Aventura, substantivo feminino! O que aprendi com as atividades outdoor?

Nota do editor: Na semana da mulher, a Revista Blog de Escalada pediu que praticantes destacadas de seus esportes escrevessem seus sentimentos sobre o universo outdoor, tendo toda a liberdade para expor seus sentimentos. Desta maneira a Revista Blog de Escalada, mais uma vez, demonstra ser o veículo brasileiro que mais respeita a diversidade.

O texto é de inteira responsabilidade e autoria das convidadas. Sem qualquer tipo de censura prévia.

A oitava convidada na semana da mulher é a montanhista paulista Nathachi Silva


Por Nathachi Silva

Aventura é um substantivo feminino sabia? Seja coincidência ou não! E significa não saber ao certo o que vem pela frente e mesmo assim aceitar o desafio de enfrentar, você também acha no dicionário: Feito extraordinário, e é isso mesmo literalmente, gosto muito de como pessoas comuns estão por aí fazendo coisas extraordinárias usando essencialmente apenas duas características: vontade e coragem!

A experiência outdoor é para todos. O espaço natureza/mundo, é livre. Não há restrições, senão as inventadas em convenções que os aventureiros ignoram. Você pode começar a explorar agora mesmo com o que tem (ou pegando emprestado, como eu fiz no início) e como está. Aos poucos irá evoluir naturalmente de acordo com suas necessidades e com dicas solidárias da comunidade outdoor.

Quem sou eu? Meu nome é Nathachi, não sou nenhuma atleta de alto desempenho, sou uma pessoa comum apaixonada por aventuras na natureza. Há cerca de 3 anos “achei minha turma”, descobri o que era cachoeira em uma viagem. Após as trilhas de um dia fui evoluindo e cheguei ao montanhismo e também ao cicloturismo de forma independente. Sou designer gráfica, porém, tenho caminhado para atuar como guia outdoor. Atualmente participo do projeto Mochila de Batom, idealizado pela Laila Blanch onde com um grupo exclusivamente feminino subimos montanhas, sozinhas! Como diria a sociedade (rs).

Quais as dificuldades para praticar esportes outdoor, principalmente sendo mulher?

Talvez a maior dificuldade seja a falta de cultura/educação outdoor da sociedade no Brasil. Familiares e amigos julgam muito minhas atividades. Seria muito mais fácil ser “normal” e sedentária, do que praticar esportes outdoor e esportes radicais. Somos como o palhaço do circo em eventos sociais (rs): “Olha ali aquela que sobe montanhas“.

A sociedade está condicionada ao medo, a ficar no quadrado, a um risco muito controlado. São ensinados a não sobrepor a linha da segurança e a se guardar para o trabalho na segunda-feira. Mais do que isso: só se divertir de verdade nas férias e, principalmente, não sobrepor a linha da zona de conforto!

Felizmente eu não gosto de ver TV, mas sei que as notícias não dão trégua Estão cada vez mais sensacionalistas. Uma história engraçada é minha própria mãe chegar ao ponto de dizer: “Filha, não fale nas entrevistas que você pratica montanhismo. Podem ter medo de você se machucar e não te contratarem“. Ou seja, seria melhor se eu fosse sedentária? Como se andando pela cidade eu me estivesse muito segura.

Fora a clássica para quem tem filhos, as pessoas dizem: “Deveria tomar mais cuidado, já está na hora de ter juízo, por eles“, julgando os pais ou principalmente as mães na trilha.

Outro exemplo é quando me machuquei num acidente e fiquei 45 dias sem andar. Todos disseram: “Viu!? Uma hora iria acontecer né“. Puxa vida quanto pessimismo pessoal. Está na hora de mudar, abrir a mente. Acidentes acontecem em todo lugar, não só em esportes outdoor. Se ocorrerem, e daí? Faz parte, não é preciso argumentar, aprendemos muito e nos recuperamos como seria com qualquer outro caso.

Outra questão é, na trilha mesmo não sofri discriminação por ser mulher. Salvo as vezes que me foi oferecida ajuda em locais fáceis, só por ser mulher. Recusei, mas na maioria das vezes a ajuda é oferecida a todos. Há muita solidariedade. Nós mulheres somos sempre minoria em grupos mistos comuns. Proporção de três mulheres para cinco homens, mas aos poucos vão surgindo mais e mais mulheres na cena e preenchendo essa lacuna.

O que incomoda é em trilhas mais pesadas, por vezes ver as fotos e ter sido feita apenas por homens. Ou seja: Não chamaram as mulheres talvez por julgarem que elas não aguentariam. Faço questão de comentar abaixo: “Cadê as meninas do grupo?“.

