O poder da observação inteligente: Conceitos fundamentais de concentração na escalada

Na escalada uma mente “focada” se une à rocha como um quinto membro do corpo. Quando uma mente está desfocada, pesa como uma mochila cheia de pedras. A concentração melhora o rendimento e exige um desenvolvimento da capacidade de criar e manter um estado mental centrado, apesar das distrações ou adversidade que se enfrenta. Não importa se a sua preferência na escalada (seja ela boulder, esportiva ou tradicional), melhorar habilidades cognitivas conduzirá gradualmente uma experimentação de um estado mental de lucidez.

O contrário da concentração é a distração. Existem infinitas possibilidades de distrações, tanto internas como externas, que podem quebrar a concentração no momento de escalar. Exemplos como a atividade que existe no entorno, ou mesmo a comprovação que seu segurador está distraído. A própria luta pessoal contra os medos internos, ou refletir sobre o resultado de uma via, pode acabar com a concentração e diminuir o rendimento. Aprender a bloquear as distrações, portanto, é fundamental para melhorar a concentração.

Foto: http://alexchapmanclimbing.com/

Alguns conselhos que podem ser importantes para melhorar a concentração é: manter os olhos no objetivo relevante durante a progressão da escalada. Parece um conselho bobo, mas é o que todos os grandes escaladores fazem.

Se a concentração é reduzida, ou mesmo desaparece em um dado momento, depende muito de que seus olhos não estejam apontando onde não devem. Daí que vem a palavra “focar”. É levar seus olhos a outra parte que não seja a meio metro quadrado de escalada. Assim, imediatamente são geradas preocupações que baixam o rendimento de sua própria escalada. Olhar continuamente para o chão, ou mesmo para as proteções que ainda não alcança, compromete seu consciente para novas tarefas.

Nos crux das vias de escalada, deixe que sua visão esteja somente nas agarras de mãos e pés mais próximos e nos movimentos mais próximos. Isso permitirá que seu cérebro se coordene em algo como 100% em ir progredindo e evitará uma queda antes do tempo. Este tipo de comportamento algumas pessoas chamam de “sagacidade”, mas na verdade é apenas a concentração no que está fazendo, não no que pode acontecer.

Os melhores escaladores evitam este tipo de cascata de emoções e distrações, bloqueando a visão em objetivos relevantes na sua escalada e permite que seus olhos se desviem somente quando estão em uma boa posição, ou mesmo descansando em uma agarra boa. Conhecendo esta habilidade, é obtido uma poderosa visão de como reunir e manter o foco ao escalar. Deixando seus olhos somente em objetos que são relevantes no momento. Portanto, de fato, seus olhos devem estar apontados somente às agarras ao seu alcance, no equipamento que irá utilizar (se estiver equipando) e na rocha e seu entorno.

Por este motivo simples que é fundamental que todos colaborem no ambiente em não fazer ruídos em excesso. Mesmo a música ao lado, sem que ninguém tenha reclamado (apesar dos olhares torcidos de quem estiver escutando), pode quebrar a concentração de algum escalador.

Foto: https://snowdoniamountainguides.com

Um objetivo importante é que olhe atentamente a agarra que vá segurar ou pisar, para que seja de maneira harmônica, rápida e suave. A falta de foco, assim como deficiência técnica gritante, são escaladores (as) que abusam de dinâmicos, saltos e botes. Estes tipos de movimentos não são de alguém que possui foco, mas de um escalador que não sabe escalar e confunde força bruta com técnica. Observar bastante em posições perigosas ou movimentos difíceis, não é uma meditação, pois na escalada não há tempo infinito para ficar olhando.

Um bom treinamento eficaz para observar o entorno e encontrar o que necessita para pisar bem, é fundamental para o desenvolvimento desta qualidade que é o foco. Isso porque muitos praticantes se desconcentram de maneira muito fácil, pois acabam vendo mais do que o necessário. Pessoas que apalpam demais uma agarra, ou ficam pisando repetidamente cada agarra, ou mesmo fazendo o movimento repetido com os pés, denotam que perderam o foco. Observar uma agarra perfeita a dois metros de distância, não serve para nada. Apenas cria uma ansiedade desnecessária de que não foi, nem será.

Olhar somente o que existe ao seu alcance, é parte de focar um objetivo. Isso é parte de manter a concentração. Exatamente por isso que escaladores mais silenciosos nas bases das vias, que não contam bravatas nem gritam em excesso, estão em meio caminho de possuírem bom foco. A escalada deve ser encarada como um jogo de xadrez: concentração máxima e silêncio total no entorno.

Mas não é suficiente conseguir saber que agarra necessita, faz parte do aprendizado observá-la bem. Isso para saber qual parte dela é melhor para pisar ou segurar. Em escaladores experientes este tipo de movimentação e raciocínio é automático. Mas em escaladores iniciantes, ou mesmo de nível intermediário, é comum partir loucamente em direção a uma agarra boa assim que a vê, sem perceberem de onde realmente deveria pisar ou segurar da melhor maneira. Dentro de um esquema de treinamento de visualização, o segredo está em observar as agarras e decidir que tipo de movimento fazer, em função do que foi visto. Saber colocar a ponta da sapatilha, em vez de todo o solado, segurar em um lugar que caiba as duas mãos, etc.

A rapidez de observação e capacidade de encontrar agarras nas proximidades é fundamental e depende diretamente da sensibilidade de observação. Mas para adquirir esta habilidade é necessário gastar um certo tempo observando e, claro, saber usá-la da maneira apropriada. O nome desta habilidade dá-se o nome de repertório de movimentos. Exatamente por isso que, pessoas que somente escalam em um único lugar e sempre as mesmas vias, possuem baixa capacidade de focar, além de paupérrimo repertório de movimentos.

Treinar onde olhar, a velocidade de observação e maneira de fazer isso, melhoraram a concentração e a capacidade de escalar.

Tradução autorizada: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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