Jogos, Trapaças e Algumas Agarras Cavadas

Pessoas começam a escalar ou subir montanhas pelas mais variadas formas ou motivos. Podem morar perto de algum pico, ter um amigo ou primo que já escala, podem começar numa academia ou muro de escalada ou podem buscar cursos ou clubes. Os anseios por trás dessa vontade de subir e descer coisas têm motivos variados demais para listar aqui. Junto com as técnicas, o conhecimento de equipamentos, a noção geográfica dos melhores locais para a prática, as gírias e palavreados, invariavelmente em algum momento todos escaladores irão entrar em contato com histórias fantásticas de homens, mulheres e montanhas, de explorações, de acidentes, de sobrevivência, de pioneirismo e de glória.

Que escalador ou escaladora nunca ouviu falar da história onde o escalador Simon Yates foi obrigado a cortar a corda que sustentava dependurado seu parceiro Joe Simpson, obrigando este a rastejar com uma perna quebrada por dias entre gretas e morainas para enfim retornar ao acampamento.

Quem nunca esbarrou na foto que Sir Edmund Hillary tirou do grande Sherpa e escalador Tenzig Norgay com um aspecto de astronauta no cume até então virgem da maior montanha do nosso planeta, o Everest?

De rivalidades como a dos ingleses contra os noruegueses na corrida para serem os primeiros seres humanos a pisarem no Polo Sul, personificada nas expedições de Ernest Shackelton, Robert Falcon Scott e Roald Amundsen, histórias que ultrapassam as barreiras do mundo de aventura para o mundo empresarial como estudos de caso sobre liderança, administração de recursos e processos de tomadas de decisões.

A tranquilidade de Alex Honnold em suas escaladas solo ou os gritos de Adam Ondra escalando as vias mais difíceis do mundo, características de verdadeiros mestres do esporte.

Não é preciso muito esforço para ter contato com estas e centenas de outras histórias inspiradoras, emocionantes, histórias que fazem jus a esta nobre atividade que escolhemos praticar. São como histórias que ouvíamos de nossos pais e avós quando éramos pequenos e que nos lançavam para um mundo de imaginação antes de dormir. Hoje muitas vezes vamos atrás destes relatos para escolher a próxima aventura, as vezes de modo que pudéssemos pisar nas pegadas destes gigantes e sentirmos ainda que por instantes na pele deles.

Realmente a vida é bela para nós escaladores e em geral quem não adentra muito nesse nosso mundo pode viver desta forma por muito tempo. Um dia, no entanto, e com a mesma certeza descrita acima, vamos perceber que nem tudo nesse meio é glória e que nem todos nesse meio são heróis. Esse momento pode de certa forma ser descrito como o sentimento de uma criança que percebe que Papai Noel não existe. É um despertar para o mundo adulto, cínico, egoísta, mesquinho e triste.

Nos deparamos com relatos questionados e incompletos de conquistas, como da história de Cesare Maestri no Cerro Torre (3.128 m), na época considerada talvez a montanha mais difícil do mundo. Após um acidente que levou a vida de seu parceiro Toni Egger, Maestri voltou reivindicando a conquista do cume sob condições terríveis e sem testemunhas ou fotos. Este mesmo acabou voltado para o Cerro Torre munido de um arsenal quase de guerra para chegar ao cume e evidenciar sem sombra de dúvida. Em 1970 acabou furando a parede final com mais de 450 grampos para ascensão em artificial (sem utilizar contato direto das mãos e pés com a rocha) utilizando um pesado compressor a ar, praticamente fabricando uma escada ao cume. Uma atitude muito mal vista no nosso meio e de um impacto tremendo nesta montanha que vai contra quase todos conceitos éticos de esclada mesmo daquela época, inclusive abandonando o tal compressor grotescamente no final da parede onde se encontra até hoje. Algo como o cume a qualquer preço.

