Appalachian Trail: O diário da travessia feita por um section hiker (Parte 1)

O nível fácil da Appalachian Trail seria algo em torno de 273 milhas (440 km).

Mas por que escrever sobre uma seção da Appalachian Trail se milhares de pessoas, incluindo brasileiros, já a fizeram toda?

Um thru hiker, aquela pessoa que concluiu toda uma trilha longa, não é uma pessoa comum! Nem física, nem emocionalmente. São pessoas extremamente dedicadas, com recursos, muita experiência e com alta resiliência, ou seja, não é para mim!

Já um section hiker, concluinte de parte de uma trilha longa, pode ser uma pessoa comum, sem tantas habilidades. Por isso que escrevo esse artigo, para mostrar como um simples mortal pode fazer uma trilha longa.

Os 440 km que fiz na Appalachian Trail são factíveis para qualquer praticante de hiking, desde que haja preparação adequada.

Para ler o relato completo da preparação, acesse aqui.

Dia 0 – 2/10/2017

O ônibus vindo de Atlanta me deixou em um posto de gasolina a 8 km de Gainnesville (Geórgia) por volta das 16h, paguei US$ 7,00 de Uber até o Hotel Betelgel que estava lotado apesar da reserva no booking.

Me hospedei no Americas Inn em frente por US$ 90,00.

Americas Best Value Inn-Alachua/North Gainesville | Foto: https://www.tripadvisor.com.br/

Estava distante do centro em uma avenida larga meio deserta, saí caminhando até uma lanchonete subway, comi 30 cm de sanduíche e comprei US$ 30,00 de crédito da Verizon mais uma tomada USB. Pedi ao gerente para telefonar no meu celular para um shuttle que cobrou US$ 90,00 para me levar até Amicalola Falls.

Contatei vários outros shuttle via MSN, estava muito ansioso pois transporte não é algo fácil na região.

Finalmente fechei com Ron Brown (706 – 669 0919) que cobrou US$ 80,00 até o estacionamento no Big Stamp Gap distante uma milha da Springer Mountain, início sul da Appalachian Trail.

Estava em um quarto de fumante, mas dormi bem mesmo assim.

Dia 1 – 3/10/2017

Ron, o figuraça | Foto: https://saportareport.com/

Fiz check out e fiquei carregando os celulares até 11:37, quando Ron chegou. Figuraça em uma RAV4 velha, cheia de adesivo da Appalachian Trail. O cabra sabe tudo sobre a trilha, me deu várias dicas. Conversamos bastante.

Seguimos por um labirinto de estradas com 10 milhas de terra no final. Iniciei a subida da Springer Mountain (1.152 m) às 13:00 a partir do Big Stamp Gap na direção sul com a mochila super pesada, por volta de 30 kg. Pensei em deixar a mochila no estacionamento, subir, descer e depois resgatá-la, mas uma pessoa avisou que tinha urso rondando. A partir do estacionamento, vira-se à esquerda, sobe 1 milha, depois retorna ao mesmo ponto e vira à direita em direção ao norte.

Foto: http://alumn.us/

Trilha muito bem marcada e limpa, muito fácil de seguir. Muita emoção iniciando uma trilha de 20 dias nos Apalaches. Vegetação e relevo lembram o cerrado fechado brasileiro, porém as espécies são diferentes.

Muitos esquilos saltitantes animam o passeio. Meu corpo respondia bem ao esforço, ia ajustando a mochila à medida que incomodava.

Cheguei no cume às 13:50 depois de leve e constante subida de uma milha (1,60 km). Saí de lá 14:10, início formal da minha Appalachian Trail section a partir da Springer Mountain. Retornei ao estacionamento e fui seguindo as marcas nas árvores sem consultar o aplicativo my maps.

Em uma das poucas vezes que consultei, indicava que estava fora da trilha depois da Long Creek Falls milha 5.2, voltei uns 200 metros até encontrar uma marca na árvore, eu estava na trilha correta! O tracklog estava errado. Sempre consultava o roteiro impresso da Companion da ALDHA para certificar e ver quanto faltava até a próxima água e/ou ponto de interesse como todo hiker. Temperatura agradável em torno de 20°C, bem sombreado e altimetria suave. Visual repetitivo, porém interessante por ser inédito para mim e também pela paz emanada.

O corpo começou a sinalizar estresse no meio da tarde – isso no PRIMEIRO DIA -, mas o ritmo lento não afetava tanto as estruturas.

Parava a cada 40 minutos/1 hora no máximo, para descansar e hidratar. Mantinha os dois celulares em modo avião com o Samsung J3 com chip Verizon sempre carregando na placa solar na tampa da mochila (quase não carregava por causa da trilha sombreada, pelo menos não descarregava tanto). Sempre encontrava day hikers sozinhos ou em grupos, a trilha cortava várias estradas de terra e se emaranhava com a Benton MacKaye Trail.

Piso de terra com muitas folhas e algumas pedras, várias árvores tombadas e serradas por mantenedores da trilha. Os bastões foram fundamentais por causa do peso da mochila, usava um par de carbono marca REI.

