Aprendendo a voar: 6 conselhos para aprender a cair na escalada

Para escalar melhor, é importante aprender a voar. Existem 6 conselhos que irei listar abaixo e que, seguramente, lhe permitirá dar mais segurança a cair. Vamos subir de grau?

Aquele que quer aprender a voar um dia, deve primeiro aprender a pôr-se de pé e caminhar, correr, escalar e dançar. Não pode sair voando.” – Friedrich Nietzsche

Como afirmou Nietzsche na frase acima, para saber voar, primeiramente é necessário ter domínio de outros aspectos. Em um sentido metafórico, na escalada esportiva acontece a mesma coisa. Aprender a “voar”, “vacar” ou “cair”, que é o ato que chamamos a realidade de sairmos da parede, seja deliberadamente ou com (ou sem) corda acima de nós que permita nos segurar, é essencial para melhorar como escalador. Há quem aprende a vacar para conquistar uma cadena. Parece paradoxal, não?

Intuitivamente, tentamos fazer o contrário: não queremos voar não somente porque estamos dispostos a encadenar uma via, mas porque nos coloca em uma situação de vulnerabilidade. Dependemos das habilidades do assegurador, do material que nos protege e de nossa correta reação. Isso, claro, produz o medo.

Mas, quantas vezes você já chegou à falésia onde estão as vias de um lugar de escalada e testemunhou como os escaladores mais fortes, ou profissionais, parecem não ter medo de cair?

Assim como os profissionais, todos podem aprender a superar o medo de vacar. O trabalho deve ser realizado tanto em nível físico, quanto em nível mental. Isso é fundamental, porque não somente nos permitirá escalar graus mais difíceis, mas que nos salvará de situações perigosas como as vacas mal executadas que podem acarretar em queimaduras produzidas pela corda, impactos nas mãos, torções no tornozelo, entre outras coisas.

Os conselhos abaixo são para ajudar a guiar uma via de escalada com segurança de que pode vacar sem colocar em risco de sua integridade física. Com a prática, como tudo nesta vida, aprenderá a aproveitar melhor.

Vacar em top-rope

Não há melhor abordagem para começar. Se ainda não se anima a escalar guiando uma via, muito menos a vacar, o melhor é que pratique quedas controladas em top rope. Ou seja, com a corda vinda de cima (preferencialmente da parada e devidamente equalizada).

Se os termos do parágrafo acima não te parecem familiares, assim como outros termos técnicos de escalada, recomendo que não tente nada disso. Comece a aprender os conceitos básicos de escalada em rocha com instrutores devidamente reconhecidos por alguma federação ou associação de escalada. Desconfie e evite “instrutores free-lancer”, que não possui certificação de nenhuma instituição que represente o esporte. Possuir como argumento somente a “experiência”, irá colocar a sua integridade física em risco.

Entretanto, se já está familiarizado com os termos e conceitos de equalização, parada, top-rope, entre outros, continue a ler. Lembre-se: a escalada em rocha somente é segura quando é seguido os procedimentos e técnicas apropriadas. Mas qualquer erro, ou mesmo negligência, pode ser fatal.

Havendo uma análise pessoal da profundidade de seus conhecimentos, estude a parede da falésia que está à sua frente. Para treinar a queda em top-rope, você deve estar a pelo menos quatro metros do chão. Além disso, verifique que não haja rochas salientes e que seu equipamento esteja bem instalado. Peça à pessoa que está fazendo sua segurança que de uma braçada de corda pequena (não mais que um metro). Após isso, faça respirações profundas e solte as mãos.

A reação imediata deve ser a seguinte: o corpo relaxado e alerta, uma olhada rápida para o ponto que iremos. As mãos e pés devem estar dirigidos para a parede. Joelhos e cotovelos semi flexionados para amortecer o impacto.

Pratique esta “queda segura” quantas vezes considerar necessário. Identifique quais são os pensamentos negativos que vêm à sua mente. Pensamentos do tipo “cairei mal”, “estou assustado”, “vou fazer errado”, “não quero” e tente muda-los para “vou conseguir”, “estou seguro”, “eu posso”, etc. Tudo está sob controle.


Guiar com um segurador de confiança

O que geralmente produz medo de guiar é precisamente a realidade de que podemos cair. Mas, caso tenha realizado o item anterior, já sabe como realizar uma queda controlada. O passo seguinte é ter um (a) segurador (a) indicado (a). Esta pessoa deve possuir experiência, começando por saber revisar o equipamento, sabendo o uso do mesmo, antes que suba a uma de escalada. Além disso deve estar concentrado (a) e, caso aconteça, saber amortecer quedas de maneira apropriada.

Por outro lado, seu assegurador deve ser alguém que tenha toda a confiança. è importante que sua companhia de corda conheça você. Ou seja, que esta pessoa saiba identificar quando está seguro ou quando tenha medo, nervosismo e cansaço. Faz parte da rotina de um bom escalador, forte ou não, saber escolher as pessoas que provê segurança.


