Entendendo a arqueologia de alta montanha I – Nevado Sara Sara

Vamos começar uma série de artigos descrevendo uma disciplina fascinante, e totalmente relacionada ao montanhismo: a arqueologia de alta montanha. Os incas, seguramente, foram os primeiros a subirem montanhas acima de 6000 m de altitude, não com finalidade esportiva, como na atualidade, mas por motivos religiosos. Em cada artigo iremos apresentar uma montanha onde foram encontrados vestígios e sítios arqueológicos incaicos, aproveitando para discutir os aspectos principais da geografia sagrada dos incas e de sua religião.

Para preservar é fundamental conhecer e existe o risco de que montanhistas desinformados possam chegar ao cume de montanhas andinas que apresentam construções de origem inca e modifiquem as estruturas existentes, montando novas pilhas de pedra para marcar o cume, por exemplo. Divulgando quais são essas montanhas, enfatizando, inclusive, a possibilidade de que novas ruínas possam ser encontradas, esperamos conscientizar os montanhistas que frequentam as montanhas andinas sobre a importância de não alterarem prováveis sítios arqueológicos.

Foto: http://cronicasdepauza.blogspot.com.br

O Apu Sara Sara (5505 m) é uma montanha localizada no departamento de Ayacucho, província de Parinacochas, no Peru, quase no limite com o departamento de Arequipa, sendo considerada pelos arqueólogos um santuário de alta montanha clássico. Sua primeira ascensão moderna conhecida foi realizada em 1921 por Benicio Supanta, morador do povoado de Chocpe, localizado aos pés dessa montanha. Benicio encontrou em seu cume algumas estruturas de pedras que, posteriormente, com as pesquisas realizadas pelo arqueólogo Johan Reinhard a partir de 1983, foram identificadas como sendo de origem inca.

Em outra exploração na montanha, realizada em 1941 por Alfredo Zambrano, Dionisio Salas Vitangurt e Nicolás Cuadros, foi descoberta uma lâmina de prata-cobre. Mas foi a partir da década de 1980 que as investigações se intensificaram. Johan Reinhard encontrou, em 1983, duas plataformas artificiais em diferentes níveis, com muros de contenção de até 2 m de altura, atrás do cume secundário N-W, de 5475 m, além de uma terceira plataforma artificial de menor porte. Nessas plataformas descobriu conchas spondylus, um “tupu” de prata (alfinete utilizado como adorno pelas mulheres incas), lenhas e apachetas (pilhas de pedras). A presença das conchas e do “tupu”, possivelmente, associa-se a ritos de fertilidade.

O nevado Sara Sara é citado pelo cronista espanhol Cristóbal de Albornoz que, escrevendo no século XVI, menciona as diversas guacas ou huacas existentes na província de Parinacochas:

“Sarasara es un cerro nevado y en él está una piedra de dicho nombre (…). Visitando esa província (de Parinacocha) hallé muy mucha suma de guacas y las destruí y quemé, y dejé memoria en los libros que mandé hacer de fábricas, con toda cuenta y razón”.

Imagem: http://4.bp.blogspot.com/

Segundo Johan Reinhard, “huaca” era um termo utilizado pelos incas para lugares ou objetos sagrados, como pedras, montanhas e fontes de água. Uma huaca (objeto) também podia corresponder a uma representação de uma huaca (lugar sagrado). Os missionários espanhóis interpretavam as huacas como ídolos mas, na verdade, representavam deidades naturais, que também não devem ser confundidas com deuses na acepção que normalmente temos. Ainda segundo Reinhard, as huacas descritas por Cristóbal de Albornoz eram representações da montanha Sara Sara, o que demonstra sua importância para os incas.

Foto: http://www.airepuro.org

Em novas pesquisas realizadas em 1996, José Antonio Chávez y Johan Reinhard descobriram na montanha o corpo mumificado de uma menina inca, que foi apelidada de Sarita e hoje se encontra sob os cuidados do Museo Santuario de Altura del Sur Andino, da Universidad Católica de Santa María de Arequipa, no Peru.

Aguardem os próximos artigos, onde vamos descrever as cerimônias e compreender os significados dos sacrifícios de crianças realizados pelos incas no topo das grandes montanhas andinas.

Sobre o Autor

Marcelo Delvaux

Marcelo Delvaux

Guia profissional de montanha, com título de “Guía Superior de Montaña” obtido na EPGAMT. Guia de montanha associado à AAGM e à AAGPM. Guia de montanha credenciado no Parque Provincial Aconcagua. Sócio da empresa SummIT – Gestão de Projetos e Desenvolvimento Humano. Além de liderar expedições de escalada e trekking em alta montanha, trabalha com treinamento e consultoria nas áreas de gestão, liderança, motivação e inovação.
Pratica escalada em rocha desde a década de 1990 e alta montanha desde o início dos anos 2000, tendo realizado mais de 80 ascensões nos Andes e no Himalaia

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