Como escolher uma sapatilha de escalada – O guia definitivo

Poucos assuntos são tão sensíveis no universo outdoor quanto a escolha de uma sapatilha de escalada. Definir um guia para ajudar a qualquer pessoa a escolher uma sapatilha de escalada esbarra em muitos paradigmas do praticante de esporte: preferências de marca, estilos, ajustes, conforto, rocha e, além de tudo isso, os pitacos de amigos e xerifões do assunto (que na verdade não sabem nada, mas têm certeza de tudo).

Desta maneira o que foi seguido para a elaboração deste guia, que funcionasse de maneira completa e pudesse ser definitivo sobre o assunto, foi partir do princípio da necessidade de instruções e explicações para um principiante de escalada. Por isso, se você está lendo isso e já se considera Expert no assunto, parabéns. Por isso vale um aviso: este artigo foi escrito para quem necessita de explicações básicas, com embasamento científico (portanto não serão usados argumentos empíricos baseado apenas em experiências pessoais) para auxiliar a toda e qualquer pessoa que queira escolher uma sapatilha de escalada.

Uma boa sapatilha de escalada ajuda a qualquer escalador a conseguir encadenar seu projeto de maneira mais, ou menos, eficiente. O trabalho de pés, assim como o repertório de movimento é fundamental para qualquer pessoa encadenar uma via de escalada, não importa o grau.

Portanto, antes de procurar o melhor modelo de sapatilha de escalada (que geralmente e o mais caro), busque aprimorar sua técnica de escalada. Isso porque, utilizando uma metáfora bem marcante, um excelente automóvel nas mãos de um péssimo motorista é um desperdício de dinheiro e de recursos. Portanto o principal segredo de um escalador é procurar escalar bem, não necessariamente o modelo de sapatilha que usa.

Marcas

Primeiramente, no momento de escolher uma sapatilha de escalada, preocupe-se em focar em encontrar o modelo mais adequado a você. Esqueça sugestões de quem quer que seja, e esteja sempre preocupado em encontrar aquela que se ajusta aos seus objetivos e nível de escalada.

Na Revista Blog de Escalada há um artigo exclusivo sobre quais são as marcas de sapatilhas existentes no mundo. Por isso não fique apegado a marca X ou Y, preocupe-se em fazer uma boa compra.

Há claro, marcas consagradas no mercado e que muitos escaladores a recomendarão. Portanto verifique quais são as marcas que estão mais presentes em lojas físicas e on-line. São estas marcas que possuem uma demanda maior e, por isso, merecem atenção sua no momento da procura.

Morfologia dos pés

Da mesma maneira que para escolher tênis de corrida é necessário entender que tipo de pisada possui, assim como o formato da planta dos pés, a mesma ciência se aplica no momento de escolher sua sapatilha de escalada. Seu amigo, ou técnico, podem ter indicado um modelo e marca apropriados para um tipo de pé diferente do seu. Por isso mesmo que a pessoa tenha feito uma viagem por algum lugar e experimentado todos os modelos de sapatilhas de escalada que encontrou e formulou alguma teoria própria, ela se aplica aos pés dele, não aos seus. Por isso preste atenção aos seus pés antes.

Como uma sapatilha de escalada irá dar uma “apertadinha” nos seus dedos, para que fiquem juntos e lhe ofereça mais precisão, procure saber qual a forma deles. No universo de design de calçados são conhecidos três tipos de formas: egípcio , romano, grego e polinésio. Observando a figura abaixo do alinhamento dos seus pés procure saber então que, a partir da morfologia, é necessário procurar qual calçado se adapta melhor a eles. Mesmo que tenha lido em algum lugar, ou algum “xerifão” da sua bolha social tenha dito regra diferente, são os calçados que têm de adaptar-se aos seus pés, não o contrário.

O mais importante em uma sapatilha de escalada é que não tenham nenhum espaço vazio na ponta. O motivo é simples: quanto mais seu pé deslizar (por conta dos espaços vazios) menor será a precisão ao escalar. Com os pés escorregando ficará sempre tendo uma sensação de desconforto enorme e uma instabilidade física que jogará seu rendimento no lixo. Por isso cada fabricante desenvolve seus modelos de acordo com o tipo de escalada que irá utilizar.