Em 2012 os jovens e excepcionais escaladores Hayden Kennedy e Jason Kruk conseguiram escalar o trecho final da montanha em livre, feito inacreditável que logo foi obscurecido por uma atitude também eticamente reprovável e extremamente desrespeitosa, que foi a escolha cortar praticamente todas as chapeletas que Maestri havia colocado. Este ato transcorreu sem autorização alguma por parte da comunidade local ou da família de Maestri e gerou protestos e discussões por toda parte.

A prática de escalar algo e não conseguir (ou não querer) comprovar é extremamente presente no nosso meio, principalmente quando falamos de alta montanha acima dos 8.000 metros e dos 7 cumes. Estas expedições tendem a ser extremamente caras e demandam dos escaladores esforços de marketing para buscar patrocínio e financiamento. Não alcançar o cume não só significa um fracasso pessoal mas um fracasso financeiro e institucional que pode comprometer futuras empreitadas. Este talvez é o lado mais perverso do montanhismo de ponta, a exigência de se ter retorno financeiro sobre uma atividade que busca mais do que tudo a liberdade.

Da lista de pouco mais de 40 escaladores que atingiram todos os 14 cumes acima de 8.000 metros encontramos disputas em cerca de 10% dos nomes. Uma figura que emergiu dessa realidade foi a grande Elizabeth Hawley, falecida ano passado, uma jornalista que apesar de nunca ter escalado uma montanha se tornou a referência em investigar reivindicações de cume nos 8.000’s.

Desvendou várias falcatruas inclusive casos onde até o software Photoshop foi utilizado por escaladores trambiqueiros para comprovar escaladas que não existiram. Infelizmente, e acredito que até sem surpresa, temos também alguns brasileiros com escaladas contestadas e atitudes não particularmente honrosas. Numa montanha em algum lugar dos Andes muitos anos atrás eu já tive o desprazer de ouvir de uma pessoa que estava escalando comigo a famigerada frase: “vamos falar que escalamos” depois de optarmos por desistir da empreitada por conta de uma nevasca. Com mistura de tristeza e decepção esse episódio me jogou de cara no realpolitik da escalada.

Falando de brasileiros temos exemplos tremendos de humildade e heroísmo, como quando Paulo e Heleno Coelho abdicaram de sua única janela de cume numa tentativa de escalar o Monte Everest (8.848 m) em estilo alpino e independente (sem O2, sem sherpas ou infraestrutura contratada), para auxiliar o escalador português João Garcia que se encontrava em maus lençóis com extremidades congeladas e dificuldade para descer da montanha. Em contraposição a história de Paulo, Helena e João, temos a trise história de David Sharp, que teve problemas próximo ao cume da mesma montanha. Ele foi ultrapassado com vida por dezenas de escaladores que estava a caminho ou já voltando do cume mas poucos se propuseram a parar e nenhum se propôs a ajudar o britânico que acabou falecendo naquele local.

A própria presença humana em montanhas e locais de escalada tem gerado enormes problemas tanto de cunho ambiental como cultural. Vemos depósitos intermináveis de garrafas de oxigênio que são simplesmente jogadas no chão e deixadas para trás por expedições e escaladores, estes mesmos que também deixam toneladas de cocô por onde passam. São poucas as montanhas onde existe exigência de se trazer os dejetos de volta, e mesmo nessas é comum vermos atitudes para burlar estas exigências.

Temos tido diversos incidentes nos últimos anos envolvendo escaladores e proprietários das terras onde as paredes se encontram. Falta de respeito com regras, som alto, cachorros soltos, cigarro, drogas e até incêndios provocados por escaladores em propriedades alheias tem gerado muitos desentendimentos e fechamentos de lugares fantásticos.

Problemas também têm aparecido de ditos profissionais que vendem serviços ilegais em locais de escalada, como a venda in loco do “uso” de uma corda, para se passar pela parte mais vertical da trilha da Pedra da Gávea no Parque Nacional da Tijuca, local conhecido como Carrasqueira. Outras empresas vendem o pernoite neste cume, também proibido por lei.

