Crítica do filme “Bonete – A Conquista Brasileira”

Documentários que abordam ascensões em alta montanha carregam a fama de serem apelativos. Há sempre a exploração do risco e do heroísmo de quem sobe uma montanha. Há excesso de dramatização, inchamento de feitos e efeitos sonoros. Não que estes elementos não devam existir em um documentário de montanha, mas o que deveria ser evitado é a exploração desenfreada deste tipo de recurso.

Felizmente o filme “Bonete – A Conquista Brasileira” não trilhou este caminho. A produção, realizada por Paula Kapp, documenta a ascensão de um grupo de brasileiros, formado homogeneamente por homens e mulheres, que tentam subir o Cerro Bonete (6.759 m) a quarta mais alta do continente americano, depois do Aconcágua (6.962 m), Ojos del Salado (6.893 m) e Monte Pissis (6.793 m).

A montanha escolhida era, nas palavras dos personagens, importante, imponente e selvagem. Por não possuir nenhum “titulo” que a divulgasse, como, por exemplo, “mais alta das Américas”, “segunda mais alta”, “mais difícil”, etc, acabava sempre ficando fora do radar de montanhistas. Motivo este que explica o motivo de que somente agora, em pleno século XXI, que brasileiros resolveram escalar o Cerro Bonete.

Porém fazer uma ascensão a mais de 6.000 metros acima do nível do mar e ainda se preocupar em documentá-lo é uma tarefa um tanto ingrata. Esta dificuldade talvez seja o principal motivo de que roteiros deste tipo de produção parecem ter sido escritos na última hora. Apesar de ser relativamente curto, “Bonete – A Conquista Brasileira” consegue construir uma história bem amarrada, mesmo tendo evidentemente poucos recursos técnicos e um roteiro que necessitava de alguns ajustes. Toda a motivação da escalada, assim como a ascensão em si, foi muito bem explicada desde o início, mas a diretora pecou em não aprofundar em detalhes básicos como apresentar cada personagem. Mas mesmo com evidentes lacunas no roteiro, felizmente, não há em nenhuma parte do filme, algum drama desnecessário para engrandecer a escalada ou mesmo exageração de qualquer coisa.

Entretanto, talvez por motivo de logística ou economia de bateria, não há muitas imagens da expedição nem da escalada. Tudo parece ter sido montado de maneira muito corrida, sequer dando tempo para que o expectador sinta empatia com os personagens. Um ponto negativo a se destacar é a tentativa de incluir humor, até mesmo com algumas gracinhas juvenis, parece destoar do tom mais sóbrio do filme. As cenas “cômicas” parecem deslocadas do contexto que o filme pretende implementar desde o início, além de não agregar muito à história.

Um outro ponto que a diretora derrapou, foram as explicações sobre geografia e geologia, baseadas somente nas palavras de um personagem, sem sequer apresentar um mapa, ou animação, para que o espectador pudesse entender melhor do que se travava. Esta ausência de preocupação deixou a entender que se tratava mais de uma “carteirada” do que propriamente uma informação útil.

Por ser uma montanha muito isolada, partes interessantes como preparação física, desgaste de viagem, imprevistos e outros detalhes que fazem parte de uma expedição não foram abordados. Mesmo tendo uma duração bastante reduzida (possui pouco mais de 14 minutos), consegue documentar um feito histórico sem desrespeitar a inteligência do expetador.

Nota Revista Blog de Escalada:

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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