Aclimatação à altitude e patologias de montanha – 2ª Parte

Nessa segunda parte de nossa série de artigos sobre Aclimatação à altitude e patologias de montanha vamos continuar descrevendo os mecanismos de adaptação à altitude, desencadeados pelo organismo em situações de exposição a baixas pressões de oxigênio.

Além da hiperventilação, que analisamos no artigo anterior, ocorrem importantes adaptações do organismo às condições de hipoxia ao nível celular. Para se entender tais adaptações é preciso compreender o caminho seguido por uma molécula de oxigênio, transportada pelo sangue através dos glóbulos vermelhos: a molécula de oxigênio, que se encontra “anexada” à molécula de hemoglobina, penetra nos tecidos através dos capilares sanguíneos.

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Em seguida, ocorre a liberação do oxigênio da hemoglobina e seu transporte através do músculo pelos transportadores musculares de oxigênio, os pigmentos de mioglobina. Finalmente, o oxigênio transportado é consumido nas centrais de produção de energia, as mitocôndrias.

Nesse contexto de transporte e consumo das moléculas de oxigênio pelas células acontecem as seguintes adaptações, que visam melhorar as condições de oxigenação do organismo:

1) Aumento da capilaridade: abertura dos capilares sanguíneos que se encontram normalmente fechados, aumentando a irrigação celular.

2) Melhoria na liberação do oxigênio transportado pelas moléculas de hemoglobina dos glóbulos vermelhos.

3) Aumento da quantidade de transportadores musculares de oxigênio, os pigmentos de mioglobina.

4) Aumento da quantidade de mitocôndrias nos tecidos musculares, que são as centrais de produção de energia do organismo, e melhoria da eficácia das mitocôndrias para as condições de trabalho muscular em hipoxia.

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É importante detalhar um pouco mais os aspectos relacionados à liberação do oxigênio da hemoglobina, um dos mecanismos de adaptação à altitude que acontecem no nível celular. Dentre os principais fatores de dissociação da oxihemoglobina estão o aumento da temperatura muscular, o aumento da concentração de produtos eliminados pelo metabolismo celular (produtos ácidos e gás carbônico) e o aumento da concentração da substância 2-3 DPG no interior dos glóbulos vermelhos.

A intensificação do trabalho muscular produz um aumento de temperatura e uma maior produção de CO2, indicando ao organismo a necessidade de um aumento no consumo de oxigênio, estimulando uma melhoria na eficácia da liberação do oxigênio da hemoglobina. A concentração de 2-3 DPG intraglobular aumenta com a altitude e com a anoxia (condições de hipoxia, ou baixa pressão do oxigênio, no nível celular), e também é outro importante mecanismo de adaptação à altitude.

Foto: http://www.gesar-travel.com/

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Desse modo, um aumento na temperatura, uma diminuição no ph (ph ácido) e um aumento na concentração de 2-3 DPG são fatores que estimulam a dissociação da oxihemoglobina, melhorando a oxigenação do organismo. Ter um alto nível de saturação de oxigênio no sangue não implica, necessariamente, em uma boa aclimatação às condições de hipoxia, pois o nível de oxigenação do organismo vai depender da eficácia na liberação das moléculas de oxigênio da hemoglobina.

Por exemplo, uma pessoa com uma saturação de 80% (ou seja, as moléculas de hemoglobina de seus glóbulos vermelhos estão transportando 80% da carga máxima de oxigênio) pode estar mais bem aclimatada do que uma pessoa com uma saturação de 85% ou de 90% que esteja sofrendo uma alcalose respiratória, o que produz um aumento do pH (pH alcalino), dificultando a dissociação da oxihemoglobina.

Por isso que o oxímetro não pode ser utilizado, isoladamente, como um instrumento de determinação do nível de aclimatação de uma pessoa e seu uso indiscriminado pode levar a interpretações equivocadas, como a de que o organismo estaria mascarando os sintomas do MAM em pessoas com boa capacidade aeróbica.