Agarras cavadas no Brasil

Platô da Lagoa – Rio de Janeiro | Foto: Fernando Abdalla

No último ano temos visto o estouro de uma nova modalidade de trapaça e mesquinhez no mundo da escalada, não só no Brasil mas em vários locais de escalada pelo mundo. Principalmente em vias esportivas mas não restrito a estas. É o ato de usar ferramentas como talhadeiras, furadeiras e picaretas para cavar agarras na rocha de maneira definitiva e diminuir a dificuldade de vias já estabelecidas e encadenadas (que já foram escaladas por escaladores de forma perfeita, sem quedas).

Muitas vezes uma pequena alteração em um ponto específico de uma escalada pode alterar drasticamente o grau da via. De um ponto de vista individual, isto torna a via mais acessível a escaladores de graus inferiores aos exigidos por tais vias. Olhado do lado comercial, pode facilitar a vida de guias que querem levar clientes a escaladas mais complicadas que poderiam exigir manobras mais elaboradas destes profissionais. Com agarras cavadas tudo fica mais fácil. Tivemos vários casos em locais privilegiados de escalada como na Serra do Cipó e na cidade do Rio de Janeiro em montanhas como o Pão de Açúcar e Pedra Bonita.

Via Leonel Terray – Rio de Janeiro | Foto: Flavio Leone

De maneira alguma o ato de alterar as características da rocha é novidade no munda da escalada. Conquistadores abrem vias usualmente colocando grampos e chapeletas com parabolts em furos feitos na rocha em lugares chave para dar segurança a escalada. Essas proteções fixas modificam para sempre aquele pedaço de rocha. Mesmo proteções móveis, que são colocadas pelo guia em uma escalada e retiradas pelos participantes uma vez vencida aquela enfiada (camalots, nuts, pítons, etc) podem causar danos a rocha, principalmente em locais onde predomina rochas mais “moles” como o arenito.

Pitons, que foram a base para a idade de ouro da escalada de grandes paredes no Yosemite e outros locais ao redor do mundo, danificavam permanentemente fendas mesmo em rocha dura como o granito, gerando “cicatrizes” bem características. Também é comum em certos lugares, com rocha mais quebradiça, de “limpar” a via para evitar quebras de agarras e acidentes nas repetições destas.

A ética do mínimo impacto aliada a novas tecnologias de equipamentos tem estabelecido parâmetros para que escaladas sejam feitas da maneira menos agressiva a rocha e ao ambiente possível. Proteger fendas com grampos e chapeletas já foi aceitável num Brasil fechado para a importação pela falta de acesso que os escaladores daqui tinham aos equipamentos móveis que só existiam nos EUA e Europa. A abertura comercial brasileira nos anos 90 ajudou muito a retomarmos uma ética menos invasiva nas escaladas, várias vias foram repensadas e tiveram suas proteções fixas removidas onde era possível proteger em móvel (como a bela “Fissura Corneto” no Bauzinho em São Bento do Sapucaí), já outras ainda mantém um certo anacronismo pelo valor histórico da via (como a ultra clássica “K2” no Corcovado) onde temos uma fenda linda na primeira enfiada, passível de ser totalmente escalada em móvel mas ainda protegida por grampos.

Platô da Lagoa – Rio de Janeiro | Foto: Fernando Abdalla

A falta de condições, limitação de equipamentos ou até falta de locais para praticar uma certa modalidade de escalada no passado causaram ruídos que sentimos até agora em certos lugares. Um dos locais mais clássicos de esportiva no Rio, o Platô da Lagoa, teve várias vias praticamente fabricadas com agarras cavadas por ocasião de um campeonato organizado ali no começo dos anos 90 e da vinda de estrangeiros que encorajaram essa prática como uma ponte entre vias fáceis e vias muito difíceis para os escaladores da época.

As vias (do 7b ao 9º brasileiro) seguem furadas e são interessantes e ótimas para treinos, mas realmente sentimos uma certa estranheza ao colocar os dedos em buracos claramente fabricados. É uma alegria saber que outros points foram descobertos pela cidade maravilhosa onde esta prática não foi empregada. No Visual das Águas, local de escalada esportiva próximo de Bragança Paulista em São Paulo, a “Via da Roubada” ou “Via do Teto” chegou a ter até agarras de resina. Há tempos as agarras foram removidas e a via é escalada apenas em artificial A1.