Hawk Mountain Shelter | Foto: http://mywalkontheat.blogspot.com.br

Tinha como meta desse primeiro dia 6 milhas (9,6 km) incluindo o approach de 1 milha (1,6 km), mas considerava fazer 8,1 milhas até Hawk Mountain Shelter. Dormir em abrigo é bem melhor que acampar por causa do risco de ursos e ganho de tempo preparando a barraca, porém ainda não conhecia os abrigos e imaginava que poderia dormir em qualquer local da trilha sem problemas, ledo engano. Estava com o chocalho anti urso pendurado na pulseira do relógio, acabei acostumando com o tlim-tlim inicialmente irritante.

Tudo era novidade, estava bem atento, apesar da longa experiência e muita informação colhida, a aventura era inédita. Estava me sentindo muito disposto e confiante, porém mantinha o ritmo lento para evitar lesões.

Parei para dormir no abrigo Hawk Mountain Shelter as 17:00 (milha 8.1). Havia algumas pessoas alojadas e mais duas barracas nos arredores. Havia um córrego próximo, consegui até tomar banho de cuia. Coloquei minhas coisas no bear box ao lado do shelter, grandes caixas de ferro com fechadura impossível de ser aberta por qualquer animal.

Descobri que perdi o adaptador do carregador do smartphone Samsung A5 que eu usaria apenas para fotografar, então coloquei-o no modo avião e fotografei também com o J3 que carregava na placa solar.

Dormir em abrigo foi a melhor decisão do dia certamente. O conforto relativo, a segurança e a praticidade são superiores à dormida em barraca.

Dia 2 – 4/10/2017

Benton MacKaye Trail

Segundo dia, acordei bem, poucas dores nas pernas, coluna firme. Por falta de informação, cavei um buraco longe do abrigo e fiz minhas necessidades, deveria ter perguntado pelo privy.

Ainda não conseguia erguer a mochila do chão, tinha que sentar, colocá-la e levantar de lado com cuidado. O modelo e marca da mochila eram dos melhores, portanto durante o avanço não incomodava muito. A altimetria ajudava devido a pequena variação. O piso, em grande parte formado por terra coberto por folhas, as vezes com pedras, favoreceu o avanço dentro do planejado.

Iniciei o hiking às 10:00, optei por despertar lentamente e fazer tudo com calma pois queria muito concluir minha trilha. Minha meta era fazer as 207 milhas em 20 dias, o que daria 10,5 milhas/dia (17 km/dia). A ideia era fazer entre 8 e 10 milhas/dia enquanto a mochila estivesse pesada (8 primeiros dias) e depois aumentar o ritmo para 12-14 milhas/dia. Mas ritmo é algo que depende de inúmeros fatores, deve-se decidir na véspera de acordo com o percurso, clima, estado físico, pontos de interesse e pontos de paradas.

Foto: http://walkingtoretirement.blogspot.com.br

Acampei no Woody Gap (milha 20.8) ao lado de uma rodovia com estacionamento e sanitário, a água ficava a uns 200 m da área de camping. Não devia ter avançado tanto, porém me sentia bem e andei até às 18:30. Não tive companhia e ainda tive que pendurar as coisas nas árvores.

Depois dessa experiência, decidi só dormir em abrigos por causa da comodidade, segurança, companhia e disponibilidade de abrigos ao longo da trilha. O ganho de tempo também é fator primordial nos abrigos por não ter que arrumar e desarrumar barraca, e usar os bears cables presente na maioria dos abrigos.

A paisagem é muito linda apesar da baixa biodiversidade e acidentes geográficos. É uma trilha que segue pelos cumes dos Apalaches, por isso as fontes de água são quase todas nascentes. Todo abrigo tem próximo água potável de nascente ou riacho.

Nas três primeiras noites tive muita insônia mesmo tendo dias tranquilos. Com o esforço intenso, o corpo entrou em modo estresse e manteve a vigília apesar da mente quieta. Analisava atentamente todas as sensações, dores e desconfortos, tudo era avaliado e reavaliado a fim de evitar surpresas.

Navegar na Appalachian Trail é muito fácil, além da farta sinalização e quantidade de hikers, o guia da ALDHA é perfeito, pois indica TODOS os pontos de interesse com as respectivas distâncias.

Dia 3 – 5/10/2017

Foto: https://appalachiantrail.com

No terceiro dia (5/10), coloquei esparadrapo em dois dedos do pé direito pois estava muito incômodo. Imaginei que teria problemas com os pés pois estava com uma bota Lowa comprada lá nos EUA em setembro e usada apenas nos parques da costa oeste.

Nesse dia, para compensar a extensão do dia anterior, só saí do acampamento às 11:00, pois só iria fazer 10,6 milhas. Estava ansioso para chegar no Neel Gap (milha 31.4), pois segundo o guia da ALDHA, lá havia hostel e lojinha. Cheguei as 18:20 e, para minha decepção, não havia mais hostel e a lojinha estava fechada. Estar preparado para qualquer situação é regra básica de trilha de longo curso, mas tem momentos que a emoção e o cansaço dominam e a ansiedade cresce.

