Saiba quais são os materiais recomendados pelo UIAA para ancoragens próximas ao mar

Toda e qualquer pessoa que abre uma via de escalada próxima ao mar tem sempre uma preocupação em mente: que tipo de material tem de usar e qual devo evitar.

Somente no Brasil há duas três grandes cidades que são centros de escalada: Rio de Janeiro, Florianópolis e Vitória. Seguramente há inúmeras outras, como Guarujá-SP, que tem pouco volume de vias e por isso não são conhecidas. Afinal o Brasil possui um litoral com 7,4 mil km de extesão.

Este tipo de dor de cabeça não é exclusividade brasileira, esta realidade há em várias cidades costeiras do mundo.

Exatamente por isso o Union Internationale des Associations d’Alpinisme (UIAA) desenvolve constantemente estudos sobre materiais e corrosão. Formada em 1932 em Chamonix, a organização possui 88 associações integrantes, oriunda de 76 países diferentes.

Estudos de materiais

Existem diversos tipos de materiais para conquistar uma via de escalada em se tratando de proteções. Cada uma das proteções possui um tratamento anticorrosão: zincado, galvanizado, 304L , 316L , Titânio, etc. Cada fabricante escolha qual a melhor tecnologia para que, ao final do processo construtivo, determine o preço ao cliente.

Entretanto a interação do material da ancoragem com outro material como uma arruela, ou mesmo com o meio ambiente, faz com que as propriedades químicas e físicas mudem. Em termos gerais é dizer que esta interação significa em oxidação, que é o principal fator de corrosão de uma ancoragem.

O UIAA realizou vários estudos em ancoragens em todo o mundo, chegando à conclusão de que em peças com tratamento 304L ou 316L (considerados ideais para proteções que enfrentam maresia) a corrosão ainda ocorria de maneira acentuada. O estudo está disponível para a verificação do público. A entidade mantém ainda uma página disponível com todos os estudos relevantes que a empresa realizou em locais de escalada em todo o mundo.

Materiais recomendados

O material mais recomendado para equipar vias à beira mar é o titânio, um produto que possui maior resistência à corrosão no mercado. Mas é importante também prestar atenção ao tipo de titânio usado.

As ligas de titânio são classificadas de acordo com a concentração de elementos de liga adicionados para modificar sua microestrutura e propriedades mecânicas.

  • Titânio Grau 1 – Possui as menores concentrações de oxigênio intersticial e Ferro residual. O oxigênio atua como um agente endurecedor e o ferro é um refinador dos grãos e diminui o endurecimento do material. Titânio grau 1 possui a menor resistência mecânica, porém apresenta alta ductilidade e facilidade para trabalho a frio.
  • Titânio Grau 2 – É amplamente utilizado pela indústria em virtude de suas propriedades equilibradas de resistência mecânica e ductilidade. Titânio 2 possui resistência mecânica semelhante ao Aço inoxidável comum.
  • Titânio Grau 3 – Possui resistência mecânica um pouco maior que o grau 2, em razão da maior concentração de oxigênio e Nitrogênio intersticial, porém sua ductilidade está abaixo dos demais
  • Titânio Grau 4 – Apresenta a maior resistência mecânica do grupo do titânio puro, sua utilização ocorre principalmente pelas indústrias aeronáutica e aeroespacial

De acordo com o UIAA o material mais indicado para equipar vias à beira mar é o Titânio Grau 2. Graus superiores a 2 serviriam perfeitamente para a escalada, entretanto são mais caros e tornariam a conquista da via inviável e onerosa. Portanto ancoragens de titânio são reconhecidamente, por conquistadores experientes além de estudiosos do assunto, o produto com maior resistência à corrosão no mercado.

O ponto negativo a respeito do titânio está na sua disponibilidade, pois não é qualquer metalúrgica que fabrica uma chapeleta com este material. Desta maneira a disponibilidade é considerada uma grande desvantagem. Desvantagem porque muitas associações de escalada acabam fazendo vista grossa para conquistas de vias à beira-mar.

Uma alternativa ao uso às chapeletas de titânio foi o fabricante espanhol de chapeletas Fixe lançou no mercado. O produto consegue ter o dobro da resistência à corrosão que o 316L. Batizados de PLX High Corrosion Resistant, foi recebido com alegria pela comunidade. Isso porque o seu preço fina ao consumir, se comparado às chapeletas de titânio é menor.

  1. Apresentaram um aumento significativo da força sobre chapeletas 304L e 316L. Isso significa que mesmo com a mesma geometria, as partes possuem muito menos probabilidades de falha por cargas externas. Estas partes são mais resistentes a desgaste por tempo de uso, tornando-se mais seguras que o geral.
  2. A liga PLX High Corrosion Resistant possui um revestimento otimizado para diversos usos ao ar livre. Por local live considere lugares próximos ao mar, visto que é mais resistente à corrosão que as de aço inoxidável convencionais, incluindo o 316L.
  3. A resistência mecânica é superior ao titânio utilizado comumente em chapeletas e, claro, também acima do 304L e 316L.
  4. Quanto à corrosão, o produto ainda é inferior ao titânio, mas é o dobro dos valores que 316L e 304L

Mas o fator preponderante ao comparar os materiais utilizados em chapeletas é que o preço do PLX HCR está ao mesmo valor que 316L.

A Petzl também lançou um produto semelhante ao da Fixe: Coeur Bolt HCR. Entretanto, basta visitar ao site da Petzl para entender porque o produto não é tão popular: seu preço.

Para ter acesso à documentação da Fixe: http://www.fixeclimbing.com

O recall da Fixe

Um recall é uma solicitação de devolução, por parte do cliente, de um lote ou de uma linha inteira de produtos feita pelo próprio fabricante. Geralmente, isto ocorre pela descoberta de problemas relativos à segurança do produto. Foi exatamente isso que aconteceu com o produto da Fixe em outubro do ano passado.

O próprio UIAA se preocupou em fazer o anúncio. Tanto conquistadores, quanto as associações e entidades de classes que representam os escaladores, se encarregaram em trocar as chapeletas. Neste aspecto não houve muita discussão, pois era um problema de segurança sério, não somente um aspecto sociológico para discutir.

De acordo com o comunicado liberado para a imprensa e comunidade de escalada, a Fixe detectou, por meio de testes em laboratório, que havia uma tendência à oxidação quando instalada em “ambientes marinhos” (locais com maresia).

Entretanto não foram em todas os produtos fabricados, mas em um determinado lote de Fixe-1 PLX. O defeito foi detectado no lote de produtos entre 0116 e 2216.

Para maiores informações sobre o recall: http://www.fixeclimbing.com

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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