A história de um boulderista que escalou uma via Alpina

Por Taimur Ahmad

Foto: https://warriorsway.com

O que eu, um boulderista de Nova York, estava fazendo a 21 quilômetros no sertão de Wyoming, de pé no topo da Face Leste do Cloud Peak (4.015 m), encarando a face de mais de 300 metros de granito não escalado e a geleira cheia de fendas abaixo?

Tecnicamente, tentando fazer a primeira ascensão de uma nova via de Big Wall com Arno Ilgner, fundador do programa de treinamento mental The Warrior’s Way (o caminho do guerreiro da rocha). Mas, na realidade, isso tudo foi para me empurrar para fora da minha zona de conforto e aplicar meu treinamento mental. Isso é o que eu tenho trabalhado com o Arno por um ano: aprender a criar uma mente livre para ser um melhor escalador e uma “cobaia” neste projeto em particular.

Escalar é desconfortável: as agarras são afiadas, o equipamento é pesado, a queda é assustadora. Mas falhar é muitas vezes mais assustador. A infeliz verdade é que muitas vezes queremos mandar vias arrojadas para alimentar nossos egos e nos fazer sentir valiosos. O ego quer validação, mas, ao fazê-lo, geralmente ignoramos a parte mais interessante de toda a experiência de escalada: o desconhecido, a incerteza, a dúvida, o desconforto que faz a escalada valer a pena.

Foto: https://warriorsway.com

Eu seria capaz de escalar a parede, sem nunca ter escalado algo tão grande, a uma altitude de quase 4.000 metros, com logística complicada, por um tempo prolongado? Eu seria capaz de descobrir o estilo de escalada desajeitado e realmente aplicar a minha força de boulderista? Eu me sinto forte como um pedregulho, mas eu me sentiria forte escalando naquele ambiente alpino? Será que eu me sentiria confiante guiando longas cordadas, com um rack pesado e colocando micro cams para me manter seguro? Eu conseguiria lidar com a exposição? Eu teria a resistência para escalar durante vários dias, começando ao nascer do sol e terminando depois do anoitecer? E o mais importante, seria eu capaz de encarar esse momento crítico e escalar o crux, para tornar nosso sonho uma realidade?

O peso dessas perguntas, e a expectativa de uma nova via maneira, com meu nome ligado a ela, era intimidante. Mas através do meu treinamento, eu estava aprendendo a achar as dúvidas interessantes e as incertezas fascinantes. E se pudéssemos ser motivados por desconforto, por não saber como tudo acontecerá e por esforçar em vez de apenas mandar a via? E se chegarmos à conclusão de que, embora as metas sejam cruciais, a aprendizagem em si é realmente a parte mais poderosa da experiência?

Foto: https://warriorsway.com

Nos meses que antecederam a nossa expedição, preparei-me de uma maneira muito diferente da que fiz para a escalada de boulder. Eu treinei fisicamente para poder lidar com escalada de longa duração. Eu treinei tecnicamente, aprendendo a descansar no meio de posturas estressantes e a relaxar a minha pegada enquanto costurava. Treinei mentalmente fazendo pratica de queda, aprendendo a cair com conforto e intenção. E na maioria das noites antes de dormir, tomei um banho frio.

O banho frio fazia parte do treinamento mental mais amplo que eu estava fazendo com Arno. O objetivo era aprender como se apoiar nesse desconforto, depois relaxar nele e, em última análise, ser motivado pelo desconforto em si. A água fria é desconfortável, mas também pode ser emocionante.

À noite, antes de entrar no chuveiro, eu me visualizava de pé na base daquela parede de granito, olhando para ela. Era grande, assustadora e difícil. Era desconhecido e fora da minha zona de conforto. Eu visualizava me envolvendo com esse desconhecido e com aquele desconforto. Eu me visualizava caminhando com curiosidade e excitação, sem pavor ou ansiedade, sem pressão para encadenar e acabar logo com isso. Imaginei-me balançando os braços antes da sequência crucial que Arno havia descrito para mim: uma protuberância de pequenos regletes na metade da via. Eu me vi engajando nesse ponto crucial, permanecendo relaxado, empolgado e pronto para arrancar aqueles regletes de granito da parede. E então eu entrava no chuveiro. A água fria era minha analogia. Ao escolher me engajar nesse pequeno desconforto inconsequente, eu poderia me projetar em um problema muito maior e mais sério.

