Apenda a lidar com a ansiedade do desempenho

Uma das maiores distrações da nossa atenção durante competições de escalada ou tentativa de cadenas é a ansiedade da performance, ou desempenho. Se amamos escalar, então por que estaríamos ansiosos sobre nossa performance? A resposta curta é: estamos ansiosos por não saber se vamos ou não atingir um resultado final, ansiosos pelo estresse que iremos experimentar, e que efeito nossa performance terá em nossos egos.

A resposta longa requer que nós entendamos a ciência do cérebro e como a mente está fora de sincronia com como o cérebro funciona. Entraremos neste assunto nas duas lições seguintes. Esta lição nos dará um entendimento intelectual deste processo; a lição seguinte nos dará um entendimento com experiência dele.

Vamos ver como o nosso cérebro funciona. Duas frases se tornaram populares nas pesquisas do cérebro:

  • Os neurônios que se ativam juntos, se ligam juntos (os neurônios se ativam cada vez que fazemos uma ação, criando uma rede neural que cria um hábito).
  • Use-o ou perca-o (se paramos de usar a rede neural, a perdemos; ela se deteriorá).

Mas há novas pesquisas que são baseadas nestes dois pontos. Têm a ver com a mielina, a membrana que cobre os neurônios. A mielina é como o isolamento de um fio elétrico. Ela mantém as cargas elétricas e evita que elas vazem do neurônio e também acelera o sinal para a sinapse. Cada vez que fazemos uma ação, a mielina adiciona uma membrana ao neurônio.

Há alguns pontos importantes sobre como a mielina trabalha. É demorado, requer estresse, e é um processo. É demorado, pois cada camada de mielina é fina. Ela precisa de muitas camadas para diminuir os vazamentos e acelerar o sinal elétrico. Isso requer estresse. O aumento de camadas de mielina não acontece quando estamos em nossas zonas de conforto.

A mielina é estimulada para envolver os neurônios em resposta do estresse. Finalmente, é um processo que ocorre nos momentos que estamos inseridos no estresse, não quando estamos em um resultado final confortável.

Agora, pense em como a mente funciona. Ela tende a trabalhar ao contrário de como o cérebro e a mielina funcionam. Ao invés de lentidão, estresse e processo, a mente é orientada à velocidade, ao conforto e a resultados finais. A mente quer fazer progresso rápido e atingir resultados finais, e estar confortável fazendo-o. A mente é totalmente desalinhada com a forma como o cérebro funciona.

Foto : http://cienciasecognicao.org

Foto : http://cienciasecognicao.org

O treinamento mental deve trabalhar este desalinhamento. Ele deve deslocar a motivação das pessoas do rápido, confortável e dos processos finais para o lento, o estresse e para o processo. Portanto, como fazemos tal treinamento mental? Primeiro, devemos entender como o cérebro funciona. Esta compreensão de como os neurônios ativam e como a mielina adiciona camadas de membrana nos dá evidencias para como devemos fazer nosso treinamento mental.

A seguir, precisamos estar conscientes de que a mente está de forma contrária em relação a como o cérebro funciona. Podemos determinar quão desalinhada a mente está assessorando o que nos motiva. Estamos motivados por fazer progresso rápido, atingir resultados finais e pelo conforto? A maioria das pessoas sim, porque elas nunca examinaram suas motivações. Finalmente, devemos aplicar este realinhamento quando escalamos para dar apoio a como o cérebro funciona.

Vamos ver como aplicar este processo na próxima lição, já que esta trata do componente experimental de lidar com a ansiedade pela performance. Nesta lição, faremos o treinamento mental; cavaremos mais fundo para entender intelectualmente como fazer esse deslocamento mental em nossa motivação.

O ego é primeiramente responsável por esta tendência de conforto, rapidez e resultados finais. O ego senta em um trono de auto importância e super-identificação com nossa historia pessoal. Ele cria uma identidade baseada em nossas conquistas. Nos sentimos importantes por essas conquistas ou não-importantes se nossas conquistas não se comparam ao que os outros já fizeram. Atingir resultados finais, rapidamente, é o que o ego deseja. O problema com o ego é que ele nunca está satisfeito. Ele esta constantemente em um jogo de comparação.

Quando conseguimos escalar 9º grau, nos sentimos importantes até nosso ego começar a procurar o 10º grau. Quando somos o melhor escalador em nossa área local, nos sentimos importantes, até um escalador melhor chegar. O ego está constantemente subindo no trono e sendo derrubado dele.

O treinamento mental precisa destronar o ego. Nós destronamos o ego ao deslocar para a motivação intrínseca. Este tipo de motivação valoriza um processo de aprendizado lento e estressante. Queremos estar no estresse que ocorre durante a escalada, porque não há outro cugar que preferimos estar. Valorizamos a lentidão, para que a pressa? Estamos aproveitando o processo da escalada em si.

Queremos estar no processo de escalada, mais do que em um resultado final. Precisamos investigar nossa motivação. Fazer isto traz a motivação para nossa consciência. Desta consciência vemos o jogo de comparação do ego como algo fútil. Podemos então identificar os aspectos intrínsecos da escalada que valorizamos e começar a focar neles.

Não estou sugerindo que atingir resultados finais seja errado. Identificar as metas finais pode guiar nossas ações. Mas, uma vez que a meta esteja estabelecida, precisamos estar extremamente receptivos ao processo de aprendizado que nos leva para lá. Essa é a viagem que precisamos fazer e aproveitar o caminho. É isso que compõe a maior parte de nossas vidas de escaladores e o que dá suporte à forma como o cérebro funciona.

Ao fazer o deslocamento mental do veloz, confortável e resultados finais para o lento, o estresse e os processos nem precisaremos focar em lidar com a ansiedade de performance. Nos deslocamos para um lugar aonde não existe a ansiedade por performance. Isto é um treinamento mental efetivo. Ao invés de usar truques e técnicas para lidar com um problema, nos deslocamos para um lugar aonde o problema não existe mais.

Fazer isto liberta nossa atenção para focar na performance como um todo. Não queremos alcançar um resultado final rápido e confortável; queremos experimentar um processo lento e estressante. Queremos experimentar a competição ou a tentativa de cadena porque não há outro lugar que preferimos estar.

Dica Prática: Destrone o ego

Você tem um ego; você não pode se livrar dele. Porém, você pode diminuir sua influência negativa. O ego vive em um trono de auto importância e super-identificação com nossa historia pessoal. Para destronar o ego você deve olhar para sua importância e historia pessoal de forma diferente.

Auto importância: Você tende a se sentir mais ou menos importante do que os outros. Isto está baseado em evidências externas, tais como quão duro você escala ou o que você já conseguiu atingir. Ao invés de se sentir importante em relação aos outros, veja-se como igualmente importante. Veja-se desde uma perspectiva interna, como um ser humano, igualmente importante.

Super identificação com sua historia pessoal: Você tende a se identificar com o que você atingiu e se apegar a isso para ter um senso de ser. Ao invés disso, use sua historia pessoal como um trampolim para as metas futuras. Você aprendeu algo das suas conquistas anteriores. Agora, como você pode construir e crescer com o que você aprendeu?

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em : http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês : Gabriel Veloso

Sobre o Autor

Arno Ilgner

Arno Ilgner

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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