Como já vimos anteriormente, a acetazolamida (ou Diamox) corrige a alcalose respiratória produzida pela hiperventilação excessiva, nos momentos iniciais de exposição à altitude, facilitando a liberação do oxigênio da hemoglonina e, consequentemente, o processo de aclimatação ao melhorar o nível de oxigenação do organismo.

Foto: http://iantaylortrekking.com/

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Para finalizar o assunto sobre os mecanismos de adaptação às condições de hipoxia, vamos falar da poliglobulia, que é o aumento da quantidade de glóbulos vermelhos no sangue. Os glóbulos vermelhos contêm um pigmento chamado hemoglobina sobre o qual se fixa o oxigênio. No nível do mar, a hemoglobina se satura com mais de 97% da carga máxima de oxigênio. Por volta dos 3000 m, a saturação costuma baixar para uns 90%. E a 6000 m não é anormal encontrar níveis de saturação em torno de 65% ou 70%.

A poliglobulia é a produção exagerada de glóbulos vermelhos em função dos baixos níveis da pressão parcial de oxigênio. Para compensar os menores níveis de pressão, a reação do organismo é aumentar o número de transportadores, ou seja, dos glóbulos vermelhos no sangue. Em muitos artigos e páginas na internet é apontada como o principal mecanismo de aclimatação.

Porém, apesar de haver uma maior produção de glóbulos vermelhos quando o organismo se encontra exposto a condições de hipoxia, a poliglobulia em si só começa, efetivamente, a partir de 15 dias na altitude e se estabiliza no 45º dia. Em outras palavras, em uma expedição a uma montanha como o Aconcágua, apesar de importante, não é o principal mecanismo de aclimatação, já que as expedições têm uma duração média de 2 semanas e terminam, justamente, quando começam os efeitos mais relevantes da poliglobulia. Mais um mito quando o assunto é aclimatação.

Dentre os inconvenientes da poliglobulia estão o aumento da viscosidade sanguínea, fazendo com que o coração tenha que trabalhar mais para bombear o sangue, e possíveis microcoagulações nos capilares sanguíneos, o que pode ser agravado pelo estado de permanente desidratação a que ficamos submetidos em um ambiente de alta montanha. Já que falamos em mitos, vamos comentar sobre mais um, que afirma que pessoas com um bom condicionamento aeróbico têm mais probabilidade de edema pulmonar, porque têm um coração muito forte que acaba forçando o vazamento de líquidos nos pulmões.

Ter um coração forte não é uma desvantagem na altitude, pelo contrário, já que o mesmo é mais exigido pelo fato do sangue se tornar mais viscoso. E as causas de um edema pulmonar são totalmente distintas, mas isso já é assunto para os próximos artigos, quando falaremos sobre as patologias de montanha…

Bibliografia

BAYEGO, Enric Subirats. Socorrismo y medicina de urgencias en montaña. Madrid: Ediciones Desnivel, 2006.

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CAUCHY, Emmanuel. Manual básico de medicina de montaña. Madrid: Ediciones Desnivel, 2008.

ETIENNE, Jean Louis. Medicine et sports de montagne. Editions Favre, 1990.

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IRUSTA, Dr. Gustavo. Apostila da disciplina Fisiología Aplicada al Trabajo Físico. Tecnicatura Superior en Actividades de Montaña. EPGAMT – Escuela Provincial de Guías de Alta Montaña y Trekking, Mendoza, Argentina.

IRUSTA, Dr. Gustavo. Apostila da disciplina Fisiología Humana. Tecnicatura Superior en Actividades de Montaña. EPGAMT – Escuela Provincial de Guías de Alta Montaña y Trekking, Mendoza, Argentina.

IRUSTA, Dr. Gustavo. Apostila da disciplina Patología de los Deportes de Montaña. Tecnicatura Superior en Actividades de Montaña. EPGAMT – Escuela Provincial de Guías de Alta Montaña y Trekking, Mendoza, Argentina.

IRUSTA, Dr. Gustavo. Apostila da disciplina Primeros Auxilios. Tecnicatura Superior en Actividades de Montaña. EPGAMT – Escuela Provincial de Guías de Alta Montaña y Trekking, Mendoza, Argentina.

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