Como calcular o tempo total de um percurso de trekking

Quando se trata de esporte, existem várias medidas que favorecem a análise. No futebol, por exemplo, existem medidas objetivas como o número de gols, passes certos e errados, quantidade de vitórias e chutes a gol. Todas estas medidas servem para as infinitas (além de modorrentas) discussões em mesas redondas, realizadas diariamente na televisão e rádio. Na escalada, quantificou-se o grau de dificuldade por um número que, pelo menos em teoria, sintetiza a complexidade, aperto, adversidade e prova de uma via.

Na corrida, seja ela de montanha ou de rua,) as principais medidas são o tempo, distância, pacing e batimento cardíaco, para medir a dificuldade de um percurso, além da performance de um atleta. Como medir então o tempo de percurso de uma rota de trekking?

A discussão é longa, pesada e tão modorrenta quando as mesas redondas dos programas futebolísticos. Partindo do princípio que cada pessoa possui um ritmo e resistência, o qual é afetado pelas condições climáticas, peso da mochila, preparo físico e inclinação do terreno, parece ser uma tarefa ingrata. Portanto muitos perguntam quem foi a pessoa, ou qual foi a metodologia, que estabeleceu que o percurso “X” de trekking leva aproximadamente “Y” horas para finalizar.

Primeiramente antes de entender esta fórmula, muito usada para cálculo de rotas de trekking, é necessário que fiquem claro alguns conceitos simples, ignorado amplamente por quem coloca a passionalidade à frente da racionalidade quando entram em contato com alguma teoria. Levando em consideração que o espaço amostral de todas as pessoas que visitam um local de prática de trekking é muito variado, é necessário estabelecer pelo menos a média dos valores. Média é a soma dos valores dos dados de um conjunto, dividido pelo número de elementos do conjunto. Outras medidas como Moda e Mediana, iria somente tornar as contas mais complicadas.

Portanto, é sabido que uma pessoa, com forma física normal, caminha aproximadamente 5 km/h em média. Se por um acaso você, que está no auge da forma e goza de boa saúde, possuindo valores superiores a este, significa que do total habitacional está acima de grande parte dele. Mas não significa necessariamente que o valor é errado. Portanto as placas ilustrativas, assim como os guias e livros de trekking, seguem a mesma lógica: visam abranger todo e qualquer tipo de público. Para isso, os valores médios, obtido por estudo científico, é utilizado para o cálculo do tempo de trekking.

A fórmula de trekking

A velocidade média de uma pessoa em passo normal é de aproximadamente 1,5 m/s. Valor este que equivale a 5,4 km/h. Os atletas olímpicos nas provas de 100 m rasos desenvolvem velocidades médias de 10 m/s, ou seja, 36 km/h.

Mas em um trekking, estudos científicos aferiram que, por conta do terreno e peso da mochila, uma pessoa em média tem velocidade de 4 km/h. O valor diminui da média de uma pessoa normal, por conta da largura da passada e do peso da mochila. Além deste valor de progressão, há o fato de que um montanhista médio leva aproximadamente uma hora para vencer 300 metros de desnível. Caso esteja descendo, o valor é de 500 metros descidos em uma hora.

São três valores médios a obter. Por isso, para medir o tempo total de trekking, é necessário fazer os seguintes cálculos:

  • Distância na horizontal
  • Distancia na vertical
  • Redução da metade do menor valor de horizontal ou vertical
  • Somar os dois resultados (redução da metade do menor valor + maior valor obtido)

Parece complicado? Pois saiba que isso é apenas uma maneira aritmética simples, sem implicação de fatores subjetivos, que poderia tornar o cálculo mais complicado. Por exemplo, até para entender como fazer este cálculo: se um trekking possui 10 km de extensão (distância horizontal) e um desnível de 2.000 metros, temos o seguinte cálculo:

  • Para o cálculo de tempo de deslocamento na vertical
    • Se, em média, uma pessoa leva em média uma hora para 300 metros de desnível, para vencer uma distância de 2.000 metros seria de aproximadamente 6h45min.
    • Para voltar, que é uma velocidade de 500 metros por cada hora, em média levaria 4 horas.
      • Portanto o valor total da ida e volta, seria de 10h45min
  • Para o cálculo de tempo de deslocamento da horizontal
    • Se, em média, uma pessoa anda 4 km em uma hora, para vencer 10 km levaria o total de 2h30min
  • Obter a metade do menor valor dos dois percursos (vertical e horizontal): 2h30min/2 = 1h15min
  • Finalmente, o último passo é somar os dois valores: 10h45min + 1h15min = 12 horas

Resumindo: O hipotético trekking deste exemplo, de 10 km de extensão e desnível de 2.000 metros, levaria aproximadamente 12 horas.

