Conheça as cinco invenções que revolucionaram a prática da escalada

Embora muitas pessoas tentem impedir, o mundo está em constante evolução e aperfeiçoamento. Indiscutivelmente os últimos 50 anos tivemos uma revolução de conceitos de equipamentos que foram criados, e posteriormente aposentados. Os LP´s foram substituídos por CD´s, e posteriormente por arquivos MP3´s e, agora, por assinatura de serviços de streaming. As revistas impressas por sites e blogs, que são atualizados com velocidade, além de falar a linguagem adequada ao público alvo.

Esta mesma revolução também impactou o universo outdoor, que com a criação e desenvolvimento de equipamentos reescreveu a maneira que as pessoas passaram a praticar seu esporte favorito. Materiais, equipamentos, roupas e até mesmo filosofias foram criadas, e absorvidas, pela comunidade de praticantes de esportes outdoor. Abaixo estão listados as cinco invenções que revolucionaram a escalada, e fez com que o esporte evoluísse.

Cordas de Nylon com capa e alma

Cair faz parte da escalada, e mesmo que muitos não admitam, é algo comum e banal. Porém houve uma época em que as cordas utilizadas eram feitas de sisal ou cânhamo. cordas-de-escalada-1

As cordas feitas destes materiais eram pesadas e não absorviam o impacto de uma eventual queda. Desde o século XVII, até a década de 1940, os escaladores e alpinistas utilizavam corda de cânhamo ou seda. Eram um conjunto de fios trançados que não possuíam muita maleabilidade.

Estas cordas eram relativamente fracas, podiam ser cortadas facilmente e não eram dinâmicas. Logo após a Segunda Guerra Mundial (conflito militar global que durou de 1939 a 1945) houve o desenvolvimento de produtos químicos e sintéticos que revolucionou o mercado industrial.

Assim o Nylon e Perlon tornaram-se opções para substituir o cânhamo e sisal, apesar do conceito de tranças ainda serem aplicadas às cordas. A natural evolução aconteceu quando o conceito de kernmantle (termo alemão de design para capa e core), quando em 1954 a Edelrid a corda causou furor no mercado. A empresa alemã lançou posteriormente na década de 1960 cordas dinâmicas.

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A partir da década de 1970 a corda dinâmica era item obrigatório da escalada livre (conceito de escalada com o uso somente das mãos e pés).

Com o tempo, e aperfeiçoamento de materiais, as cordas de escalada foram ficando cada vez mais finas chegando nos diâmetros que conhecemos hoje.

A piqueta

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Um dos maiores símbolos do alpinismo, a piqueta foi uma das maiores revoluções em termos de equipamentos de escalada. Até a metade do século XX, a escalada em gelo era muito trabalhosa. Era exigido do escalador utilizar uma pequena machadinha que anatomicamente não era fácil de ser manipulada. Por conta da falta de praticidade a escalada em gelo em lugares com graduação maior que WI-2 (graduação de escalada em gelo) estava fora da realidade pela técnica utilizada à época.

Na década de 1960 o americano Yvon Chouinard (sim, o proprietário da marca Patagonia) e o escocês Hamish MacInnes começaram a experimentar, independentemente um do outro, machadinhas de gelo mais curtas e mais fáceis de manusear em uma escalada.

O Scottish Terrordactyl

O Scottish Terrordactyl

À época somente encurtando a machadinha em 55 cm já era considerado uma grande evolução.

A piqueta de choinard em 1980

A piqueta de choinard em 1980

Porém a grande revolução ficou por conta dos novos ângulos que experimentaram, sendo que o modelo de MacInnes apontava para baixo, e de Chouinard era curvado para baixo. Ambas as ferramentas permitiu um agarre maior na escalada em gelo pois permitia um movimento natural do escalador.

Com cada destas em cada mão permitiu que a escalada em gelo evoluísse de maneira impressionante. Mais do que qualquer invenção a piqueta curva, sem sombra de dúvida, permitiu não apenas novas técnicas, mas também um novo esporte que permitiu que os graus de escalada fossem empurrados de WI -6 para cima.

Solado de Borracha

Primeiros Modelos de Botas com Solado Vibram | http://cmags.org/

Primeiros Modelos de Botas com Solado Vibram | http://cmags.org/

No Vale Bregaglia, na Suíça, no ano de 1935 dezenove alpinistas tentaram escalar a Punta Rasica (montanha que fica na divisa da Suíça com Itália de 3.305 m) e uma tempestade acompanhada de intenso frio atinge as enfiadas dos que estão estão na parede escalando.

Os escaladores somente levaram sapatos de cânhamo. Escorregavam e não podiam nem subir, ou descer ficando assim encalhados. Após algumas horas com este tempo terrível seis destes morreram de hipotermia.

Vitale Bramani fazia parte da cordada e se salvou por um milagre. O absurdo destes falecimentos levou Bramani a pesquisar sobre as causas e sobretudo das soluções.

