Aquecimento global e o impacto na prática do montanhismo

O lugar de todo montanhista são as montanhas, e quanto a isso não há dúvidas. A esta altura da vida, muito provavelmente, todo montanhista deve ter ouvido falar ao menos uma vez na vida sobre o aquecimento global e dos perigos de que cidades litorâneas de serem inundadas com o derretimento da calota polar. Este parece ser a principal preocupação de jornalistas a respeito do aquecimento global: as cidades litorâneas.

A imprensa ainda dá espaço para controvérsias mal informadas, tendenciosas ou distorcidas sobre a realidade e a gravidade do aquecimento e seus efeitos. Talvez por esta “despreocupação” com as montanhas por parte da mídia de massa, que passa a impressão de que o aquecimento global pode somente atingir quem gosta de praias. Mas a realidade não é bem assim. Para entender o perigo do aquecimento global para o montanhismo, é necessário ter uma noção básica da teoria dos conjuntos.

Se o aquecimento global irá esquentar o planeta, derretendo a neve das calotas polares, e as montanhas estão contidas no mesmo planeta e também possuem neve, logo também está em perigo. Isso porque o aquecimento global é o processo de aumento da temperatura média dos oceanos e da atmosfera da Terra, causado por massivas emissões de gases que intensificam o efeito estufa.

O efeito estufa é um efeito direto da explosão populacional, crescimento econômico, uso de tecnologias e fontes de energia poluidoras e de um estilo de vida insustentável. O aumento de temperatura vem ocorrendo desde metade do século XIX e deverá continuar enquanto as emissões continuarem elevadas.

Patagônia

Foto: https://photos.smugmug.com/

Sem dúvida nenhuma a Patagônia é um dos principais lugares do mundo para a prática de montanhismo em todo o planeta. Tanto a parte argentina, quanto a chilena, povoa os sonhos de qualquer praticante de trekking, canoagem, pesca esportiva, escalada em rocha, bigwall e alta montanha. O que dizer a estas pessoas que, por algum motivo, os lugares que elas frequentam pode deixar de existir em algumas décadas?

Todo ano, mais ou menos no final do ano, é detectado um buraco na camada de ozônio sobre a Antártica. Mas, para desespero de muitos, no ano 2000 (18 anos atrás), o buraco atingiu níveis recordes e chegou a uma área ao sul do Chile, a cidade de Puerto Williams.

Muitos se concentraram na proteção de pele e olhos neste lugar da Patagônia. Mas um outro aspecto foi esquecido: o derretimento do gelo. As geleiras da Patagônia sofrem mais com o aquecimento global que as demais grandes formações de gelo do planeta. A afirmação foi feita em 2010 por cientistas das Nações Unidas durante uma conferência sobre a Mudança Climática no México no mesmo ano.

Foto: Antonio Carlos Grossl Júnior

Cientistas da Universidade de Cornell, nos EUA e do Centro de Estudos Científicos (CECs) em Valdivia, no Chile, afirmaram que o ritmo de encolhimento dos campos de gelo da Patagônia aumentou 50% nos últimos 12 anos, se comparados com os dados coletados entre os anos 1970 e 1990. O estudo, que tem o título de “Ice loss from the Southern Patagonian Ice Field, South America, between 2000 and 2012” foi publicado na revista Biological Psychiatry.

Mas nem somente as geleiras são afetadas pelo aquecimento global. Afinal, na lógica da teoria dos conjuntos, se na geleira a neve derrete com o aquecimento global, no topo de uma montanha que também possui neve, também derreterá pois, está contida no mesmo conjunto: o planeta!

Montanhas andinas

Foto: Luis Salazar Vargas | http://www.andeshandbook.org

Uma das montanhas mais icônicas da Cordilheira dos Andes, a Chacaltaya (5.395 m), perto de La Paz possuía um cume nevado. O verbo está conjugado no passado, porque a neve que cobria o cume derreteu até se extinguir em 2009. O glaciar de 18 mil anos que existia lá, e era atração de muitos visitantes no então resort de esqui mais alto do mundo, virou um local de pedras áridas.

A título de exemplo, para quem pensa que este é mais um artigo panfletário e alarmante a respeito do aquecimento global, aqui vai um dado interessante. Próximo de 99% dos glaciares tropicais (situados entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio) do mundo estão localizados na Cordilheira dos Andes: Peru (71%), Bolívia (22%), Equador (4%) e Colômbia (3%).

Foto: Arquivo Pessoal Marcelo Delvaux

Do degelo da neve destas montanhas, muitos rios nascem. Ou seja, existindo degelo, há um rio. Porém sem gelo, ou neve, não há degelo. Sem degelo não há rios. Portanto estas montanhas contribuem para o abastecimento de água de cidades importantes como La Paz, Quito e Lima e de outras grandes cidades andinas.

Montanhistas que frequentam a região, frequentemente relatam que cada vez mais há cumes de montanhas, outrora nevados, sem qualquer tipo de neve. Infelizmente relatados de montanhistas não tem caráter oficial, muito menos serve de base estatística caso não haja provas mais contundentes. Mas grande partes destes mesmos montanhistas têm tirado fotos que, de uma maneira ou de outra servem de documento para que alguém das mídias de massa se interesse.

Papel dos montanhistas

Mas cumes derretidos, além de geleiras ficando cada vez mais finas, não chega a ser uma novidade a muitas pessoas. Mas qual seria então o papel dos montanhistas nesta equação? Simples, todo e qualquer montanhista, seja ele filiado a uma entidade de classe ou não, deve saber o seu papel na sociedade como um todo.

Neste ponto é que se encontra uma debilidade gigante entre os montanhistas: a representatividade.

Os montanhistas parecem que vivem ainda sob um espírito de alunos de colégio, com várias turminhas e panelinhas que não se conversam e não suportam ver alguém que não faça pare de seus grupinhos os representando. Desta maneira, enquanto todos forem inimigos de todos, quem menos se preocupa com os montanhistas serão aqueles representantes que os enxerga como um bando de indivíduos dividindo o mesmo espaço: a montanha.

No ano de 2018, haverá eleições gerais em outubro. Enquanto todos brigam por acusar ou defender algum candidato a presidente, os cargos mais importantes sequer são discutidos até mesmo pelos próprios montanhistas: os senadores e deputados (federais e estaduais). Ainda não existe, ao menos em cada estado, uma representatividade destes parlamentares, com relação aos montanhistas. Muitos dirigentes de entidades de classe procuram se esquivar de qualquer acordo de apoio com algum partido ou mesmo pessoa política.

São estas pessoas, os políticos, que por meio de pressão de seus apoiadores, que seriam nós os montanhistas, que irão verificar os interesses ambientais em vez de discussões estéreis que vemos todos os anos. Enquanto a comunidade outdoor estiver de “birra” entre si, guardando mágoa como meninos (as) mimados (os), porque não gosta de política ou porque uma outra pessoa tem mais sucesso que ela própria, corremos o risco de sequer praticar a atividade que gostamos. A omissão de montanhistas, do mundo inteiro, neste aspecto é o que faz com que a cada dia menos montanhas possuam gelo, menos trilhas são abertas e mais locais deixam de existir.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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