Alongamento na escalada vista desde uma perspectiva fisiológica

Sabia que a maneira que alonga antes de escalada pode diminuir sua força e reduzir seu desempenho?

Todos aprendemos que ao praticar algum tipo de atividade física devemos realizar alongamentos na maioria dos músculos envolvidos devido aos benefícios sobre o sistema músculo esquelético.

Frequentemente a maioria dos escaladores, e escaladoras, realizam os alongamentos antes, durante e depois de escalar.

Entretanto pouco, ou nada, de informação existe a respeito de qual é a estrategia de alongamento mais adequada na hora de realizar atividade física e em especial na escalada.

Segundo últimos estudos:

… a rotina ideal a iniciar uma atividade física deveria ser incluir exercícios de mobilidade e elasticidade, e não de alongamento estático prolongado, devido ao fato que este tipo tradicional de alongamento produz uma redução da atividade neuromuscular do músculo alongado, o qual é totalmente oposto ao que se pretende utilizar no aquecimento e certamente prejudicial para um bom desempenho esportivo.

(McArdle W. Fisiologia do Exercício, Pág. 321)

Para poder entender qual seria a estratégia ideal de alongamento devemos fazer uma revisão à respeito dos componentes anatômico funcionais envolvidos no alongamento.

O que alongamos quando alongamos?

A resposta mais lógica é “músculos”, entretanto há muito mais em jogo.

Em termos mais amplos, o sistema músculo-esquelético é composto de ao menos três tipos de tecidos: muscular, conjuntivo (tendões e fáscias) e nervoso, portanto ao executar alongamentos é gerado efeitos nos três tecidos que se encontram intimamente relacionados.

O tendão possui um receptor mecânico (McArdle W. Fisiologia  do Exercício, pág. 323-324) “corpúsculo tendinoso de Golgi“, que entrega informação à respeito da quantidade de tensão que as estruturas contráteis estão suportando, e assim provocando um ligeiro crescimento das fibras musculares quando são submetidas à uma tensão prolongada, o qual traduz em uma diminuição do tônus muscular.

O músculo esquelético possui dois receptores mecânicos: o “Fuso muscular” que provê a informação a respeito das mudanças na longitude do músculo, ajustando sua tensão por ação relaxante diante a um aumento ou diminuição repentina da magnitude da carga que se encontra suportando, ajustando o nível de tensão muscular necessário.

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Por último se encontram os Corpúsculos de Pacini, os quais detectam variações de movimento ou de pressão dentro do músculo.

Tanto o fuso muscular como o corpúsculo tendinoso  de Golgi compartilham a mesma via nervosa, pela qual a informação de ambos receptores se complementam para iniciar a ativação ou inibição muscular.

Estes receptores mecânicos então regulam a ativação ou inibição do sistema neuromuscular de maneira que conhecendo seus efeitos podemos programar estratégias de alongamento para a escalada que potencializam o desempenho esportivo.

Por exemplo, dado que o Corpúsculo Tendinoso de Golgi gera um relaxamento das fibras musculares devido ao aumento prolongado da tensão sobre o tendão e músculo (tanto por magnitude quanto por tempo de exposição a uma força tensora) para que o resultado dos alongamentos tradicionais ao inicio da atividade física provocam uma diminuição da atividade das fibras musculares (tono muscular) e um aumento temporal deles, provocando assim momentaneamente uma menor capacidade de aplicação de força muscular.

Outro exemplo que ilustra este efeito no momento que ocorre uma câimbra muscular, o procedimento para controlar-lo é alongar o músculo em questão, o que leva a que as fibras que estão sendo contraídas sem controle deixem de estar através de um relaxamento de tais fibras produto de alongamento ativo do músculo.

Por outro lado, tanto o fuso muscular como os Corpúsculos tendinosos de Golgi irão gerar uma aumento da atividade neuromuscular a serem estimulados com movimentos amplos da velocidade média, aplicando tensão externa (alongamento) de duração maior que 5 segundos e movimentos repetitivos de baixa a média intensidade, os quais permitirão uma preparação não somente dos músculos envolvidos como também das articulações que participam destes movimentos.

Este tipo de estratégia de estiramentos deveria ser aplicada no inicio e durante a preparação para a escalada se quer alcançar um maior desempenho esportivo.

Por último, tendo em conta os efeitos da aplicação de tensão prolongada sobre o tecido muscular, os alongamentos tradicionais deveriam ser aplicados ao finalizar a sessão de escalada, para permitir um relaxamento das fibras, e uma rápida recuperação do nível de funcionamento muscular normal, assim como aumentar o raio de mobilidade articular a médio prazo.

Artigo escrito por: Patricio Paredes Brunet, Licenciado em educação Física PUCV, Diplomado em Exercício, Nutrição e Saúde pela Universidade de Chile. Escalador e Montanhista

Tradução autorizada de: http://soloboulder.com/

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