A hora do compromisso chegou. Arno me pegou no aeroporto de Denver e nós dirigimos para Wyoming. Nós caminhamos pelo sertão por dois dias com mochilas brutais de 30 quilos, cada vez mais alto, até as rampas de pedra irregulares. Só a caminhada já era exaustiva. Então tivemos que fazer o trabalho de nos preparar para a via – adicionar algumas chapas, visualizar o crux e descobrir equipamentos e logística, como transportá-lo. Os dias eram longos e constantemente estressantes com a exposição massiva, frio, vento, neve ocasional, altitude e falta de sono, criando dúvidas para nos fazer desistir, mas persistimos e progredimos dentro do cronograma. O tempo clareou. Nossa parceria foi forte e solidária. Nós estávamos prontos.

Foto: https://warriorsway.com

Em nosso dia de ataque ao cume, levamos cerca de duas horas para descer a parede em cinco longos rapéis. Nós nos demoramos um pouco na cordada do crux no rapel para reafirmar a sequência de betas. Então continuamos descendo até a base. O sol nasceu em um céu sem nuvens e pela primeira vez estávamos realmente quentes, até com calor. Nós arrumamos nossos equipamentos, nossas cordas e começamos a subir. Tudo correu bem. Terminamos as cordadas de baixo mais devagar, porém com segurança. E então lá estávamos nós. Chegamos no momento que eu havia visualizado todos esses meses: o crux, lindo e instigante.

Depois de todo o trabalho que nos levou até aqui, foi a minha vez de guiar. Eu me sentia pronto. Nada mais. Sem ansiedade, sem expectativas, sem pressão, sem medo. Eu estava apenas curioso e ansioso para me envolver com o desafio, para investigá-lo, entrar nele e ver se eu poderia passar no meu teste.

Eu me visualizei tantas vezes nessa parada. Eu me via relaxando pelo crux através da sequência de regletes quadrados enquanto a água fria caía em mim uma e outra vez. Eu não me visualizei encadenando ou obtendo sucesso, mas sim estando presente, curioso e pronto para me envolver com o desconforto. Naquele momento, porém, não parecia haver desconforto. Havia apenas eu e a rocha. Com o Arno tendo feito uma tremenda quantidade de trabalho para tornar essa escalada possível em primeiro lugar, agora era a hora de eu fazer minha contribuição para o nosso projeto. Eu tinha um trabalho a fazer.

Eu escalei pelo crux através de uma série de problemas de escalada delicados e técnicos antes de chegar ao sólido, porém desconfortável descanso antes do crux. Eu levei meu tempo recuperando tudo e depois comecei a sequência final sem hesitação, executando o beta que eu havia visualizado no nosso rapel. Os movimentos foram extenuantes, mas eu estava comprometido, e em pouco tempo eu me vi sacudindo os braços em grandes agarras após o crux, relaxado e usando meu tempo para descansar. Quando cheguei à parada, soltei um grito de vitória. Mas tínhamos mais cordadas para escalar – e um pôr do sol para correr contra – antes de comemorar.

O treinamento mental que eu estava fazendo com a Arno é útil, mas não é uma bala de prata. Eu ainda erro muito. Eu ainda permito que meu ego interfira e distraia minha atenção. Está sempre à espreita, sempre me comparando com os outros, sempre criando expectativas e me seduzindo com conforto e desculpas pelo meu desempenho. Mas pelo menos agora eu posso ouvir quando meu ego sussurra em meus ouvidos; eu estou ciente disso. Eu ouço meu ego, reconheço e redireciono meu foco. Tudo o que é relevante é: a escalada, eu e o desafio que escolhi participar. E mesmo quando o meu ego tira o melhor de mim, sei que fui enganado por ele, e trabalho para fazer melhor da próxima vez.

Depois de um ano de treinamento mental sério com Arno, ainda tenho um longo caminho a percorrer com o meu jogo de cabeça. Mas também posso ver até onde cheguei. E às vezes, como no crux do Cloud Peak, vejo o treinamento brilhar, expresso no meu esforço. Eu sinto, pelo menos por um momento, que consegui a mente livre pela qual estamos nos esforçando.

Mas, esteja avisado. Eu descobri que todo esse treinamento mental é um truque. Minha motivação inicial para fazer isso foi subir mais, mas à medida que progredia, comecei a entender que não se trata de encadenar um grau mais difícil ou até de escalar. No seu nível mais fundamental, é sobre se tornar mais consciente. Com consciência, minha mente está se tornando, lenta mas seguramente, mais livre.

1-WarriorsWaylogo_

O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em: http://www.companhiadaescalada.com.br/

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

Comente agora direto conosco

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.