Brasileiro abre nova via alpina em El Chaltén – Leia o relato da conquista

O brasileiro Marcelo Machado, junto de dois escaladores franceses, abriu uma nova via alpina na cidade de El Chaltén na Aguja Guillaumet (2.580 m). Machado atualmente mora na região da Chapada Diamantina, onde dedica-se a também abrir vias de escalada esportiva e tradicional.

A Aguja Guillaumet fica acima do vale do Rio Electrico e ao sul do Fitz Roy e é um dos locais mais procurados por praticantes de escalada alpina na região.

Leia o relato de Marcelo Machado abaixo:

Por Marcelo Machado

Cheguei em Chaltén no dia 28 de janeiro e, como de costume, a “ventana” estava fechada. No entanto, todo mundo só falava da janela de cinco dias à partir de 09 de fevereiro; restando viver o espírito de El Chaltén, cervezas e assados, e o já tradicional Festibulder organizado pelo Clube Andino da cidade.

Os dias foram passando e a “ventana” de cinco dias se transformou em quatro, depois três dias e meio… enfim, no dia 09 subi para Piedra Negra com dois franceses: Aurel Bessot e Mathieu Lamblin, com o plano de escalar a Aguja Mermoz pela via Argentina no sábado (10/02) e na segunda-feira (12/02) tentar uma nova rota na face leste da Agulha Guillaumet. Contudo, ao chegarmos em Piedra Negra, vimos que as condições eram muito ruins, com muito gelo e neve em todo o maciço do Fitz Roy.

Com aquelas condições, fazer o passo para a Mermoz seria perigoso e complicado, por isso mudamos os planos e decidimos que no outro dia iríamos para a Guillaumet.

A madrugada de sábado teve um frio tão intenso que nos obrigou a partir às 7 horas da manhã quando o corpo se sentiu melhor à temperatura negativa. Saímos somente Aurel e eu. Três horas depois chegamos a face leste da Aguja Guillaumet e encontramos três equipes que iriam cruzar a rimaia para escalar a via Amy-Vidailhet. Pedimos licença e rapidamente cruzamos a rimaia pelo lado esquerdo, saindo na base do pilar que queríamos escalar.

Como Aurel guiou a rampa de neve, eu comecei a primeira enfiada de rocha. Com todas as fissuras congeladas e os pequenos platôs cheios de neve, fui ganhando altura, escalando de sapatilha mas tendo a todo momento que “sacar” a piqueta para ajudar a limpar as fendas. Nestas condições foi necessário fazer em artificial o off-width de 15 metros no meio da enfiada e mesmo Aurel vindo em segundo com ela “limpa” não conseguiu a cadena desta seção que provavelmente ronda um 7a francês (7c brasileiro). A segunda enfiada não facilitou para Aurel, dois diedros de fissuras perfeitas, mas com muito gelo deram trabalho para passá-los em livre.

A terceira enfiada teve um crux em artificial que ficou cotado em C2 e me obrigou (por causa do fim da corda) a fazer uma reunião aérea no início de uma canaleta e a ficar mais de uma hora com os pés enterrados na neve quando sol não mais chegava na via. Na quarta enfiada o Aurel mandou muito bem a canaleta de neve que foi afunilando até um último lance vertical que saiu em A0, depois disso finalmente a parede inclinou bastante e nos permitiu escalar o restante totalmente em livre com dificuldades chegando ao 6a francês (6° brasleiro).

Finalmente na quinta enfiada as dificuldades passaram e, após um 5° grau de 30 metros, pude chegar a ponta final do pilar com os últimos raios de sol, que já ia para trás do Cerro Torre, aquecendo meu rosto o suficiente para que eu percebesse que tinha terminado a via. Não consegui conter a emoção e um sonoro grito de felicidade avisou ao meu parceiro que eu tinha chegado.

Já passava das 21h, nos quedamos apenas alguns minutos, o suficiente para tomar um chá e comer algumas frutas secas, e começamos os rapeis. Rapéis em montanha, muitas vezes, são histórias a parte, mas desta vez tudo foi perfeito e em uma hora já tínhamos cruzado a rimaia e seguíamos para o passo Guillaumet. Cansados e fatigados chegamos as barracas às duas horas da madrugada de domingo para, enfim, darmos por encerrada a jornada e, rapidamente, comemorarmos pela primeira vez a escalada antes irmos dormir.

O domingo passou chovendo e antecipou o fim da “ventana”; decidimos descansar e na segunda-feira já descíamos para Chaltén para comemorar.

Comemorar sim, e muito, afinal, abrir uma nova rota com as condições que encontramos de neve e gelo, escalar tudo de sapatilha forçando ao máximo para sair em livre, superar frio e cansaço em 19 horas de atividade e tudo ocorrer na mais perfeita segurança foi sensacional.

Não esquecerei tão cedo uma das escaladas mais lindas da minha vida, apesar de duríssimas as condições, nossa sintonia com a montanha foi perfeita e agora posso perceber e valorizar um feito pessoal e de como me sinto feliz por ter vivido esses dias…

  • Via: Pilar del Quinto Sol – 6b C2 – 190 metros – face leste Agulha Guillaumet.

Agradeço ao Mathieu pela ajuda no porteio dos equipos e a minha esposa Laura Meller pelas ótimas comidas (profissionalmente) desidratadas em casa, o que permitiu um porteio bem leve de alimentos e combustível.

Só banquetes…

Cissa Carvalho é natural de São Paulo e praticante de esportes outdoor desde os 8 anos de idade. É alpinista fanática, e nas horas vagas tenta escalar em rocha, surfar e arranjar dinheiro para continuar viajando. Já esteve em todos os continentes e já escalou na América do Sul, África, Ásia e Europa

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