Appalachian Trail: O diário da travessia feita por um section hiker (Parte 2)

O nível fácil da Appalachian Trail (Caminho dos Apalaches) seria algo em torno de 273 milhas (440 km).

Mas por que escrever sobre uma seção da Appalachian Trail se milhares de pessoas, incluindo brasileiros, já a fizeram toda?

Um thru hiker, aquela pessoa que concluiu toda uma trilha longa, não é uma pessoa comum! Nem física, nem emocionalmente. São pessoas extremamente dedicadas, com recursos, muita experiência e com alta resiliência, ou seja, não é para mim!

Caminho dos Apalaches

Foto: Orlandinho Barros

Já um section hiker, concluinte de parte de uma trilha longa, pode ser uma pessoa comum, sem tantas habilidades. Por isso que escrevo esse artigo, para mostrar como um simples mortal pode fazer uma trilha longa.

Os 440 km que fiz na Appalachian Trail são factíveis para qualquer praticante de hiking, desde que haja preparação adequada.

Para ler o relato completo da preparação, acesse aqui.

Caso não tenha lido a primeira parte, que cobre a primeira semana, acessse aqui.

Dia 7 – 9/10/2017

Caminho dos Apalaches

Foto: Orlandinho Barros

Dormi muito bem. O casal partiu para a vila. Fui “expulso” do hotel as 10h, tem um transporte nesse horário voltando 0,5 milha subindo até a AT.

Arrumei tudo rápido para não perder a oportunidade, não coloquei mais esparadrapo nos dedos.

O vento tinha melhorado bastante, eu já estava subindo para a divisa GA/NC onde os ventos geralmente não alcançam. Foram 12 milhas (19,31 km) de muitas subidas e descidas, chão molhado, escorregadio e com muitas árvores caídas na trilha.

Diferente da Geórgia, na Carolina do Norte não encontrei árvores cortadas liberando a passagem, tinha que desviar várias vezes com a mochila pesada. Passei na árvore da divisa por volta das 16:00.

Cheguei no abrigo Muskrat Creek Shelter (milha 81.1) às 18:30 com um pouco de fog, não tinha ninguém. Tentei chegar na Haven Rock mas o caminho estava com muita árvore caída e já estava escurecendo.

Caminho dos Apalaches

Muskrat Creek Shelter | Foto: https://www.cnyhiking.com

Enquanto retornava ao abrigo, ouvi gritos de meu futuro companheiro de abrigo. Tomei um bom banho no rio ao lado do abrigo e lavei roupa.

O fog tinha aumentado muito, a visibilidade estava em 3 metros ou menos. A noite chegou mais um hiker para dividir o abrigo. Dormimos em três.

Dia 8 – 10/10/2017

Caminho dos Apalaches

Foto: Orlandinho Barros

Fui cedo na Haven Rock ver o avião caído por dica de Joe, um hiker que conheci no hostel. Já perto do mirante, deve-se procurar muito do lado direito da trilha por partes brancas espalhadas em um raio de 100 metros, não é fácil encontrar. São vários pedaços de um avião cessna.

Meu dia de descanso, seriam apenas 5 milhas, aproveitei para revisar os equipamentos e atualizar o diário. Previsão de chuva que não ocorreu, mas tudo estava muito molhado e escorregadio, muitas árvores caídas e não cortados na NC. A mochila, apesar de bem mais leve – já conseguia erguê-la do chão – estava incomodando, era o corpo reclamando do esforço contínuo.

Parti às 14:00, não sentia nenhuma dor preocupante, os ombros, a lombar e os pés reclamavam, mas nada forte, com alguns ajustes na mochila e nas botas, melhorava o desconforto. Constantemente eu ajustava a mochila e parava a cada hora ou menos. Tentava conjugar o momento de comer ou hidratar com o descanso para ganhar tempo. Carregava no máximo 700 ml de água.

Caminho dos Apalaches

Bear bell

Deixei de usar o bear bell pois não vi ninguém usando e o velho Joe disse que era inútil.

Já era o terceiro dia sem sol para carregar o celular J3, ainda restava 30% de carga, só carregaria com certeza no hostel em Bryson milha 137 distante mais 7 dias! Teria que conseguir sol até lá.

