Appalachian Trail: Como é o “nível fácil” de uma das maiores trilhas do mundo

Por que escrever sobre uma seção da Appalachian Trail se milhares de pessoas, incluindo brasileiros, já a fizeram toda?

Um thru hiker, aquela pessoa que concluiu toda uma trilha longa, não é uma pessoa comum! Nem física, nem emocionalmente. São pessoas extremamente dedicadas, com recursos, muita experiência e com alta resiliência, ou seja, não é para mim!

Já um section hiker, concluinte de parte de uma trilha longa, pode ser uma pessoa comum, sem tantas habilidades. Por isso que escrevo esse artigo, para mostrar como um simples mortal pode fazer uma trilha longa.

Os 440 km que fiz na Appalachian Trail são factíveis para qualquer praticante de hiking, desde que haja preparação adequada.

Por que Appalachian Trail?

Seria minha primeira trilha longa Internacional, queria conhecer os Estados Unidos, visitar uns conhecidos e conhecer vários parques nacionais. A AT é uma trilha de percurso fácil, bem sinalizada, possui vários pontos de abandono e é muito frequentada todo o ano. Além disso, há vasta documentação disponível e pessoas dispostas a ajudar (Trail Angels, Trail Magics).

Além da preparação física que consistiu de treino sério de corrida, vários hikings técnicos ao longo de 2 anos e um reforço muscular de tronco e braços, busquei bastante informação na internet e fui adquirindo equipamentos na medida da disponibilidade financeira.

Meu plano era fazer mais de 300 km ou seja, 200 milhas, o que resultaria em terminar no Mount Love (1.951 m) milha 200. Porém um amigo experiente na Appalachian Trail sugeriu sair na milha 207 no Newfound Gap, que é uma rodovia movimentada fácil de pegar carona. Alterei então para 207 milhas em 20 dias, o que me daria uma média de 10,5 milhas por dia, aproximadamente 17 km. Mas podia fazer em mais tempo se fosse necessário, ou até mesmo sair da trilha a qualquer momento, pois não estava aficionado com a meta.

Decidi renovar meus equipamentos nos Estados Unidos e aproveitar a oportunidade para comprar algumas coisas para alta montanha. Decidi levar mochila cargueira e placa solar para a Appalachian Trail, para testá-las e facilitar a logística de porte de equipamentos.

Foto: https://thetrek.co

Cheguei nos Estados Unidos dia 1/9/2017 e fui direto para a costa oeste visitar uns familiares e conhecer diversos parques nacionais. Levei pouquíssima bagagem, comprei materiais para as trilhas dos parques na loja REI de Denver-CO. Em um mês visitei 10 parques e fiz mais de 200 km de trilhas de 1 dia. Foi possível testar quase todo o equipamento que levaria para a AT, além de conhecer os padrões de trilhas e sinalização.

Decidi fazer minha base na cidade de Atlanta-GA, pois tem voos frequentes para todo o país, tem loja REI flagship, é uma metrópole bem equipada e tinha loja whole foods onde podia comprar alimentos vegetarianos. Além disso, muitos Appalachian Trail hikers moram lá.

Cheguei em Atlanta-GA dia 29/9/2017, fiquei dois dias estudando a Appalachian Trail, comprando comida e articulando transporte para Amicalola Park. Deixei uma grande mochila no hotel em Atlanta, pois não consegui uma pessoa para guardar para mim.

Na loja REI de Atlanta tem tudo para um Appalachian Trail thru hiker, desde mochila e bota até comida e gás. É a cidade grande mais próxima de Gainsville-GA, último ponto de apoio para a milha zero da Applachian Trail (Springer Mountains).

Resolvi não levar GPS, pois a trilha é bem marcada e movimentada. Levei dois smartphones com vários aplicativos e o guia da ALDHA (Appalachian Long Distance Hikers Association) em PDF, além de algumas páginas impressas desse guia. Decidi utilizar o aplicativo my maps e o google maps.

Riscos

Os 5 principais riscos da AT:

  • Urso Preto (black bear) – Grande população protegida por lei nos Apalaches. Devido às alterações no meio ambiente, nem sempre há alimento suficiente para todos, então eles procuram qualquer coisa que tenha cheiro, eles têm um olfato extremamente desenvolvido e fuçam tudo que tenha cheiro parecido com comida como pasta de dente, etc. Na ânsia de busca de alimentos, o urso preto pode atacar quem esteja entre ele e seu objetivo. Para evitar acidentes, devemos pendurar TUDO que possua cheiro em árvores a pelo menos 6 metros do chão e 3 metros distante de troncos de árvores, isso é um procedimento seguido à risca por todo hiker na Appalachian Trail. O urso preto raramente ataca, encontrei 5 e todos me olharam e correram. Um thru hiker me contou que encontrou 30 ao longo de um ano e todos correram ao vê-lo. Devemos sempre evitar que o urso preto seja surpreendido com nossa aparição, para isso devemos fazer barulho, não sair da trilha e ficar atento a movimentos na trilha. Caso haja encontro com proximidade e o urso represente um perigo, não devemos correr nem fingir de morto. Devemos levantar os braços, inflar o peito e gritar muito. Se ele partir para cima, NÃO DEVEMOS CORRER NEM SUBIR EM ÁRVORES NEM FINGIR DE MORTO, devemos continuar gritando e tentar feri-lo de alguma forma. Todo avistamento de urso deve ser comunicado aos demais hikers.
  • Carrapato – Provoca a Lyme disease (borreliose de Lyme), doença grave não fatal. Evita-se as raras ocorrências passando permetrina nas barras das calças e botas.
  • Caçadores legais – Em vários trechos existem caçadores autorizados com seus cachorros rastreados. Não li sobre acidentes, porém é recomendável ficar bastante atento ao ver algum cachorro com rastreador.
  • Frio – A partir de outubro a temperatura cai bastante nos Apalaches principalmente nas seções do norte. A prevenção é a mesma para outros ambientes: roupa adequada, anorak e saco de dormir compatível.
  • Ratos – Quase todos os abrigos possuem ratos que ficam bastante ativos durante a noite. Eles podem roer qualquer coisa que tenha cheiro de comida pronta ou não. Para evitar surpresas, basta pendurar tudo que exale cheiro fora do abrigo (lembrando que ursos alcançam até 4 metros de altura).

