Bolhas nos Pés : Guia completo de tratamento e prevenção para montanhistas

Faz parte da realidade de grande parte dos montanhistas ter de conviver, vez ou outra, com o aparecimento de bolhas nos pés. Caminhar por vários quilômetros com uma mochila faz com que este tipo de inconveniente invariavelmente aconteça. Nas atividades de peregrinação, como o Caminho de Santiago na Espanha, Caminho da Fé no Brasil e Pacific Crest Trail nos EUA, é fundamental que o praticante saiba o básico dos cuidados com as bolhas nos pés.

Cientificamente conhecida como flictena, é considerada uma doença comum (sim, bolhas nos pés são consideradas doença pela medicina). O aparecimento das bolhas nos pés pode, mas não necessariamente, vir acompanhado de algum tipo de micose e atinge principalmente a face lateral dos dedos e plantas dos pés.

Causas das bolhas nos pés

Foto : Bigstockphoto | http://www.healthydietbase.com

As bolhas nos pés são causadas quase que exclusivamente por três razões básicas :

  • Atrito intenso com dos pés com o calçado, com as partes internas roçando a parte interna do equipamento
  • Umidade excessiva, causadas por sudorese excessiva e por meias que não dissipam o suor adequadamente
  • Sujeira – Acúmulos de resíduos como sais oriundos do suor ou mesmo lama e poeira na meia

Analisando estes três elementos (atrito, umidade e sujeira) causadores das bolhas nos pés é fácil concluir que : a escolha da meia de caminhada e calçado são fundamentais para prevenir o aparecimento de bolhas nos pés.

Improvisações com calçados e meias inadequadas para a prática de caminhadas longas são, de longe, a principal causa de formação de bolhas nos pés. A escolha inadequada destes dois equipamentos pode também levar ao chulé. Portanto NUNCA, sob qualquer hipótese, faça longas caminhadas, seja trekking ou peregrinações, com meias de algodão comuns vendidas largamente em supermercados. Elas irão apenas ficar encharcadas de suor e causar bolhas em você.

Foto : http://www.healthyandnaturallife.com/

Fique atento no momento de escolher o seu calçado com as costuras internas, que são as grandes causadores de bolhas nos pés. Para saber escolher corretamente uma bota de caminhada acesse aqui. Portanto, em termos gerais, sempre que houver  atrito excessivo entre pele, meia e bota haverá uma reação na pele que parece uma queimadura e, consequentemente, o aparecimento de uma pequena bolha cheia de líquido.

Prevenção de bolhas no pé

O maior mito, que é absolutamente falso, a respeito de calçados é sobre o uso intenso para lacear. Notar o conforto de um calçado, seja ele de montanha ou par auso urbano, é fundamental. Um bom macete, ensinado por um sapateiro experiente, é esfregar a pele do pulso (geralmente mais fina que a dos pés) na parte do calçado que vai estar em contato com o calcanhar e tornozelo.

Isso porque o calcanhar, em uma caminhada longa, é quem irá ser mais exigido. Experimentar sapatos com a(s) meias(s) as quais será usado, para evitar a compra de calçados maiores (ou menores) que o necessário, é fundamental para que se evite a formação de bolhas nos pés.

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Por isso, em qualquer tipo de caminhada, um procedimento mandatório é ter extremo cuidado com a higiene básica dos pés, os quais devem ser lavados ao final da atividade. Se possível deixá-los repousar por alguns minutos na água de algum córrego ou rio. Mesmo em travessias exigentes, procure dormir com os pés respirando, de preferência em uma meia limpa.

No dia seguinte, imediatamente antes de retomar a caminhada é passar vaselina, talco antisséptico ou até mesmo “vick vaporub” (ou alguma pomada de cânfora) pois diminuem o atrito da meia com a pele. Porém deve ser aplicado prestando a atenção com o excesso.

