Estudo sobre acidentes na escalada mostra onde são as lesões mais frequentes

No mundo de qualquer esporte existem boatos, lendas, teorias (muitas delas estapafúrdias ou empíricas). Para colocar um fim neste tipo de sub-conhecimento (o qual atrapalha o crescimento de qualquer atividade) existe a ciência. Para quem não está acostumado com este tipo de palavra, ou mesmo acredita que o conhecimento próprio é melhor que qualquer científico, é difícil convencer alguém ignorante de sua ignorância. A ciência é o conhecimento atento e aprofundado de algo e quanto a isso não restam dúvidas.

As estatísticas de qualquer veículo comprova que, por algum motivo doentio, enfermo e mórbido, muitos escaladores se interessam mais pelas notícias de acidentes. Boa parte destes buscam detalhes pouco importantes para que tenham com o que, ou com quem, dialogar em conversas de bar.

Nestas discussões, poucos usam como argumento estudos científicos ou pesquisas com metodologia científica. Uma pesquisa só existe através do levantamento de dúvidas referentes a algum tema, e as respostas buscam meios que levam o pesquisador a algum lugar com o seu trabalho científico. Para este tipo de conclusão é necessário tempo e dedicação.

As causas de um acidente devem ser observadas de maneira objetiva. Fatores esternos e supérfluos, que em nada têm importância com o fato em si, devem ser ignorados. Infelizmente o ser humano não é assim, por isso acaba discutindo aspectos pouco importantes mas que gera atenção e passionalidade quando debatido.

Sem pesquisa científica, vale mais a versão mas não o fato, em um claro exemplo da subjetividade sobrepondo-se à objetividade.

Acidentes na escalada

Ilustração: Koran Shadmi | http://www.sierraclub.org/

Um trabalho, até relativamente antigo e publicado em um jornal científico, foram estudadas as lesões causadas por acidentes na escalada em rocha. A partir da consequência (tipo de lesão), seria possível conhecer a causa mais comum (tipo de acidente). Uma pesquisa feita no centro de estudos de lesões do Nationwide Children’s Hospital, concluiu que à medida que a popularidade do esporte cresce, também aumenta o número de acidentes. O trabalho científico concluiu que 1990 e 2007, houve um aumento significativo de 63% em atendimentos nos serviços de emergência com casos relatados de serem acidentes em escalada em rocha. A pesquisa, publicada em 2009, pode ter números defasados, visto que a popularidade do esporte cresceu bastante nos últimos 10 anos. O número absoluto de acidentados em escalada em rocha no estudo é bastante interessante: 40.282 pacientes.

O estudo concluiu que a lesão mais comum relacionada à atividade de escalada em rocha acontece nas extremidades inferiores em 49% dos casos. As fraturas mais comuns eram torções e fraturas. O estudo concluiu também que mais pesquisas seriam necessárias, para identificar a relação das lesões com o tipo e estilo de escalada, assim como eficiência dos equipamentos de segurança para identificações de padrões.

Foto: Eric Hengesbaugh | http://www.rockandice.com/

No Brasil, ou mesmo em qualquer país da América do Sul, não há nenhum estudo sobre o número de praticantes de escalada. Houve no passado, especialmente no Brasil, iniciativas de realizar um censo que pudesse elucidar este “mistério”. Mas todas, por um motivo que não cabe ser discutido neste artigo, acabaram mostrando-se infrutíferas. Mas nos EUA, o qual possui uma cultura afeiçoada a números e estatísticas, estima-se que há mais de 300.000 pessoas praticando escalada indoor em todo o país. No mesmo país norte-americano, existem outros estudos que estimam em próximo de 9 milhões de pessoas que aproveitam a escalada em rocha ao menos uma vez ao ano. Ao todo, a população dos EUA é de 325,7 milhões de pessoas. Assim, em um cálculo rápido e sem muito refinamento científico, seria algo como 2,76% da população do país.

Imaginando que no Brasil haja aproximadamente a mesma proporção de escaladores, em relação à população absoluta do país (207,7 milhões), este número seria algo como 4,15 milhões escaladores. Este número, embora fictício, esclarece, sob certo ponto de vista, os motivos de que frequentemente são noticiados acidentes com praticantes de escalada. Com o número cada vez mais crescente de praticantes, mais ocorrências de lesões em decorrências do esporte aparecerão. Não há, entretanto, nenhum estudo disponível de que informações e conceitos errados de montanhismo irão aumentar, ou não, este número.

Ficando apenas analisando os valores disponibilizados pelo estudo, de concreto (graças ao estudo científico realizado por Nicolas G. Nelson e Lara B. McKenzie foi:

  • Quedas são responsáveis por 3/4 dos acidentes reportados (77,5 %)
  • Apenas 11,3% dos pacientes foram hospitalizados
  • Lesões de esforço excessivo são mais comuns nos membros superiores

Reportes de acidentes devem mudar?

Foto: http://www.thetoc.gr/

Muito comum também na comunidade de escalada, sobretudo a brasileira, é a prática de esconder um acidente. O fato é que não adianta esconder, pois ­um dia a própria comunidade vai ter que encarar a realidade. Não importa o mais difícil que seja, pois apesar de ser desagradável, todos terão que aprender que o mundo não é como você queria que ele fosse. Caso de escaladores que tentaram esconderam acidentes, negando infantilmente os fatos, mas posteriormente tiveram de admitir tudo o que negaram antes, é muito comum de acontecer.

Mas pior do que não reportar um acidente ou lesão, é fazê-la de modo errado. Assim pensa Gudmund Grønhaug e Marius Norberg em seu estudo intitulado “Primeiro estudo em lesões crônicas de escalada esportiva: proposta para uma mudança no reporte de lesões na escalada”. O trabalho científico foi publicado em 2016.

O estudo, que investigou 1409 títulos, que foram examinados para que fossem identificados casos relacionados com escalada. Após análise havia poucos detalhes, por parte dos médicos e enfermeiros, que dificulta o estudo de origens da lesão.

Bibliografia

Argentina de nascimento e brasileira de coração, é apaixonada pela Patagônia e Serra da Mantiqueira.
Entusiasta de escalada, trekking e camping.
Tem como formação e profissão designer de produto e desenvolve produtos para esportes de natureza.

There is one comment

  1. Joel Pinheiro

    Ótimo artigo! A estatística está aí pra nos ajudar a fortalecer a segurança.

    O único “lado bom” de um acidente é o aprendizado que ele deixa. Analisar um acidente nos permite aprender com o erro dos outros. O objetivo maior dessa divulgação é evitar que o mesmo tipo de acidente ocorra novamente.

    Esconder ou omitir acidente por receio de se expor ou ferir o ego de alguém é deixar uma condição latente para que o mesmo tipo de acidente ocorra novamente. É um misto de egoísmo com falta de consideração ao próximo. Por outro lado, se apressar em divulgar relatos incompletos, expondo o nome dos envolvidos, supondo fatos e fazendo julgamento de valor também é um erro enorme! O objetivo é analisar, não investigar. É importante identificar a causa básica que levou ao acidente. Geralmente há mais de uma causa ou fator contribuinte.

    Quando recebo um relato procuro me colocar no lugar dos envolvidos e me perguntar honestamente: “Já passei por situação parecida com essa? E como faço pra não repetí-la?”.

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