Às 16:30, no final da tarde, cheguei no abrigo Standing Indian Shelter (milha 86.0) onde encontrei um thru hiker que estava a 1 ano na trilha, passou o inverno em Maine e viu urso preto 30 vezes! Fumante inveterado, tive que sair do abrigo e montar a barraca na madrugada por causa da inhaca do cigarro.

Caminho dos Apalaches

Standing Indian Shelter | Foto: MintakaCat – https://www.whiteblaze.net/

À noite não houve chuva, pela manhã chuva fina só para molhar a barraca.

Antes de dormir, o thru hiker me “forçou” a pendurar minha mochila na árvore. URSO preto é uma ameaça real, não à integridade diretamente, mas sua fúria por comida pode provocar acidentes graves e até morte.

Dia 9 – 11/10/2017

Caminho dos Apalaches

Foto: Eric Grunwald | http://ericandnoelle.blogspot.com.br

Registrei minha passagem no livro do abrigo, esperei a barraca secar e fiquei arrumando a mochila até partir às 12:10 com destino ao Carter Gap Shelter, 7,6 milhas ao norte (12,23 km). A barraca não secou totalmente, mas consegui um pouquinho de sol para carregar o celular. Estava bem nublado, mas logo o sol deu as caras e ficou oscilando. Percurso bem plano com umas suaves subidas.

Fui ao Indian Mountain Summit (5.498 pés/1.675 m – milha 87.5) onde encontrei um grande grupo da terceira idade. Passei por vários pontos de água, inclusive dois riachos. Almocei no Beech Gap milha 90.4 por volta das 15:30.

Estava mantendo a estratégia de caminhar lentamente com várias paradas previstas e imprevistas a fim de evitar lesões.

Cheguei no Carter Gap Shelter (milha 93.6) às 17:00, consegui tomar banho e lavar roupa. O abrigo não tinha bear box nem bear cable, arrisquei dormir com as coisas dentro do abrigo, atitude altamente condenável.

Dia 10 – 12/10/2017

Caminho dos Apalaches

Foto: Orlandinho Barros

AMANHECEU LINDO! Céu totalmente aberto, não choveu durante a noite, todas as roupas que lavei secaram. Muito animado para prosseguir. Tive insônia novamente.

Geralmente antes das 20:00 eu já estava deitado, alimentado e de banho tomado (de água e sabão ou lencinho), aproveitava esse momento para refletir sobre o dia passado e planejar o dia seguinte. Fazia os registros, conversava um pouco com os companheiros, pensava na vida e antes das 22:00 já estava dormindo. Acordava cedo e despertava lentamente principalmente nos dias frios. Isso fazia muita diferença para meu bem-estar, emoções e resistência.

A mochila cada dia pesava menos, já conseguia erguê-la sem dificuldade. À noite teve muito movimento de ratos no abrigo, mas as coisas estavam protegidas no alto de uma árvore. Um thru hiker northbounder dormiu no abrigo comigo, moleque jovem fedendo a mendigo, o fedor incomodou um pouco.

Comecei o dia às 9:15 com apenas uma camisa de manga curta por causa do calor e para poupar roupa. Sempre que havia água em abundância e não estava frio, eu lavava toda a roupa exceto a calça que lavei apenas três vezes. A calça não sujava! Não encardia nem ficava fedendo, incrível. Rendi bem nesse dia, percurso tranquilo com apenas um trecho muito íngreme antes da firetower na milha 99.8.

A placa solar não conseguia carregar o celular, a carga do J3 estava em 13% e o A5 19%, esse último sem adaptador desde o começo da trilha.

O corpo reclamou pouco nesse dia, mochila mais leve e corpo mais adaptado ao esforço.

As cores estavam fantásticas nesse dia! As árvores, o chão, o céu, tudo mais lindo com o sol de outono nos Apalaches. A vista do Little Ridgepole na milha 95.3 é um dos pontos mais lindos da AT, e com a neblina da manhã, estava sensacional!

Hiking favorece a reflexão, a introspecção. Com a repetição do esforço e estando sozinho, surge um entorpecimento que traz insights, ideias, soluções e DECISÕES!

Tomei várias decisões nesses primeiros 10 dias sobre minha vida.