Um dos segredos que montanhistas mais experientes é a utilização de Gel de Aloe Vera puro (também conhecido como babosa) aplicado tanto no início, quando ao final de uma caminhada (desde que os pés estejam limpos). Este gel atua na vermelhidões, irritações da pele e inchaço do pé, pois é um anti-inflamatório natural. Por ser um hidratante muito eficaz, mantém a pele úmida além de colaborar para uma cicatrização mais rápida.

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Uma outra dica prática é utilizar duas meias : uma meia fina do tipo liners (utilizada por corredores de rua) internamente e a meia de caminhada por cima. Liner (também designada pelo seu plural Liners) são meias bem finas, altamente respiráveis e tem como finalidade sugar a unidade excessiva dos pés. Esta mesma umidade será absorvida pela meia externa de caminhada que a evaporará, mantendo os pés não encharcados de suor.

Não esquecer que a meia de caminhada tem de ter sido escolhida criteriosamente (aprenda como escolher meias de caminhada aqui). Antes de calçar as meias procure utilizar um hidratante (sem excesso!). Esta dica é fundamental para quem tem excesso de sudorese nos pés.

Tratamento de bolhas nos pés

Se, apesar de tudo, aparecer uma bolha nos seus pés e você tem de seguir com a sua atividade, procure tratar as bolhas nos pés para que não se transforme em um ferimento sério e que lhe impeça de continuar caminhando.

O tratamento de bolhas nos pés é relativamente simples, e deve ser feito ao final do dia de caminhada, e logo após uma limpeza completa dos pés e da área afetada. Antes de realizar qualquer procedimento procure entender o verdadeiro motivo do aparecimento das bolhas :

  • Calçado está machucando ?
  • Meia é ineficiente ?
  • Não está sendo feita a higiene adequada ?

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Identificando estas causas, facilmente fará com que você, logo após o tratamento, procure fazer algo a respeito. Caso não seja possível trocar o equipamento que esteja não funcionamento adequadamente, procure tirar a lição a respeito disso. Além disso procure difundir a informação de que o produto ou marca não é indicado para a atividade. Este tipo de comunicação é fundamental para que equipamentos ruins sejam retirados do mercado.

Nunca (NUNCA MESMO) utilize um canivete ou tesoura para furar de qualquer jeito a sua bolha. A pele que está abaixo dela não está pronta para ser exposta e submetida a mais atrito. O motivo é simples : a epiderme não está formada ainda. Por isso lave adequadamente os pés e os seque.

Fique atento que o procedimento abaixo NÃO deve ser realizado em pessoas com diabetes ou varizes, entre outros problemas de cicatrização.

Foto : https://ultrarunningmom.com

Com o pé devidamente seco e limpo siga os seguintes passos :

1 – Com uma agulha desinfetada (utilize álcool para isso) e faça dois pequenos furos na bolha para que o líquido saia e fique completamente vazia. O método mais adequado é atravessar com a agulha somente a pele. Algumas pessoas utilizam uma linha com o nó ao final para que o buraco aberto pela agulha seja maior (mas não um rombo). A própria linha servirá como dreno para a bolha perfurada. NUNCA arranque esta pele que serve de proteção, também conhecida como “teto da bolha”.

2 – Após furar a bolha deixe secar por um tempo em lugar fresco até que todo o líquido tenha sido retirado

3 – Coloque sobre a bolha uma proteção com boa aderência como, por exemplo, um Betaplast (produto testado aqui), que possui uma linha específica para curativos em esportistas. Na Europa existe um produto chamado Compeed, que é uma espécie de protetor que funciona como uma pele artificial e é o produto preferido de praticantes de trekking por lá (infelizmente este produto não é vendido no Brasil).

4 – Ao final de cada dia, e antes de iniciar uma caminhada, lave os pés intensamente e verificar a situação do curativo. Em alguns casos é necessário novamente furar a bolha e repetir o processo descrito.

Porém há dois detalhes que devem ser observados pelo caminhante : O aparecimento de bolhas vermelhas ou com pus com sangue há perigo de infeção, se possível procure um médico.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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