Um exemplo mais específico poderia ser do trekking até o Pico das Agulhas Negras (2.791 m), localizado no Parque Nacional do Itatiaia. O percurso é considerado dos mais tradicionais e clássicos do país. O cálculo abaixo será feito a partir do Abrigo Rebouças (2.380 m). Segundo informações fornecidas pelo ICMBio, a distância média de 2 km.

  • Cálculo da Ida
    • Valor do tempo na vertical: 2.380 m – 2.791 m = 411 metros ≅ 1h20min
    • Valor do tempo na horizontal: (2 x 1)/4 = 0h30 min
    • Redução da metade da menor quantidade: 0h30min/2 = 15 min
    • Valor total de caminhada ao cume: 1h20min + 15 min = 1h35 min
  • Cálculo da volta
    • Valor do tempo na vertical: 2.380 m – 2.791 m = (411 m * 1 )/ 500 ≅ 50 min
    • Valor do tempo na horizontal: (2 x 1)/4 = 0h30 min
    • Redução da metade da menor quantidade: 0h30min/2 = 15 min
    • Valor total de caminhada ao cume: 0h50min + 15 min = 1h05 min
  • Cálculo total da caminhada: 1h35min + 1h05min = 2h40min

Para este valor vale uma observação: no tempo calculado não é levado em conta paradas para fotos, nem abastecimento de água. Portanto, para muiotos valores obtidos no cálculo, adiciona-se uma “gordurinha”. O valor de um trekking disponibilizado vale para o público médio.

Alta montanha

Foto ; https://www.camptocamp.org

O de cálculo efetuado acima, não está levando em conta alguns fatores de alta montanha. Portanto, para quem estiver utilizando este cálculo para alta montanha, pode estar cometendo um erro grosseiro. Ao tentar vencer desníveis, saindo de um local com altitude acima de 2.000 metros acima do nível do mar, o ar começa a ficar rarefeito, impactando na performance do montanhista absurdamente. Desde maneira o cálculo da média vencida pelo montanhista, tem de ser reajustado.

O livro “The High Altitude Medicine Handbook“, escrito pelos autores Andrew J. Pollard e David R. Murdoch, propôs uma tabela de medidas médias de ascensão de desnível para montanhistas amadores e profissionais. A tabela abaixo serve de parâmetro para os cálculos para a “fórmula do trekking”.

Alitude Montannistas profissionais Montanhistas amadores
até 2.000 metros 1 hora = 500 m desnível 1 hora = 300 m desnível
de 2.000 até 3.000 m 1 hora = 425 m desnível 1 hora = 255 m desnível
de 3.000 até 4.000 m 1 hora = 375 m desnível 1 hora = 200 m desnível
de 4.000 até 5.000 m 1 hora =325 m desnível 1 hora = 190 m desnível
de 5.000 até 6.000 m 1 hora = 275 m desnível 1 hora = 160 m desnível
de 6.000 até 7.000 m 1 hora = 225 m desnível 1 hora = 130 m desnível
de 7.000 até 8.000 m 1 hora = 175 m desnível 1 hora = 100 m desnível

Fazendo um exemplo simples, de uma das montanhas mais icônicas da América do Sul: Monte Aconcágua (6.962 m).

Desde o refúgio Berlim (5.926 m) ao cume Monte Aconcágua, até o seu cume o desnível é de 1.032 metros e uma distância horizontal de 3,50 km. Calcularemos com o tempo médio de um montanhista profissional:

  • Para a subida
    • Cálculo do tempo na vertical – (1.032 x 1)/275 = 3h45min
    • Cálculo do tempo na horizontal – (3,50 x1)/4 = 0h50min
    • Menor tempo a dividir – 0h50 min/2 = 0h25 min
    • Tempo de caminhada: 3h45min + 25 min = 4h10min

Lembrando que o cálculo realizado foi somente para o ataque ao cume. Para o cálculo completo de uma ascensão em uma alta montanha, é necessário levar em consideração os valores de subida e descida. Portanto para uma logística completa, para um lugar como o Monte Aconcágua, é necessário levar em consideração cada acampamento:

  • Confluência – 3.368 m
  • Plaza de Mulas – 4.370 m
  • Nido de Condores – 5.560 m
  • Berlim – 5.926 m
  • Cume do Aconcágua – 6.962 m

Lembrando também que neste cálculo de tempo de expedição, há o tempo de aclimatação.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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