A partir deste raciocínio, de que cada estilo de escalada um modelo adequado, é que foram desenvolvidos modelos mais pontudos (tecnicamente conhecido como “ponta agressiva”), mais curvados, simétricos e assim por diante. Por isso é fundamental entender a morfologia dos seus pés, pois é exatamente baseado nela que os designers desenvolvem os produtos. Quando teimamos fazer com que nossos pés se adaptem a sapatos não indicados ao formato de nossos pés, a dor é imensa e a frustração exponencialmente maior.

O dedo que menos exerce pressão é o menor (conhecido como o dedinho do pé), por isso a sapatilha de escalada deve ser escolhida pensando na pressão entre os dedos maiores que este. Desta maneira, utilizando como exemplo modelos da marca 5.10 (porém a regra vale para todos os outros fabricantes):

  • Melhores modelos para “pés gregos”

A principal característica dos pés gregos é ter o segundo dedo maior que o dedão (que por sua vez é do mesmo tamanho do terceiro). Para este tipo de morfologia é recomendavel buscar sapatos que facilitem a distribuição das cargas sobre a parte dianteira dos pés.

A explicação científica é relativamente simples: a forma do pé é parecida com um triângulo e, desta maneira, é mais fácil buscar que o ponto de pressão esteja no centro deste triangulo. Por isso pessoas com pés assim têm maior facilidade de utilizar sapatilhas com ponta mais agressiva.

O modelo novo da Anasazi possui uma ponta muito saliente, por isso seria mais adequada a quem tem pés gregos. Isso porque a forma triangular dos dedos facilitariam mais o encaixe se comparada a outra morfologia de pé.

  • Melhores modelos para “pés romanos”

A morfologia dos pés romanos favorecem o uso de quase todos os tipos de sapatilha. Desta maneira é preferível que seja escolhido uma sapatilha que os pés não sejam apertados em demasia.

  • Melhores modelos para “pés egípcios”

Nesta morfologia de pé o dedão é muito maior que os outros dedos, que vão diminuindo de tamanho de forma decrescente. Assim como o pé grego, a pressão de uma sapatilha de escalada fica menos intensa no dedinho do pé. Por isso é importante que seja procurado algum modelo que facilite a distribuição das cargas na parte dianteira do pé.

O modelo clássico da Anasazi, por sua vez é mais indicada a pés com morfologia egípcia. Porque a ponta não é tão proeminente quanto o modelo novo e, desta maneira, seria mais confortável.

  • Melhores modelos para “pés quadrados”

A morfologia de “pés quadrados” é conhecida quando quase todos os dedos possuem o mesmo tamanho, ficando alinhados. Nesta forma todos os dedos, incluindo o menor, sofrerá pressão no momento de usar uma sapatilha de escalada com bico muito fino.

Já o modelo Coyote, por possuir uma ponteira mais arredondada é o modelo mais indicado para quem possui pés polinésios, pois a pressão dos dedos seria menor que uma ponta acentuada.

Tipo de amarração

Dependendo da modalidade de escalada que for escolhida o tipo de amarração é fundamental para a melhor escolha. Atualmente os maiores fabricantes possuem vários modelos de amarração para cada tipo de formato de sapatilha de escalada.

Como a imaginação dos designers é infinita, pode ser que no futuro haja algum tipo de amarração de sapatilha de escalada que fuja das três existentes: velcro, sliper e cadarço.

Neste caso tanto faz que tipo de amarração a sapatilha possui pois depende muito mais da personalidade do escalador e menos do estilo de vias ou morfologia dos pés. Discutir que tipo de amarração é melhor que a outra tem a mesma importância de saber se é certo ou errado entrar com o pé direito em casa.

  • Cadarço

Sapatilhas de escalada com cadarço são mais indicadas para quem possui pés estreitos ou com sudorese excessiva. Para quem prefere escalar com meias, sobretudo de algodão, é o tipo de amarração mais indicada.

  • Vantagens: Permite maior ajuste da sapatilha nos pés
  • Desvantagens: Demanda tempo no ritual de pôr e tirar a sapatilha de escalada
  • Velcro

Sapatilhas com velcro dependem muito da qualidade do velcro utilizado, assim como o material das tiras, de cada fabricante. Sapatilhas com velcro tendem a não ficarem tão ajustadas quando as de cadarço, não distribuindo uniformemente a pressão do ajuste nos pés.

Quem utiliza sapatilhas de escalada com numeração muito inferior aos pés tendem a adotar o modelo velcro.

