Competições de vias guiadas: Como funciona o sistema pontuação do IFSC

A escalada de competição está a pouco mais de dois anos de sua estreia como esporte olímpico na cidade de Tóquio em 2020. A competição de escalada contará com 40 atletas (20 mulheres e 20 homens) disputando um formato nunca utilizado desde então: vias guiadas + boulder + velocidade. O formato foi muito criticado por atletas e veículos especializados.

A pontuação das competições de boulder já foram abordadas em um artigo.

Escalada IFSC

Foto: Eddie Fowke/IFSC

Se você nunca ouviu falar de escalada, aqui vai uma explicação simplista: o International Federation of Sport Climbing (IFSC) está para a escalada como a Fédération Internationale de Football Association (FIFA) está para o futebol. É ela que determina o sistema de pontuação de campeonatos e os parâmetros, como altura de uma parede, espessura dos colchões e regulamentos, para as competições internacionais de escalada.

O primeiro assunto a entender é que alguns termos possuem mais de um tipo de tradução. Estas múltiplas interpretações de um mesmo termo, geralmente disponibilizado em inglês, causam um pouco de confusão na cabeça do público leigo. A competição com escaladores guiando vias de escalada é chamada em inglês de lead. A partir disso houve três traduções para o português: escalada guiada, vias guiadas e dificuldade. Os três termos servem para a mesma coisa. Portanto, neste artigo o termo utilizado será o mais próximo da expressão original em inglês: vias guiadas.

Mas como funciona o sistema de pontuação de competições de vias guiadas (em inglês lead) do IFSC?

Sistema de classificação

Escalada IFSC

Foto: Gaetan Haubeard | https://theworldgames2017.com/

As competições de escalada na modalidade de vias guiadas são disputadas em paredes de escalada com um mínimo de 12 metros de altura com um máximo de 6 minutos para terminar. A cada distância (estabelecida pelos route setters) as proteções são colocadas. Cada competidor deve usar uma corda, a qual é atada à cadeirinha nas duas alças com o nó oito (obrigatoriamente).

Para cada proteção o escalador deve respeitar o seguinte procedimento:

  • Obrigatoriamente passar a corda por cada mosquetão das costuras
  • Não fazer z-clip
  • Não “desescalar”
  • Não segurar na costura para evitar uma queda
  • Não costurar com os dois pés no chão

Caso um atleta infrinja algumas destas regras, estará eliminado imediatamente, sem direito de apelação. Há ainda outras regras de conduta que um escalador deve seguir, mas como o foco deste artigo é sobre pontuação (não necessariamente sobre todas as regras), não iremos entrar em detalhes.

Neste tipo de competição é feito em três fases: classificatória, semifinais e finais.

  • Classificatória: Não possui um número limitante de participantes. O IFSC apenas exige que as pessoas sejam representantes reconhecidos por suas federações para competir. A entidade não exige uma determinada maneira, como uma competição, para que estes representantes sejam escolhidos. Há vários casos de países, como o Brasil, que não possuíam uma competição nacional organizada e que os atletas iam competir de acordo com sua situação financeira. Cada escalador deve escalar duas vias não idênticas.
  • Semifinal: Para a semifinal são classificados os 26 melhores atletas de toda a fase classificatória. Cada escalador deve escalar somente uma via.
  • Final: Para a final são classificados os 8 melhores atletas de toda a fase semifinal. Cada escalador deve escalar somente uma via.

A pontuação

Escalada IFSC

Eddie Fowke/IFSC

A pontuação, felizmente, é muito mais simples que a de boulder, Esta facilidade é explicada por um pequeno detalhe: a obrigatoriedade da progressão. Cada agarra utilizada, é adicionado um ponto ao escalador.

Desta maneira a pontuação não é feita em metros, mas pela agarra utilizada. Cada agarra, desde o chão ao topo, recebe uma numeração progressiva desde a primeira até a última. A agarra é, portanto, o parâmetro de até onde o escalador chegou.

Entretanto, para medir a progressão de um escalador há um conceito que deve ser bem explicado: agarras controladas (controlled hold) e agarras usadas (used hold).

  • Agarra Controlada (controlled hold): É a agarra que o escalador utilizou para posicionar-se, ou mesmo descansar. No caso de uma queda nesta agarra, como foi controlada, é seu número que irá contar como sua pontuação.
  • Agarra usada (used hold): É a agarra que o escalador a estava usando para um movimento de progressão, não somente parado. Esta é uma agarra que estava sendo usada para um movimento para uma próxima agarra. No caso de uma queda, a pontuação é o numero da agarra seguida do símbolo “+”.

Para julgar que tipo de utilização da agarra o escalador fez, os juízes observam o escalador com um binóculo a todo tempo. Cada movimento deve ser” estático” ou um”dinâmico”. Não são permitidos saltos. Em caso de alguma discordância, o atleta pode pedir revisão de seu resultado em vídeo.

O IFSC não leva em consideração uma manobra que ficou conhecida como de um atleta de poucos recursos: um salto para a próxima agarra somente para tocá-la. Este tipo de manobra não é considerada e a agarra utilizada para o salto é considerada apenas “controlada” (sem o direito de ganhar um “+”).

Exemplos

Escalada IFSC

Tomemos o resultado de três atletas fictícios:

  • Agustina: escaladora obteve pontuação 23
  • Guilhermina: escaladora obteve pontuação 23+
  • Maria: escaladora obteve pontuação 24
  • Charlotte: Chegou ao topo (top)

Neste caso a escaladora Charlotte foi a vencedora, pois a pontuação mais alta de uma competição de via guiada, é a chega ao topo. No placar do IFSC é mostrado o valor “TOP”. Caso haja um empate, entre dois atletas, o tempo dos dois é computado e o mais rápido é o vencedor. Caso persista o empate, os resultados da semifinal são analisados. A análise regressiva vai sendo realizada até que o empate seja desfeito.

No exemplo, caso fosse uma competição, a classificação final ficaria com Charlotte em 1º (TOP), Maria em 2º (24) e Guilhermina em 3º (23+). Na figura acima, extraída da última Copa do Mundo de Escalada em vias guiadas, é possível entender melhor a colocação e a pontuação atribuída.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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