Clube Alpino dos EUA cria campanha contra assédio em ambiente outdoor

Apesar de não ser um lugar que proliferam casos de assédio sexual e agressão às mulheres, o ambiente outdoor não está a salvo deste tipo de agressão. Inegavelmente os esportes de montanha possuem ainda um número de homens muito maior do que mulheres praticando. A preocupação com este tipo de disparidade em relação à proporção da população em geral e de que, talvez, esta discrepância seja pelo ambiente masculinizado.

Uma das maneiras de atrair mais mulheres para este universo, é tornar o ambiente mais amigável e seguro a elas. Inegavelmente o ambiente para as mulheres no universo outdoor é bastante igualitário e muito pouco hostil. Mas a constante educação e conscientização de quem faz parte dele é que fará com que o ambiente continue assim. Conscientização sem panfletagem ou militância.

Dois pesquisadores norte-americanos Charlie Lieu (cientista de dados treinado pelo MIT) e Callie Rennison ( professora de criminologia da Universidade do Colorado) constataram que a comunidade de escaladores e montanhistas não é um refúgio para agressores. O objetivo da pesquisa foi aprender mais sobre a SHSA (Sexual Harassment and Sexual Assault) no mundo da escalada, pois o que mais chamou a atenção foi de que vários entrevistados afirmaram que “Como muitas pessoas nunca encontraram assédio ou agressão sexual em escaladas, elas não acreditam que exista”.

A partir desta premissa, a pesquisa ambicionou peneirar a seguinte questão: “As pessoas sofrem assédio sexual ou assédio na escalada?”. A resposta, baseada nos resultados da pesquisa, é um explícito “sim“. Neste ponto é importante lembrar que, nós sul-americanos e latinos temos uma maneira muito diferente de encarar estes temas de assédio e agressão sexual que os norte-americanos. Muitos dos contatos físicos, como aperto de mãos, abraços e cantadas que são comuns, não são vistas com bons olhos pelos habitantes dos EUA. Não que estejam certos, ou errados, apenas é uma cultura diferente.

Preocupados em não acontecer algum escândalo de assédio sexual que comprometa a imagem do esporte, o American Alpine Club criou uma campanha chamada #SafeOutside. A campanha é o primeiro esforço em profundidade para examinar a SHSA na comunidade de escalada. Na campanha diversas mídias especializadas no esporte também fazem parte da campanha, além de vários outros clubes de escaladores existentes no país.

A iniciativa #SafeOutside vai além de simplesmente identificar a SHSA como um problema no mundo do montanhismo. Usando as descobertas, os organizadores da iniciativa agora visam identificar e implementar estratégias para reduzir os incidentes de SHSA, aumentar a compreensão e fornecer um melhor sistema de apoio para todos os (as) escaladores (as).

Caso o #SafeOutside consiga arrecadar fundos suficientes, o próximo passo será desenvolver planos de longo prazo para educar a comunidade de montanha sobre SHSA e prevenir através de vários canais. Além disso, também elaborar pesquisas sobre as melhores práticas para abordar casos de SHSA e, eventualmente, criar uma “cartilha” com as descobertas e ferramentas comprovadas para ajudar outras áreas a combater a SHSA.

Resultados da pesquisa

Na elaboração da pesquisa para investigar mais em profundidade sobre incidentes ocorridos na comunidade de montanha, foi respondida por 5.311 pessoas (51% homens e 49% mulheres). Isso porque, de acordo com a pesquisa Lieu e Rennison publicada no início deste ano, mostra um retrato da SHSA que não poupa mulheres ou homens, jovens ou velhos, alpinistas ou escaladores tradicionais. Os resultados foram os seguintes:

  • 47,3% das mulheres entrevistadas e 15,6% disseram ter sido vítimas de pelo menos uma ocorrência de assédio sexual ou agressão sexual enquanto participavam de uma atividade de escalada
  • 53,4% dos entrevistados relataram “fiu-fiu” e gritinhos
  • 51,5% relataram assédio verbal
  • 35,6% relataram seguimentos indesejados
  • 38,2% relataram toques indesejados
  • 3,3% relataram atos sexuais indesejados
  • 6,4% relataram tentativas beijo forçado
  • 9,5% relataram ter recebido “piscadas”
  • 3,3% dos entrevistados – 42 mulheres, 11 homens e 1 indivíduo que não identificaram seu gênero – foram vítimas de estupro

Algumas mulheres em suas respostas escritas descreveram histórias de tentativa de estupro, com homens visitando suas barracas sem serem convidados.

Mas e no Brasil?

Ainda não há pesquisas sobre este tipo de assunto no universo de montanha brasileiro. Mas engana-se quem pensa que somente nos lugares de escalada que podem acontecer assédios mais agressivos entre pessoas. Em uma pesquisa superficial realizada quando elaborava este artigo, muitas delas em conversas reservadas, vários homens e mulheres já relataram casos deste tipo de abordagem agressiva em academias de escalada, encontros de escalada e abrigos de montanha.

A escaladora F.B., durante uma conversa reservada, relatou cantadas inapropriadas durante treinos em sua academia, que fica localizada no sul do Brasil. A abordagem foi tão agressiva que ela mesma decidiu abandonar a academia, pois o agressor era pessoa próxima da administração. E.D.M relatou que já recebeu abordagem grosseira em um refúgio de montanha e que ficou desconfortável de voltar a frequentá-lo. Como o escalador era local, segundo ela mesmo relatou, optou por não reclamar aos proprietários.

Na mesma pesquisa informal, muitas mulheres disseram se sentirem desconfortáveis de usarem shorts ou outro tipo de roupa mais colorida. Muitas descreveram que o motivo não era somente os olhares das mulheres, mas pela atitude de escaladores no seu entorno.

Vários encontros de escalada também foram observados comportamentos inadequados, sobretudo quando há festas de confraternização entre os montanhistas participantes. Infelizmente é muito difícil estabelecer uma diferença categórica entre o que é assédio e elogio. Acredita-se que o assédio vai muito além das palavras, que pode ser uma forma grosseira.

Ao entrar em contato com três academias e perguntar sobre o tema, todos se esquivaram e disseram não haver casos reportados. Mesmo assim, nenhuma delas disse que possui um planejamento de fazer uma pesquisa para averiguar a existência deste fato. O motivo deste tipo de cautela pode ser explicada por ser o tema relativamente espinhoso e que, vez ou outra, levanta os ânimos de quem se põe a discutir o assunto.

Até o momento, as entidades representativas dos montanhistas no Brasil não realizaram nenhum tipo de pesquisa para averiguar como é o SHSA em ambiente outdoor. Cabe às mulheres pressionarem estas entidades, que possuem como lema principal representar a comunidade de escalada, para que o assunto seja levantado e que, quem sabe, possamos discutir o mesmo assunto no país.

Se você, caro leitor (a) souber de algum assédio, entre em contato conosco e teremos o prazer de conversar.

Para saber mais da pesquisa: https://americanalpineclub.org

Argentina de nascimento e brasileira de coração, é apaixonada pela Patagônia e Serra da Mantiqueira.
Entusiasta de escalada, trekking e camping.
Tem como formação e profissão designer de produto e desenvolve produtos para esportes de natureza.

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