Dia 11 – 13/10/2017

Caminho dos Apalaches

Foto: Feisty Adventures | https://feistyadventures.com

Decidi diminuir o ritmo para chegar em Nantahala River (milha 136.8) na segunda-feira dia 16/10 sem correr risco de estar tudo fechado no domingo, pois precisava de açúcar mascavo e/ou mel, biscoito integral, pão integral, pasta de amendoim, queijo, chocolate, 10 metros de cordelete, papel e muitas outras coisas caso decidisse mesmo prolongar a jornada!

Ontem dormi sozinho no tosco Rock Gap Shelter milha 105.7 onde cheguei 16:30, pequeno e próximo ao chão. Pendurei as comidas dentro do abrigo mesmo, estava a 200 metros de uma rodovia e duas pessoas acamparam bem próximo, os ratos incomodaram pouco, dormi relativamente bem.

Até essa data não fez frio que incomodasse o sono, o saco de dormir com uma jaqueta e meias grossas de alta montanha deram conta. Por duas noites senti um pouco de calor e abri o saco por algumas horas.

TODAS AS NOITES ÀS 4h O FRIO CHEGAVA FORTE, mas suportável até essa data.

Caminho dos Apalaches

Long Branch Shelter | Foto: https://flatfooting.wordpress.com/

A água nesse shelter era quase gotejante, e eu tinha passado por um outro (Long Branch Shelter) de dois andares com um rio próximo 3,4 milhas (5,47 km) antes, devia ter ficado lá! Não choveu durante a noite, mas amanheceu meio nublado e um pouco frio por volta de 16°C.

Finalmente uma lixeira no estacionamento no Rock Gap milha 105.8, meu lixo já estava volumoso.

Nesse dia o ritmo foi bem lento, apenas 8 milhas (12,87 km), teria tempo para carregar o celular e lavar roupa. O tempo esteve nublado boa parte do dia, não consegui muita carga no celular apenas 3%.

As costas incomodavam um pouco, era por causa do cansaço porque a mochila não estava mais pesada. Pouco antes de chegar no abrigo, avistei três grandes javalis um pouco distante da trilha, mas consegui enxergar os focinhos de porco. Os esquilos que tinham sumido por causa da chuva, reapareceram, vi dezenas.

Cheguei no abrigo às 15:30, deu tempo de lavar todas as roupas, tomar banho e comer com calma. Pendurei as coisas em uma árvore não alta o suficiente.

Dia 12 – 14/10/2017

Caminho dos Apalaches

Siler’s Bald | Foto: https://hikinginthesmokies.wordpress.com

Não dormi bem porque durante a noite caiam nozes no telhado do abrigo constantemente e faziam o maior barulho.

O abrigo Siler Bald (milha 113.2) é muito bom, distante 0,5 milha (804 m) da trilha, está localizado em um platô de uma encosta. Cercado de árvores que formam uma clareira muito bonita com um rio próximo. É um pouco frio devido à altitude, na madrugada deve ter feito 10°C.

Caminho dos Apalaches

Foto: Orlandinho Barros

QUE LUGAR FANTÁSTICO!!!

Muito agradável, bonito, iluminado. Fiquei sozinho desde a chegada ontem até a hora da partida.

Amanheceu com névoa entre as árvores formando um cenário misterioso excelente para fotografar. Consegui um pouco de carga no celular.

Esse abrigo forma um loop equilátero de 0.5 milha (804 m) com a Appalachian Trail. Entrei pelo sul e saí pelo norte.

Caminho dos Apalaches

Foto: http://www.browniebites.net

Parti às 11:30h, logo encontrei um caçador na trilha com um super rifle na mão. Segui mais um pouco e parei para deixar a mochila e atacar o cume do Siler Bald.

Caminho dos Apalaches

Foto: Orlandinho Barros

Depois da descida do cume, cruzei a rodovia no Wayah Gap milha 115.4 e encontrei logo no início da subida um isopor com Coca-Cola, cerveja e barra de cereal deixado por algum Trail Magic, tomei uma cerveja e peguei 2 barras de cereal.

Depois algumas descidas e uma longa e interminável subida até a Stone Tower no topo do Wayah Bald milha 119.6 onde termina uma estrada de asfalto e muitas pessoas vão curtir o visual. No meio da subida parei para almoçar ao lado de uma bica.