  • Vantagens: Menor tempo no ritual de pôr e tirar a sapatilha de escalada
  • Desvantagens: O velcro perde capacidade de “agarre” com o uso intensivo em modelos de marcas mais baratas. As fitas de velcro, quando não são de couro, tendem a romper
  • Sliper

As sapatilhas sliper é o modelo menos indicado para quem gosta de utilizar meias. Como não possuem ajustes, tendem a ficar “dançando” no pé para quem possui alto índice de sudorese.

É o modelo preferido de boulderistas por ser muito rápida de calçar.

  • Vantangens: O modelo permite tempo rapidíssimo no ritual de pôr e tirar a sapatilha de escalada
  • Desvantagens: Sapatilhas sliper possuem fama, apesar de ser injusta, de “dançarem” nos pés. Quem aprecia sapatilhas ajustadas, não gosta deste tipo de modelo.

Material de revestimento

Assim como um tênis de qualidade, é necessário preocupar-se com o material de revestimento de sua sapatilha de escalada. Pela gama de materiais empregados na indústria de calçados, vários são utilizados nos de escalada. Sobretudo os sintéticos. Quanto mais se desenvolver a indústria do calçado esportivo, maior será o catálogo de opções.

Por isso é necessário estar atento aos tipos básicos de revestimento de sapatilhas de escalada:

  • Couro (sintético ou natural): Possui boa respirabilidade, porém cria odor ruim (chulé) e laceia com o tempo. Uma das grandes vantagens é que rapidamente molda-se no formato do usuário. São extremamente confortáveis, mesmo quando apertadas.
  • Tecidos sintéticos: Possui boa respirabilidade, mas são relativamente desconfortáveis por serem mais duras. O contato do material com a pele do pé não é aconchegante. Raramente laceiam, mas não possuem uma boa respirabilidade, deixando os pés suados com facilidade.

Tipos de borracha

A Revista Blog de Escalada já publicou um artigo completo dissecando os principais modelos de borrachas de sapatilha. Existem várias marcas que se dedicam a apenas criar modelos de solados. Porém todos os fabricantes possuem pontos em comum em seus modelos. O principal ponto em comum de todos os modelos vendidos no mercado (internacional e nacional) é de solados que variam entre 3.5 a 4 mm.

No Brasil há fabricantes nacionais que apostaram em solados mais grossos que isso, o que tira bastante da sensibilidade do modelo, e também mais finos, que reduz bastante a rigidez e durabilidade.

Porém o fator mais importante a se prestar atenção em uma sapatilha de escalada é na aderência de seu solado. Não é qualquer borracha que serve para uma sapatilha de escalada e os fabricantes possuem equipes de engenheiros e designers dedicados a pesquisar qual a melhor liga. O resultado de tanta experiência chegou a dois tipos genéricos de borrachas:

  • Borrachas macias ou molesEste tipo de liga possui uma aderência muito maior, porém uma durabilidade menor. Uma sapatilha de escalada com borracha macia tende a durar de 1/3 a até metade do que um outro modelo mais duro. Por ser um ligamento mais aderente é preferencialmente escolhida para escaladas de tetos e negativos. Um solado macio é a escolha mais indicada para quem é escalador esportivo e bolderista.
  • Borrachas duras ou rígidasQuem gasta muito tempo em ginásios de escalada, ou se dedica a escalar em rochas muito abrasivas (preferencialmente vias positivas e verticais) a escolha é uma liga de borracha mais rígida. Por possuir um desgaste muito menor, é a escolha certa para quem não possui muito recurso ($$$) para adquirir um modelo de sapatilha para cada situação. Uma sapatilha com borracha rígida é a escolha ideal para quem começou no esporte e necessita gastar horas e horas trabalhando técnica de pés e escaladas em vias com agarrões.

Curvatura do solado

Os designers de produto das empresas de sapatilhas de escalada encontraram no ballet clássico a inspiração para aumentar a precisão de escaladores. Maioria dos calçados que usamos no dia a dia possui uma curvatura quase nula no solado. Ou seja, são solados relativamente planos. Desta maneira é muito confortável caminhar com eles pois permitem uma maior aderência ao solo.

Porém as principais marcas de sapatilhas de escalada buscaram incrementar o formato colocando um formato de solado curvo, que imita os pés de uma bailarina, que depositam todo o peso do corpo em sua ponteira (geralmente feita de gesso).

Desta maneira, com a ponta curvada para baixo (com o ângulo do arco variando de acordo com o modelo) alguns movimentos de escalada, sobretudo em tetos e vias negativas, são facilitados.

Quanto maior o ângulo de curvatura, maior a precisão mas também o desconforto do usuário. Por isso estes modelos são utilizados para quem busca alto rendimento.