No pedal, recentemente, ouvi uma frase engraçada também, fizemos um chamado longão de 100 km, ao final, o elogio as mulheres foi: “Vocês pedalam que nem homem hein!” Não foi intenção da pessoa ofender, mas tive que corrigir: “Não! Não! Nós pedalamos como mulher mesmo!“.

Ainda no pedal, cicloturismo, realizei uma rota chamada Caminho dos Anjos. Havia decidido por ir solo, no grupo de cicloturismo conseguiram me convencer a ir acompanhada. A companhia foi boa, mas houve poucos problemas. Repensando, não vi problema algum em ir solo, sigo com o projeto deste ano de fazer uma sozinha como a exemplo de tantas mulheres viajando pelo mundo assim.

O que aprendi com as atividades outdoor?

Subir uma montanha, fazer uma travessia, um cicloturismo longo, etc, todas essas atividades envolvem muita solidariedade entre os praticantes. Há amor ao próximo ao esperar e dar a mão num local difícil, liberdade de aproveitar toda a vastidão da natureza, adrenalina ao encarar seus medos seja de altura ou outro e principalmente muito autoconhecimento. Não tem como fingir ser outra pessoa numa atividade tão intensa. Seus nervos estão a flor da pele e você é o tempo todo você. Fora os outros ensinamentos que há, como consciência ambiental, primeiros socorros, sobrevivência, grande capacidade de improviso e decisão.


Cheguei a pessoas que jamais imaginaria conhecer, que me ajudaram muito, com equipamentos, companhia e dicas ao longo da atividade. Quebrando aquela máxima de não confiar em estranhos. Os estranhos têm sido grandes amigos e mentores. Mesmo que minha condição financeira não tenha permitido comprar itens, ao longo do tempo muita gente me ajudou. Nunca deixei de fazer uma trilha por não ter na data uma barraca ou saco de dormir. O trekking é realmente solidário com todos.

Em uma cicloviagem, Caminho dos Anjos por Minas Gerais, pessoas que nunca me viram ofereceram estadia gratuita, mesmo que em suas casas simples compartilharam um café e um queijo, isso é uma das melhores experiências transformadoras vividas, sem explicação da bondade que ainda existe por aí e só mesmo indo lá para ver que se presencia.

E o maior lance é a superação de limites, os não praticantes podem pensar, isso é muito pesado para mim, saiba que tudo é uma questão de encarar passo após passo e usar todo o seu estoque de coragem e vontade para chegar até o fim.

Exemplos inspiradores

Por fim, muitas mulheres fortes são peça-chave que acompanho para me inspirar. Dentre elas a amiga Vivi Mar, que pedala muito cicloviajando, escala e já fez muitas trilhas. Luta muito e, não contente quando se machucou, ao invés de ficar parada foi remar. Tudo de forma independente!

A Elaine Bissonho, uma brasileira que concluiu a Pacific Crest Trail, Apalachian Trail e também a Continental Trail. Nada menos que as maiores trilhas do mundo, formando a tríplice coroa (Triple Crown of Hiking). Talvez a única brasileira a fazê-lo.

A Vivi Benjamin, esta cicloviajando sozinha pela América Latina, desde março de 2016. Saiu do Brasil rumo ao México. Com muita força, já passou pelo Peru e Colômbia, vivendo histórias incríveis junto a pessoas que encontra pelo caminho!

A Laila Blanch, que após fazer o Caminho de Santiago, depois de problemas pessoais, mudou o rumo de sua história e hoje é uma guia de muito sucesso. Já esteve em muitas outras montanhas como Kilimanjaro e Circuito W de Bariloche, e fundou o projeto Mochila de Batom. Projeto este que se iniciou quando uma senhora lhe falou indignada: “Vai subir sozinha essa trilha? Mas não tem nenhum homem com você?“.

Além de outras cicloviajantes fantásticas que também me inspiram muito são Ada Cordeiro, Juli Hirata, Pãmela Manrangoni, Bruna Fávaro e Abiqueila Souza Silva.

Estas mulheres me dão total força em seus relatos e feitos para continuar no mundo outdoor, além de ignorar criticas e as ideias fechadas da sociedade.

Um pouco de aventura liberta a alma cativa do algoz cotidiano.
– Clarice Lispector

There are 2 comments

  1. Márcia Rocha

    Belo texto Natachi. Me sinto representada por você. Palavras certeiras que contam muito bem sobre a importância do respeito a diversidade. O mundo outdoor tem espaço para todos. O importante mesmo é se estar fazendo o que se gosta.

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