Tive que aceitar imediatamente a situação e me reprogramar. Então armei a barraca no fundo da loja e fui procurar uma torneira. O celular estava quase sem carga. Consegui uma torneira e uma tomada ao lado da lojinha do lado de fora!

Coloquei o celular para carregar, fiz meu lanche e iniciei o banho de mangueira, porém estava em um mirante e volta e meia chegava uma pessoa para curtir a paisagem. Mesmo assim tirei a roupa atrás de uma bancada e tomei meu banho conversando com um senhor que só me via da cintura para cima. Ele até me deu uma cerveja.

Dia 4 (6/10/2017) e 5 (7/10/2017)

Tray Mountain Shelter | Foto: http://www.wikitrail.org

Saí do acampamento às 10:00, demorei um pouco esperando a barraca secar totalmente. Dormi no abrigo Low Gap Shelter (milha 43), cheguei tarde por volta das 18:30, era sexta-feira dia de abrigos cheios por causa dos day hikers locais, mas não tive problemas com isso.

No quinto dia, 7/10/2017, o tempo estava bom, estava me sentindo bem apesar da insônia, consegui entrar na trilha às 08:20. A mochila ainda estava pesada.

Cheguei no Tray Mountain Shelter (milha 58.3) às 18:20 – tarde.

Peguei a última vaga do abrigo junto com uns adolescentes que estavam fumando e jogando cartas. Choveu no começo da noite e a previsão era de mais chuva no dia seguinte. Planejei ficar todo o dia seguinte no abrigo esperando o tempo melhorar. Pendurei minha roupa molhada no avanço externo do telhado do abrigo, precisava de roupas secas no outro dia. Coloquei as coisas no bear cable. Consegui tomar banho no riacho. À noite chegaram mais pessoas e fizeram uns arranjos com redes dentro do abrigo para caberem todos.

O percurso até aquele momento estava bem repetitivo porém esplêndido, não enjoava de apreciar as florestas temperadas tanto por baixo como nos mirantes. O piso sempre plano com folhas e pedras, vários hikers nos dois sentidos, várias pequenas estradas cortando a trilha, muitos esquilos, trilha limpa com algumas árvores caídas.

Tudo era novidade para mim, estava me ajustando estabelecendo rotinas e criando hábitos. Durante a noite, refletia e programava o dia seguinte, além das tarefas cotidianas de preparar o ninho, alimentar-me e fazer a higiene. A partir do sexto dia consegui sistematizar plenamente o dia e fazer registros mais completos.

Nesse dia encontrei o primeiro sinal dos Trail Angels ou Trail Magic – uma garrafa com bastante água potável ao lado de uma placa no Unicoi Gap milha 52.6.

Dia 6 – 8/10/2017

Previsão de furacão Nate nos Apalaches! Minha ideia era ficar todo o dia no abrigo com aqueles garotos fumantes, mas amanheceu sem chuva, apenas nublado, então resolvi seguir e arriscar apesar da certeira previsão. Vesti a roupa que encharcou durante a noite no avanço do abrigo e parti para a trilha com destino ao primeiro hostel, seriam 13 milhas (21 km) em piso encharcado, mas iria dormir em cama e ressuprir.

Logo começou a chuva, o piso ficou muito escorregadio, tive que diminuir o ritmo.

FORTES VENTOS com chuva, tive muito cuidado para não receber uma árvore na cabeça. As altas árvores dos Apalaches não possuem raízes pivotantes porque o solo é raso e pedregoso, qualquer coisa elas tombam, tem muitas árvores caídas ao longo de toda a trilha.

Impressionante a força do furacão, ventos fortes e barulhentos, era assustador. Às vezes eu pensava que eram caças sobrevoando. Estava bem protegido da chuva, porém todo molhado. Não fazia frio, talvez 16°C. Encontrei poucas pessoas na trilha naquele domingo.

Top Georgia Hostel | Foto: Carey Kish – http://mainetoday.com

Desci até o Top Georgia Hostel 0,5 milha pelo acostamento da rodovia US 76, cheguei já à noite todo molhado, coloquei tudo para secar, comi uma pizza de 13”, tomei banho, lavei roupa no box, tirei o esparadrapo dos dedos dos pés, carreguei o celular e atualizei as redes. Pretendia ficar mais uma noite, mas não é permitido para os hikers.

Hostel maravilhoso, muito aconchegante, limpo, tem sabonete, xampu, barbeador, toalha, loja de equipamentos e suprimentos, bunkers com refugos de hikers – alimentos, utensílios, roupas e sapatos. Peguei um pouco de comida e um cortador de unha.

Dividi o quarto de dois beliches com um casal silencioso.

Continua na parte 2…

Orlandinho Barros nasceu em 5/7/1965 na Bahia, é pai de duas filhas, formado em TI, morando em Salvador, atualmente dedicado ao trekking. É Explorador de trilhas desde sempre, fazendo quase todas as trilhas clássicas no Brasil em 11 estados, muitas sozinho. Fez 440 km da Appalachian Trail em 2017 em 25 dias. Abriu 305 km da Trilha inédita Brasil Central conectando Brasília a Alto Paraíso em 2016.

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