Seus estudos se basearam na tecnologia de pneus de automóveis : Se os pneus dos automóveis dispõe de aderência em condições adversas, porque não levar esta tecnologia aos calçados?

Para o desenvolvimento de sua ideia, se fez acompanhar de Leopoldo Pirelli (proprietário da empresa que já na época fabricava os pneus que hoje conhecemos). Utilizando a técnica da vulcanização (processo de tratamento da borracha inventado por Charles Goodyear), Bradami e Pirelli produziram as primeiras sapatilhas com sola Vibram.

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Entretanto em pouco tempo Bramani começou a aperfeiçoar a sola, e assim começou a escalar as paredes mais importantes dos Alpes: Pizzo Badile em 1937, a primeira ascensão da face noroeste desta montanha (acompanhado de Ettore Castiglioni) usando obviamente o solado Vibram.

Poucos dias depois desta ascensão o alpinista registrou a marca do solado como Vibram, nome composto com suas iniciais ( VItale BRAMani).

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Um outro momento revolucionário foi em 1980, quando a empresa espanhola Boreal focou em desenvolver um solado que grudasse bastante e desenvolveu o modelo Fire, que se popularizou nos EUA, pela sua aderência.

Desde então as borrachas ficaram mais rígidas e modelos como o Stealth da Five Ten revolucionaram o mercado. Para se ter uma ideia, o modelo Stealth de borracha foi utilizado em pneus de carros de corrida.

Friends e Camalots – Spring-loaded Camming Device (SLCD)

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No verão de 1972, dois escaladores americanos, Ray Jardine e Mark Vallance, começaram uma amizade que mais tarde se tornaria em um negócio que revolucionaria o mundo da escalada.

Ray Jardine tinha estudado Engenharia Astronômica e estava entrando nos oitavos graus (5.12 na graduação americana), em Yosemite, quando vislumbrou a necessidade de uma nova forma de proteção de escalada. Seu primeiro protótipo foi desenvolvido em 1971, e utilizada duas cunhas de construção civil lisas e deslizantes.

Depois de meses de protótipos, testes, e remodelagem, a ideia de um conjunto de castanhas duplas, porém opostas, acionados por molas foi desenvolvido. Os primeiros modelos não tinham gatilhos, e era preciso que ambas as mãos para tirá-las da rocha.

O primeiro a utilizar curvas logarítmicas foi o russo Vitaly Abalakov, também escalador, que já tinha implementado em alguns de seus equipamentos de escalada.

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A espiral logarítmica ajuda a encontrar o ângulo ideal que as castanhas do Camalot ao entrar em contato com a rocha. Inicialmente usando ângulo de 15º, o ângulo foi posteriormente modificado para 13,15º e permanece neste padrão até os dias de hoje.

O design dos Cams, como são popularmente conhecidos, evolucionou em diferentes tipos e funcionalidades desde quando Mark Vallance criou a inovação em 1975. Logo após ter mostrado a Vallence os “Cams”, a dupla começou a produção do equipamento para os escaladores dos EUA e posteriormente para o resto do mundo.

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Assim que encontraram um fabricante que conheceram, começaram a produzir os Friends (como eles mesmo batizaram) a partir de 1977 na Inglaterra, no município de Derbyshire. A empresa Wild Country foi fundada por Vallence no ano seguinte.

Os Friends comercializados pela Wild Country permitiram que escaladores de todo o mundo chegassem aos 9º e 10º brasileiros (5.13 e superiores na graduação americana) .

Proteções Fixas

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Desde 0 início da história da escalada, as vias foram em grande parte escolhidas pela presença de fissuras naturais ou lugares que eram possíveis colocar pitons, entaladores, excêntricos ou, posteriormente, camalots.

Se um escalador quisesse aventurar-se em rochas mais “limpas” (sem rachaduras) e refinar seu trabalho de pés era preciso fazer em top rope ou em estilo solo. Remotamente havia a possibilidade de colocar um grampo ou bolt, uma opção que já tinha sido tentada em 1939 pelo escalador David Brower na ascensão ao Ship rock, e dizia abertamente que tinha deixado “cicatrizes” na rocha.

Mas durante muito tempo o uso de parabolts para a escalada era encarado como o último recurso possível para escaladores.

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Provavelmente nenhuma outra peça de equipamento de escalada tenha causado tanta controvérsia como os bolts, e até hoje desperta discussões acaloradas na internet.

O caso mais icônico foi em 1970, quando Cesare Maestri arrastou um compressor movido a gás até a face do Cerro Torre, na Patagônia, e perfurou centenas de parafusos em pedra virgem.

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Houve muita controvérsia, e posteriormente dois escaladores americanos passaram por cima da ética local e tiraram todos os grampos da via, sendo considerados personas non gratas até hoje em toda a Argentina.

Com a evolução das furadeiras de impacto portáteis, na década de 1980, a escalada esportiva explodiu pelo planeta e houve uma avalanche de vias conquistadas.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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