Foto: Orlandinho Barros

Minha mochila não serve como exemplo para trilha longa, a começar pelo volume de 115 litros! Porém, estava acostumado com mochila pesada e, devido à minha alimentação vegetariana, optei por levar toda a comida para os primeiros 16 dias.

  • Placa solar
  • Kit de primeiros socorros
  • Bujão de gás duplo
  • Fogareiro pequeno
  • Sucos de frutas concentrados
  • Muita aveia (oatmeal)
  • Mel
  • 1 kg de açúcar mascavo
  • 10 pacotes de refeição vegetariana desidratada
  • 0,5 kg de queijo
  • Vários cookies de aveia
  • Café solúvel
  • Pasta de amendoim
  • 2 grandes pães integrais
  • Frutas secas
  • Barras de chocolate
  • Algumas frutas in natura
  • Papel e caneta
  • Um apito
  • Isolante inflável Sea to Summit
  • Travesseiro inflável Sea to Summit
  • Saco de dormir Marmot -9° C peso 1,7 kg
  • Uma barraca MSR de uma pessoa de peso 1,4 kg
  • Dois anéis de fita cintada
  • Sabão líquido biodegradável
  • Desodorante
  • Escova e pasta de dente
  • Tampão de ouvido
  • Esparadrapo
  • Silver tape
  • Barbeador descartável
  • Boné
  • Buff
  • Óculos escuros
  • 2 óculos de grau para leitura
  • Papel higiênico
  • Pazinha ultra leve
  • 01 pacote de 48 lenços umedecidas
  • Lanterna Black Diamond com 3 pilhas reservas
  • Luva de hiking
  • 02 bastões de fibra de carbono
  • 01 kit de panela de hiking
  • Isqueiro
  • Pederneira
  • Placa solar
  • 2 celulares (um só para fotos)
  • 2 cabos para celular e um adaptador de tomada
  • 400 dólares
  • Cartões de crédito
  • Passaporte
  • Uma calça ripstop
  • Meias grossas para frio
  • Um anoraque patagônia
  • Um fleece de alta montanha
  • 1 unidade de segunda pele para dormir
  • Uma calça de tactel leve para dormir
  • Uma luva segunda pele
  • 1 luva grossa semi impermeável de alta montanha
  • Um par de sandálias do batman
  • Um cinto
  • Uma camisa técnica leve e resistente (usei bastante)
  • 1 camisa de corrida (usei a maior parte do tempo por baixo)
  • Garrafinha de água de 750 ml
  • Embalagem dobrável de água de 1 litro
  • 1 mosquetão
  • 1 faquinha e talher de plástico
  • Capa de chuva para a mochila
  • Alguns poucos sacos plásticos para lixo.

Depois de toda minha jornada de approach, conclui que a melhor e mais rápida forma de iniciar a trilha é contratando com antecedência um transporte direto de Atlanta até Amicalola Falls State Park, podendo iniciar a approach trail de 8,8 milhas até Springer Mountain ou esticar o transporte até o estacionamento do Big Stamp Gap. Se organizar com antecedência, é possível conseguir caronas para todo o approach.

A marca da Appalachian Trail é um retângulo branco de aproximadamente 10 cm de altura por 3 cm de largura. É praticamente impossível perder a trilha se observar essa marca pintada nos troncos das árvores em postos-chave. Em cruzamentos com outras trilhas, o que é muito frequente, surgem outras marcas pois cada trilha tem uma marca específica. Nas derivações da Appalachian Trail, como pontos de água, acesso a abrigos, mirantes, etc, a marca passa a ser azul indicando que não há saída e que deve-se retornar pelo mesmo caminho de volta à trilha.

Nota do editor: Para uma melhor leitura do artigo, ele foi dividido em duas partes. A segunda parte será o diário COMPLETO da Appalachian Trail

Orlandinho Barros nasceu em 5/7/1965 na Bahia, é pai de duas filhas, formado em TI, morando em Salvador, atualmente dedicado ao trekking. É Explorador de trilhas desde sempre, fazendo quase todas as trilhas clássicas no Brasil em 11 estados, muitas sozinho. Fez 440 km da Appalachian Trail em 2017 em 25 dias. Abriu 305 km da Trilha inédita Brasil Central conectando Brasília a Alto Paraíso em 2016.

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