  • Solado plano: Indicada para vias tradicionais, verticais e em aderência. O formato favorece ao iniciante.
  • Solado curvo: Modelos de performance em vias esportivas e boulder de alta graduação. O formato exige tolerância ao desconforto, mas entrega precisão e estabilidade em vias negativas e tetos

Eixo longitudinal (assimetria e simetria)

Sapatilhas de escalada mais modernas possuem também uma diferenciação quanto ao seu eixo longitudinal dos pés.

Esta variação busca uma maior precisão na pisada e pressão no momento de escalar mas possui um preço: o conforto.

O escalador que não está acostumado com uma sapatilha de escalada assimétrica tende a sentir um desconforto muito maior. Geralmente quem utiliza sapatilhas de escalada com desvios do eixo longitudinal dos pés (assimetria) buscam maior precisão na escalada.

Alguém iniciante pode utilizar um modelo assim? Sim, sem problema algum. Porém deve estar ciente do desconforto e da inutilidade deste recurso em agarras grandes médias e pequenas. Este tipo de sapatilha é voltada para as “micro-agarras”.

  • Sapatilhas de escalada assimétricas

As sapatilhas de escalada assimétricas estão fabricadas de forma que toda a força dos dedos seja direcionada ao dedão. Indiferentemente se o modelo é pontudo ou não.

Sendo assimétricas melhoram sensivelmente a precisão da pisada mas cobra um preço a se considerar: a sensação de conforto. Uma sapatilha de escalada assimétrica é buscada preferencialmente por atletas de elite e de alto rendimento.

  • Sapatilhas de escalada simétricas

As sapatilhas de escalada simétricas são aquelas que possuem uma forma “reta” do eixo longitudinal do pé. Este tipo de calçado “simétrico” é muito semelhante aos tênis e calçados esportivos para caminhadas em geral. Por isso possuem uma sensação de conformo grande.

Sapatilhas de escalada simétricas são as mais indicadas para vias de várias enfiadas, vias esportivas com graduação baixa (abaixo de 6º grau brasileiro ou francês) e para uso em ginásios de escalada.

Tamanho

O princípio para escolher uma sapatilhas de escalada é: se você está andando normalmente, está grande nos seus pés. Academias de escalada erroneamente indicam dois a três números maiores que o tênis usado, o que é absolutamente errado.

Se alguém lhe disser que tem de ser um número maior, já estará lhe prestando um desserviço gigantesco.

Para o iniciante é fundamental, mesmo que inicialmente sinta desconforto, de utilizar uma sapatilha DO MESMO TAMANHO que o número que usualmente calça. Como o calçado será utilizado somente para escalar, e não correr ou ficar passeando, deve-se calça-lo somente no momento de escalar.

À medida que for evoluindo no esporte, é interessante que comece a utilizar modelos mais justos no pé. Ou seja: um ou dois números menores que seu calçado usado no dia a dia.

Por isso vale a seguinte regra prática:

  • Tamanho iniciantes: MESMO número que o calçado utilizado no dia a dia.
  • Tamanho intermediário e avançados: Número de sapatilha de escalada um número menor que o sapato usado no dia a dia
  • Tamanho para profissionais: Número de sapatilha de escalada menor um ou dois números menor que o sapato usado no dia a dia

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

There are 2 comments

  1. Matheus Baños

    Buenas Luciano! Ótimo artigo! Tenho somente uma ressalva, quanto ao tamanho da sapatilha, só consegui acertar depois que medi o tamanho de meu pé… Muitos dos tênis que usamos no dia a dia tem um formato genérico, e então não servem como referência… Poderias enriquecer teu artigo ensinando como a medir o pé de acordo com os números Europeu e Americano!!!! Acho que só falta isso! Abraços!

    1. Luciano Fernandes

      OI Matheus

      obrigado pela sua mensagem. O problema do número do sapato é muito grande. E não tão simples. A numeração no Brasil só existe aqui, sendo que há na america latinha algumas variações da numeração européia. Nos EUA há uma numeração que é diferente da Inglesa que tem diferenças da Australiana. Ou seja, cada tabela que você encontrar por aí tem suas diferenças medindo o mesmo pé. Por isso optei nem colocar esta tabela no artig. Porque naoo encontrei uma que fosse confiável.

      mas a dica que você deu foi muito boa, vou procurar alguma coisa de tamanho dos pés em cm e a numeração. E tentar explicar porque cada lugar é diferente.

      Abs

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