Depois da torre é só descida até o abrigo Cold Spring (milha 125.3), segui calmamente. Estava me sentindo muito bem e já começava a planejar o prolongamento da trilha – mais 67 milhas (107,82 km) até a cidade de Hot Springs-NC (milha 273.4), mas iria depender do ressuprimento em Nantahala Outdoor Center, Wesser no dia 16/10/2017.

Cheguei às 16:30 em mais um abrigo bem localizado, piso térreo, privy próximo e água muito distante. Tentei pendurar minhas coisas em uma árvore mas não deu certo, um senhor as colocou no sistema dele.

Tomei banho completo.

Dia 13 – 15/10/2017

Caminho dos Apalaches

F​ontana Dam | Foto: http://www.appalachiantrail.org

Dormi muito bem, sem ratos e com as coisas em segurança. Fiquei sozinho no abrigo, havia apenas uma família de cinco pessoas acampadas em algumas barracas e redes mais distantes. Ganhei uma maçã e uma laranja de presente da família.

Tempo bem nublado e um pouco frio, talvez uns 14°C. Estudei um pouco o roteiro antes de sair às 9:30 e concluí que ia dar para seguir até Hot Springs – milha 273, precisaria de mais 5 ou 6 dias. Faria resupply em Wesser e Fontana Dam.

No estacionamento do Burningtown Gap milha 124.1, deixei na lixeira meu lixo e o que recolhi nos abrigos.

A mochila incomodou um pouco pela manhã, mas depois passou. Vi 3 perus que voaram quando me viram. Foi um tal de põe jaqueta tira jaqueta por causa da instabilidade do tempo, chuva mesmo foi pouco antes da Wesser Bald Observation Tower milha 130.3, faltando 1 milha para o abrigo Wesser Bald (milha 131.1).

16:00 – FELICIDADE – O ABRIGO TINHA BEAR CABLE! Não aguentava mais improvisar cordinhas com fita!

A mesma família de ontem acampou próximo ao abrigo, os meninos usaram rede com cobertura bem bacana. Eles andaram todo o dia ora na minha frente, ora atrás.

Dia 14 – 16/10/2017

Caminho dos Apalaches

Nantahala Outdoor Center | Foto: https://www.glassdoor.co.uk

Muito frio pela manhã, mais ou menos 3°C. O animal que dormiu ao meu lado roncou das 4h às 5h, mesmo assim dormi bem. Iniciei a jornada tarde, às 10:30, porque estava próximo a Wesser e o caminho era só descida com mochila leve. Usei os toes warmers para experimentar, mas não percebi efeito substancial, os pés demoraram a esquentar.

13:30 ao chegar no NOC – Nantahala Outdoor Center –, milha 136.8, demorei para encontrar a hospedagem devido à informação incorreta, fiquei em uma cabine com NADA dentro, exceto a cama, por $46!

Almocei bem no restaurante, botei roupa para lavar (US$ 1,50 + US$ 1 para secar) e fui no posto distante 1 milha fazer mercado por uma estrada perigosíssima, sem acostamento e cheia de curvas. Das coisas que precisava, só não encontrei pão, comprei mel, queijo, biscoito, chocolate, 1 litro de suco de manga. Peguei no correio do NOC o biscoito que comprei na Amazon durante a trilha, mas os adaptadores USB c do celular A5 não chegaram.

Tomei um super banho, jantei meia pizza família no restaurante (a outra metade levei para a trilha) e comprei um taco veggie também para comer na trilha. Não encontrei cartão Verizon para comprar, só tinha $30 de crédito até o dia 24/10.

Arrumei a mochila, carreguei o celular e fiz backup das fotos de um cartão micro sd para outro.

Estava muito frio, à noite chegou a fazer 4°C, mas o quarto estava quente e dormi bem.

Continua na parte 2…

Orlandinho Barros nasceu em 5/7/1965 na Bahia, é pai de duas filhas, formado em TI, morando em Salvador, atualmente dedicado ao trekking. É Explorador de trilhas desde sempre, fazendo quase todas as trilhas clássicas no Brasil em 11 estados, muitas sozinho. Fez 440 km da Appalachian Trail em 2017 em 25 dias. Abriu 305 km da Trilha inédita Brasil Central conectando Brasília a Alto Paraíso em 2016.

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