticos e Adamantes, na Colúmbia Britânica, no Canadá.

Os Góticos e Adamantes é uma região de picos que variam entre 2000-3500 metros na Colúmbia Britânica, entre as cidades de Golden e Revelstoke. Essa região é muito popular no inverno para ski, porém, devido ao difícil acesso, a região é raramente visitada no verão. A pedra é excelente, e as rotas são extremamente limpas e diretas, um paraíso para aqueles que buscam este tipo de escalada.

Góticos e Adamantes

Em Agosto deste ano tive a oportunidade de passar 7 dias escalando nessa região, o acesso foi feito por helicóptero diretamente para a base de acesso para a Gothics Glacier, onde o acesso para centenas de rotas alpina é feito pelo Friendship Col, uma rampa de neve e gelo de aproximadamente 50 graus. Em geral, as rotas variam entre 5.0 até 5.13, ou seja, as possibilidades são infinitas para todos os níveis de dificuldade..

O base camp administrado pelo Clube de Alpinismo de Canadense providenciou cabanas para cozinhar e armazenar equipamento, e também para refúgio em caso de tempestades. Para quem nunca teve a oportunidade de viver em um base camp, a rotina é basicamente a mesma todos os dias: 4 da manhã o café é feito e 5 da manhã é a hora de subir o morro, literalmente. Tive a oportunidade de escalar 5 rotas alpinas, com 4 cumes alcançados.

Góticos e Adamantes

No primeiro dia, tive a oportunidade de escalar o Toadstool, um pequeno pico de 2820m, a rota de escalada foi a East Face (II, 5.0). Essa rota é particularmente interessante pois metade da escalada é feita literalmente dentro da montanha, entre uma série de túneis estreitos com gelo que nunca derretem. Vale lembrar que o nível de dificuldade na modalidade alpina não pode ser comparado com a escalada esportiva, e essa rota me fez lembrar algumas rotas 5.8 que escalei em Banff.

No segundo dia, acordamos cedo novamente em direção ao Monte Phytias (2724m) e o Monte Sentinel (2992m). As rotas para esses dois picos requerem uma travessia completa da Gothics Glacier, já que eles são literalmente em lados opostos. As duas rotas não envolvem escalada em pedra, mas sim paredes de neve e gelo de até 60 graus. A vista dos dois cumes são espetaculares, e as altas temperaturas (25C) fizeram o dia ser difícil, desidratação e as crevasses na geleira foram os nossos maiores obstáculos.

Um dos picos mais famosos dessa região é o Monte Quadrant (2727m), que têm aproximadamente 15 rotas que levam diretamente para o cume sul e norte. Esse pico tem uma qualidade de pedra excelente, e tivemos a oportunidade de escalar o Southwest Ridge (II, 5.3). Essa rota é altamente recomendada, o que a faz uma rota clássica na região. O único problema é a duração, essa rota poderia ser facilmente três vezes maior de tão divertida que é. Chegamos ao cume com muito tempo de sobra, e o que nos restou foi tirar uma soneca e aproveitar as vistas.

Uma das melhores partes de uma expedição alpina é a habilidade de tirar dias de descanso quando tempo não está bom, e a região dos Góticos e Adamantes é famosa por suas tempestades irregulares e fortes. Porém, em 7 dias, não tivemos um pigo de chuva até o último dia. Então, fui forçado a tirar meu dia de folga em pleno sol de 25C.

Depois de um dia de descanso, tentamos escalar outra rota clássica, o Northwest Ridge (III, 5.5) no East Peak of the Gothics (3231m). Essa rota é particularmente difícil pois o acesso até a pedra requerem uma navegação perigosa e complexa entre crevasses e pontes de gelo que podem partir a qualquer minuto. A tentativa de cume foi abortada devido as condições que eu estava me sentindo, não estava 100%, e entre os membros do meu time, decidimos abortar a tentativa de cume quando encontramos uma crevasse do tamanho de um ônibus, literalmente.

No último dia, decidimos explorar algumas cracks perto do acampamento, e encontramos duas rotas que ainda não tinham sido escaladas. Essas duas rotas estavam na base da geleira, e eram duas cracks de dedo, facilmente 5.9 e 5.11a.

A última noite foi comemorada em ritmo de festa, com refeições fartas e muita organização para o voo de helicóptero no próximo dia. A organização em uma expedição é primordial para o sucesso da viagem, todos os membros tem uma responsabilidade, e o transporte do equipamento e time no helicóptero é ensaiado e é rápido, sem espaço para erro.

A expedição para os Góticos e Adamantes foi a minha primeira expedição alpina de longa duração, e além das rotas escaladas, tive a oportunidade de escalar com um time de alpinistas extremamente qualificados que me providenciaram um grande aprendizado que vou levar para o resto da minha carreira de alpinista.

Como sempre, se você quiser alguma dica de escalada nas Montanhas Rochosas Canadenses entre em contato comigo. Até a próxima e obrigado!

 

Sobre o Autor

Felipe Civita

Felipe Civita

Formado em Comércio Exterior, Felipe foi nascido e criado em São Paulo. Se mudou para o Canadá em 2010, onde é um membro ativo do Clube de Alpinismo Canadense e praticamente de escalada no gelo, pedra, alpino, e ciclo-turismo.

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