Revise o equipamento

Este é um ponto fundamental, não somente para uma queda segura, mas para escalar (e continuar escalando por muito tempo). Confiar no equipamento de escalada é fundamental e é um ponto que não tem margem para dúvidas.

Corda, mosquetões, cadeirinha e sistema de segurança (grigri, atc, etc) devem estar em boas condições. Nunca deve se arriscar em um equipamento que levante dúvidas. Se a corda apresenta um desgaste acentuado em uma das extremidades, deixando margem para pensar “aguenta só mais uma tentativa de escalada” é um erro grave. Este tipo de pensamento explicita falta total de inteligência do escalador. Não arrisque, pois um equipamento em boas condições, corretamente usado, é muito difícil que falhe.

Antes de começar uma via de escalada, deve conhecer a sua altura (se não existir este dado no guia, é porque este é mal feito) e compare com a quantidade de corda que irá utilizar. Saber o número de costuras que necessitará quando irá equipar também é obrigação do escalador e segurador. Se a sua via mede 20 metros, sua corda deve ter, pelo menos, 45 metros. Ou seja, para uma via, a quantidade de corda deve ser mais que o dobro de sua extensão.

Mesmo assim, realize o conhecido “double check”, antes de começar a escalar uma via de escalada. Seja na rocha ou na academia. Revise a cadeirinha, corda, sistema de segurança, nó e mosquetões. Todos devem estar muito bem montados. Este é um hábito que deve ser feito sempre, não importando a situação.


Estudar a via

Antes de começar a escalar, verifique se existem pedras soltas, arestas, platôs, etc, que possam ser perigosos no momento de cair. Quanto menos positiva, sendo preferencialmente negativa, mais seguro é para vacar.

Ainda assim, tente observar se a via segue uma linha mais ou menos reta (desde a primeira costura até a parada), ou se possui proteções que te obrigarão a realizar travessias para que fique longe do eixo central. Como fazer isso? Identifique visualmente a posição das chapeletas que consegue ver desde o chão. Quando existem proteções muito distantes, em relação ao eixo vertical, as quedas podem ter um pêndulo.


Vacando

Comece realizando quedas controladas, da mesma maneira que o primeiro item quando executou em top-rope, mas agora guiando. Primeiro caia com a proteção acima de sua cabeça. Progressivamente, caia com a proteção mais abaixo: peito, cintura, coxa, joelho, tornozelo, etc. Vá fazendo esta prática até que seu corpo esteja inteiramente acima da proteção, cuidando sempre que o segurador não exagere na corda liberada.

Para a sua vaca, siga sempre as mesmas sugestões: corpo relaxado e alerta, a visão para o ponto de destino. As mãos e pés devem estar voltados à parede. Joelhos e cotovelos devem estar semi flexionados para amortecer o impacto.

Quanto maior seja o seu repertório de quedas controladas, mais seguro irá escalar e, por fim, pode se esforçar mais. Entenda por esforço ir ao limite físico de encadenar a via, conseguindo posteriormente escalar vias mais difíceis, sempre preparados para enfrentar uma queda.


O que NUNCA fazer

Primeiro: A posição da corda com respeito aos pés. A corda JAMAIS deve estar cruzando por trás da perna. A corda deve estar SEMPRE no meio das pernas ou ao lado delas. Caso a corda esteja cruzando atrás das pernas, no momento que cair poderá gerar uma queimadura nas pernas e, pior ainda, produzir um giro completo de nosso corpo, impactando as costas e cabeça na parede.

Segundo: NUNCA agarre a corda com a mão. Este é um erro primário de um mau escalador. Como foi mencionado, as mãos devem estar livres para proteger-se de um possível impacto contra a parede. Além disso, segurar a corda durante a queda por também queimar as suas mãos e distrair sua atenção sobre o controle do corpo.

Terceiro: NUNCA segure mosquetões, chapeletas ou grampos. Este é o pior erro que uma pessoa pode cometer. Somente um escalador sem inteligência faria alguma coisa assim. Nunca coloque o dedo nas proteções. Se está caindo, seu dedo pode ser decepado.

Quarto: Não tensione o corpo, muito menos feche os olhos e, principalmente, não agarre a algo quando estiver caindo. Esta atitude pode fazer com que rale os joelhos, cotovelos e mãos. Muito menos empurre a parede fortemente para trás, a menos que seja com o propósito de evitar impacto a alguma coisa saliente abaixo de você.

A escalada se trata de curtir o momento e o lugar. Claro que guiar uma via de escalada é um processo que deve ser natural. Pouco a pouco, observando a outros escaladores, o medo que sentiu na primeira vez que escalou, vai se transformando em uma segurança e diversão. Seja paciente consigo mesmo.

Tradução autorizada: https://freeman.com.mx

Freeman é o mais importante site sobre escalada e esportes de montanha do México e organiza o mais assistido festival de filmes outdoor da América Latina

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