O fato é que hoje os escaladores são mais fortes, os equipamentos são mais leves e acessíveis e existem cada vez mais locais de escalada pelo mundo. Isso tem permitido uma evolução tremenda no esporte. Esta evolução, no entanto, sempre dependeu de gênios virtuosos que se destacavam em suas gerações escalando linhas e fazendo projetos que para a geração anterior pareciam impossíveis. Escaladores de elite por vezes ficam anos tentando escalar movimentos individuais para finalmente conseguir a cadena completa da via. Ver o esforço, os gritos, o sofrimento e a dor envolvida neste processo é vivenciar o que a escalada pode ser. O caminho deve ser este e a evolução parece um motivo de fácil compreensão para que atos como o de cavar agarras fossem banidos para sempre do nosso esporte. Então por que é que estamos vendo não só vias novas sendo abertas com agarras cavadas mas, o que é pior, vias antigas e clássicas com centenas de repetições e até vias de graus “fáceis” estão sendo cavadas?

De certa forma estamos vivendo um retorno a velhos problemas, rediscutindo dilemas, temas e conceitos já aceitos e concordados a décadas. Assuntos como ética, respeito, empatia, amor ao próximo e ao meio em que vivemos. Estamos tendo de explicar tudo de novo para um mundo interessado no imediatismo, na foto perfeita para a mídia social, e na vontade constante de pular etapas para chegar onde for.

Quem ainda cava agarras?

Não é difícil encontrar ecos destes problemas em outras esferas das nossas vidas e da nossa sociedade atualmente. Temos vozes extremamente potentes contrárias a muito do que a escalada e o montanhismo simboliza. É certo que sempre houve idiotas, trapaceiros e gente geralmente desagradável no mundo. O crescimento do montanhismo e da escalada, infelizmente, significa que uma parcela maior deste tipo de pessoas invariavelmente vai adentrar o nosso meio. Mais do que nunca cabe a nós batalhar contra atitudes como estas, não jogando pedras e dando pauladas em escaladores mal-educados mas chamando eles para conversar, falando sobre mínimo impacto, falando sobre respeito, sobre a história desta nossa atividade, falando sobre os nossos heróis do passado e do presente, mantendo viva a chama quintessencial de coexistência entre pessoas e a natureza.

Muitas vezes a falta de informação leva as pessoas de boa índole a fazer coisas desagradáveis, como cavar uma agarra para terminar uma via e contar para os amigos, ou postar numa rede social. Invariavelmente acaba recaindo sobre federações e clubes a necessidade de atitudes de cunho educativo e de promover ações e mediações entre os escaladores. Instituições como a CBME (Confederação Brasileira de Montanhismo), FEMERJ (Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro), assim como a AESC (Associação de Escaladores da Serra do Cipó), entre outras, tem divulgado notas de repudio a estas atitudes buscando conscientizar os escaladores para conceitos de mínimo impacto e fair play.

Muitas outras instituições também têm participado ativamente deste movimento com oficinas, palestras e publicações. Penso no entanto que temos que puxar um pouco a responsabilidade para nós mesmos, escaladores individuais! Promovendo bate papos, debatendo conceitos entre uma escalada e outra, essencialmente mostrando como quando jogamos limpo as coisas podem ser mais difíceis porém sempre mais interessante. Foi encarando de frente as dificuldades apresentadas pelas rochas que grandes linhas de escalada foram traçadas por visionários do esporte. Da mesma maneira podemos elevar isto um pouco mais filosoficamente as nossas vidas.

Dificuldade é o que nos fez chegar onde estamos! Assim crescemos, assim nos tornamos melhores escaladores e melhores pessoas. Aliás, por que diabos escolhemos uma atividade que nos faz passar medo, viver com machucados, ter sempre de andar em forma, gastar pequenas fortunas nas férias para passar semanas sem banho no frio ou num calor absurdo muitas vezes voltando para casa completamente derrotados, para depois fazer tudo de novo?

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