Como é a vida de uma mulher em alta montanha

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

A cada dia vemos mais e mais mulheres nas montanhas. Seja escalando em rocha ou alta montanha, não importa. Estamos cada vez mais fazendo parte dessa paisagem, que até bem pouco tempo atrás era ambiente quase que totalmente masculino.

No exterior, as mulheres foram para as montanhas há mais tempo que as “brazucas”.

Dá para entender, já que em países da Europa e USA, por exemplo, a escalada começou muito antes que aqui.

Creio que levou tempo, até pararmos de achar que, por não sermos tão fortes quanto nossos colegas homens, não conseguiríamos escalar bem.

O bacana é que as mulheres conseguiram desenvolver um estilo próprio, mais no jeitinho que na força, e assim começaram a fazer bonito!

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

Mas claro, nem tudo são flores. Temos várias “particularidades”, que precisam ser levadas em consideração quando vamos para alguma escalada.

Numa parede de escalada esportiva, não temos tantos problemas.

Mas quando vamos para uma expedição longa, as coisas mudam de figura…

Vou contar aqui um pouco da minha experiência em alta montanha. Chamo de “alta montanha” aquela que, normalmente, tem neve e envolve aclimatação devido à altitude elevada (4.000m ou mais).

A quantidade de coisas que temos que levar para a montanha, e o peso da mochila, são sempre uma preocupação.

Assim, temos que levar em conta cada item que queremos levar…

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

Afinal, uma mochila com 20 kg para nós já é um “mochilão”.

Sim, conseguimos levar mais do que isso, mas já começa a forçar demais nosso corpo e articulações e isso não é uma boa.

Além do mais, é sempre bom lembrarmos de que estando em altitude, uma boa tática é evitar o desgaste excessivo de energia.

Sem gastarmos toda nossa reserva energética para carregar uma mochila gigante, a chance de chegarmos ao cume será muitíssimo reduzida.

Assim, pense bem naqueles cremes para o rosto, shampoo e coisas do tipo…

Será que vc realmente vai precisar disso tudo?

Para mim e para muitas amigas montanhistas, os cremes são importantes.

Nossa pele, principalmente do rosto e mãos, acaba ficando super ressecada e temos que cuidar.

mulheres na montanha

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

Levo tudo em pequenos potes (da um certo trabalho fazer “nave mãe” e “nave filha” de tudo, mas vale a pena!) e assim consigo reduzir o peso.

Até pasta de dentes coloco em um tubo menor…

Levar alicate de cutículas, que muita gente acha que é besteira, pode ser muito útil.

A pele dos dedos começa a engrossar, como uma defesa do frio intenso, e depois a trincar.

É extremamente doloroso… descobri que, tirando o excesso de pele e usando um bom creme, evito essas trincas.

Procuro, também, sempre usar luvas.

Todos sabemos que a neve irradia a luz solar, o que faz com que os cuidados com o sol sejam redobrados.

Hoje em dia existem dezenas de protetores solares. Dependendo da altitude que vc vai, a escolha do protetor pode variar. Quanto mais alto vc for, maior deve ser a proteção.

Lisete e Heidi

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

O mesmo vale para os protetores labiais. Infelizmente, os protetores labiais encontrados com mais facilidade aqui no Brasil não são muito bons na montanha.

Vale discutir com um dermatologista esses itens.

Normalmente nós mulheres sofremos muito mais com o frio.

Esse aspecto das montanhas é muito sério, pois pode fazer com que uma escalada vire um martírio ou, na pior das hipóteses, pode levar à hipotermia ou congelamento de extremidades.

Sempre que algum amigo me diz o que usou para tal montanha ou no dia de cume, sempre coloco uma camada a mais do que ele.

Se equipar da melhor maneira possível faz toda a diferença numa escalada.

Investir num bom sleeping bag, jaqueta, botas, meias e luvas vai lhe trazer aquele sorriso no rosto quando bater aquela tempestade que não estava na previsão do tempo!

Claro que eu não poderia deixar de falar sobre a menstruação. Ela tem dois aspectos que não são bem-vindos, na montanha.

Um, mais óbvio, é a questão da higiene pessoal. Normalmente não conseguimos tomar aquele banhão, como gostaríamos.

Mas isso conseguimos resolver conseguindo um pouco de água e um canto sossegado.

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

Foto: Acervo Pessoal Lisete Florenzano

Na pior das hipóteses, no caso de não ter água e não ter combustível suficiente para derreter neve (e assim ter água), os lenços umidecidos e talco já ajudam e muito!

Mas creio que o principal problema com relação à menstruação é que ela prejudica nossa aclimatação. Claro, isso pode não acontecer com todas as mulheres…

Mas em duas ocasiões, em montanhas diferentes, eu já estava aclimatada para determinada altitude e, depois de menstruar, tive aquele cansaço e dores de cabeça tradicionais do Mal de Altitude.

Assim, evitar a menstruação quando estiver na montanha pode ser uma boa opção.

É claro que tem o lado bom do aspecto feminino…

Somos muito menos competitivas e em geral trabalhamos bem em grupo. Temos um “lado maternal” que se preocupa com todos da expedição, que é muito bacana…

equipe cho oyuNa expedição ao Cho Oyu dividi a barraca com uma escaladora alemã, Heidi, e foi uma experiência muito boa.

Em momentos diferentes durante a escalada, precisamos uma da outra. Eu, no primeiro ciclo de aclimatação, quando cheguei absolutamente exausta no campo 1, a ponto de nem conseguir tirar a mochila das costas.

Simplesmente sentei na neve e fiquei, na frente da barraca.

Ela foi lá, tirou minha mochila, jogou dentro da barraca, me deu comida e água, encheu meu “Thermarest” (o que a 6400m é uma tarefa e tanto!), arrumou meu sleeping bag.

E ela, na volta ao campo 1 depois do cume (que fez sem oxigênio),a estava totalmente esgotada. Foi a minha vez de retribuir toda a ajuda. É interessante que os homens acabam também ficando mais atenciosos, quando existem mulheres no grupo.

Não se importe em ser a primeira a chegar.

Curta mais o lugar, as pessoas, o momento.

Relaxe… faça seu ritmo, sinta sua respiração.

Cuide do seu corpo e dos seus pensamentos.

Se entregue a esse lugar mágico que temos o privilégio de estar.

É dessa maneira que chegamos muito mais longe do que imaginamos!

Heidi e o espelho rosa

Foto: Lisete Florenzano

Lisete Florenzano é escaladora há mais de 10 anos, e uma das brasileiras de maior destaque na prática de alta montanha. É formada em Engenharia Mecânica, com mestrado em Bioengenharia, pela USP de São Carlos

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